Suhaib Salem/Reuters
Catar ganhou a Copa da Ásia pela primeira vez na história Suhaib Salem/Reuters

Catar reformula futebol, vira potência na Ásia e sonha com a Copa de 2022

País do Oriente Médio investe em categorias de base e monta elenco com poucos naturalizados

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2019 | 04h30

Com o maior PIB per capita do mundo e recursos de sobra para construir os estádios da próxima Copa, o Catar se dedica agora ao trabalho mais difícil de preparação como país sede para o Mundial de 2022. A pequena nação  do Golfo da Arábia trabalha duro para melhorar a seleção local e tem conseguido bons resultados graças à mescla do nacionalismo com doses certas de influência estrangeira.

O Catar vive agora a alegria da maior conquista da história. No começo deste mês o país ganhou o inédito título da Copa da Ásia, disputada nos Emirados Árabes Unidos, ao derrotar na campanha as tradicionais Arábia Saudita, Coreia do Sul e o Japão na grande final. Os jogadores foram recebidos com festa no retorno para casa. O país que nunca disputou um Mundial começa agora a sonhar em fazer um bom papel.

"Pelos próximos três anos até 2022 vamos evoluir bastante. Nós podemos fazer uma boa campanha na Copa. Vamos dar o que falar no Mundial", afirmou ao Estado o zagueiro da seleção, o português Pedro Miguel Correia. Embora por muitos anos o Catar tenha recorrido a estrangeiros naturalizados para montar a seleção, isso agora é raridade. Dos 23 atletas convocados para a Copa da Ásia, somente cinco não eram locais.

Com uma população inferior a 3 milhões de habitantes e com um terço dela formada por estrangeiros, o Catar sempre penou por falta de mão de obra no futebol. O investimento de milionários do petróleo possibilitou a clubes contratarem no começo dos anos 2000 craques como Batistuta e Romário. Porém, o governo resolveu intervir e fazer com que o país conseguisse gerar os próprios talentos.

O Catar decidiu em 2010 limitar a quantidade de estrangeiros nos times e a frear a convocação de naturalizados para a seleção. Enquanto defendia as raízes locais, o governo também flertou com a influência externa em outro segmento. O país construiu uma moderna academia esportiva, chamada Aspire, feita para treinar garotos de base. A estrutura completa tem como um dos diferenciais a presença de treinadores espanhóis. Um dos diretores, inclusive, é o meia Xavi, ex-Barcelona.

"Depois que se limitou a presença de estrangeiros no Catar, teve um declínio muito grande no campeonato. Mas foi uma mudança necessária para dar espaço aos jogadores locais. Até então eles (os catarianos) não jogavam nos seus próprios times", explicou o ex-meia Fábio Montezine, atual auxiliar técnico das seleções de base do país. Revelado na base do São Paulo, ele defendeu o Catar em duas Eliminatórias para a Copa.

A geração campeã da Copa da Ásia tem média de idade de 24 anos e é formada na maioria por jogadores formados na Aspire. "O investimento que o Catar faz nas categorias de base é enorme. Os jogadores que se destacam nos clubes vão para a academia bancada pelo governo e só saem de lá para jogar por seus times. Depois eles voltam para continuarem se aperfeiçoando", contou o meia Rodrigo Tabata, ex-Santos, que está há nove anos no país.

Tabata também defendeu a seleção do Catar no passado e comenta ter notado ao longo do tempo uma evolução no campeonato. Os catarianos continuaram com o estilo técnico, mas aprenderam a ter consciência tática e mais dedicação aos treinos. A presença de estrangeiros trouxe uma mentalidade competitiva para uma população que por ser diminuta, não se preocupava com a concorrência no mercado de trabalho.

O zagueiro da seleção do Catar promete que a evolução do futebol local está só no começo. "Temos ainda outros jovens que virão com ainda mais vontade. Todos nós estamos trabalhando muito bem e muito confiantes", afirmou Pedro Miguel.

