Rubens Chiri/saopaulofcnet
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CBF dá palestras nos clubes para tentar diminuir casos de doping no futebol brasileiro

Profissionais do Departamento de Controle de Dopagem fizeram 109 palestras no ano passado

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 04h30

Nos últimos dez anos, o futebol brasileiro teve 151 Resultados Analíticos Adversos (RAA), os chamados casos de doping. Desse total, as substâncias mais encontradas foram diuréticos com 26 casos; estimulantes não específicos (cocaína) com 25 episódios e anabolizantes, consumidos por 23 atletas.

Fernando Solera, coordenador do Departamento de Controle de