 

 

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País sonha em ser surpresa na Copa América

Seleção disputará torneio no Brasil como convidada e está confiante depois de conquista inédita

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2019 | 04h30

O plano do Catar de fazer um bom papel na Copa do Mundo de 2022 leva o país a um plano ousado. Em junho deste ano a seleção virá ao Brasil para disputar a Copa América como uma das convidadas, ao lado do Japão. A equipe quis o desafio de enfrentar as nações da América do Sul para adquirir experiência e poder enfrentar adversários de outros continentes.

"Vamos jogar contra países sul-americanos, o que não é nada fácil, mas ao tempo ganharemos muita experiência. Queremos tirar o melhor proveito possível da nossa participação. E essa experiência não beneficiará somente os jogadores, mas também os organizadores da Copa", disse o diretor técnico da Associação de Futebol do Catar, Fahad Thani.

O Catar nunca disputou competições oficiais fora do âmbito asiático e raramente pode enfrentar rivais tradicionais sul-americanos ou europeus. No ano passado, por exemplo, a seleção só jogou três vezes contra adversários de outro continente. Os compromissos foram contra Equador, Islândia e Argélia. Já na Copa América, os rivais na fase de grupos serão Argentina, Colômbia e Paraguai.

"O primeiro objetivo do Catar na Copa América será ganhar experiência. Eu sinto que eles estão confiantes. Ter vencido a Copa da Ásia mexeu com eles", avaliou o meia brasileiro Rodrigo Tabata, que joga no Al-Rayyan. Depois do título continental, o Catar saltou 38 posições na ranking da Fifa e está agora na 55ª posição, a melhor da sua história.

O Catar nunca disputou uma Copa do Mundo e antes do título da Copa da Ásia, neste ano, havia alcançado no máximo as quartas de final da competição. Em toda a história da seleção, a maioria dos treinadores foram estrangeiros. O atual é o espanhol Félix Sanchez. Entre os brasileiros que já ocuparam o cargo estão Evaristo de Macedo, Sebastião Lazaroni e Paulo Autuori.

QUATRO PERGUNTAS PARA...Pedro Miguel, zagueiro da seleção do Catar

Foi surpresa para vocês ganhar a Copa da Ásia?

Para nós, jogadores, não foi. Trabalhamos bastante desde junho para fazer uma grande campanha. Algumas pessoas não acreditaram porque não conheciam o futebol do Catar. Nós trabalhamos muito, com 100% de dedicação. Em todos os jogos tivemos uma boa atuação. Por isso, colhemos o fruto que nós plantamos desde junho. Todos no país estão muito felizes.

Por que o futebol do Catar evoluiu nos últimos anos?

O país tem apostado muito nas academias de futebol. Os clubes também dão mutias chances aos garotos e os treinadores também ajudam os jovens a evoluir nos treinos. Nós, que somos de fora, e os mais experientes, também ajudam os garotos a evoluir. Nossa seleção é muito jovem, mas tem dado resultado.

Por questões políticas, a população do Catar não pôde acompanhar o time nos Emirados Árabes Unidos. Como foi isso para vocês?

Já tínhamos falado sobre isso antes de viajarmos para a competição. Seria difícil jogar sem torcida, mas isso nos fez mais fortes. A cada jogo e treinos nos tornávamos uma família. Por isso, a torcida não fez tanta diferença. Na semifinal contra os Emirados Árabes sabíamos que seria complicado. O estádio estava cheio contra nós. Nossa equipe combinou de se concentrar no jogo e foi o que nós fizemos. Ganhamos por 4 a 0.

Qual a expectativa do Catar para a Copa América?

Sabemos que não será fácil. Se jogarmos como temos feito, como uma família, ajudando um ao outro, podemos ter um bom resultado. Temos qualidade. Muitos países não conhecem nosso futebol, mas depois da Copa da Ásia, vão nos respeitar mais. Os jogadores estão motivados e confiantes para competir na Copa América. O que temos feito pela seleção vai nos levar com moral para a Copa América. Acho que vamos fazer uma excelente campanha. Será uma experiência fantástica.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

champion Asian Cup Thanks God ❤️

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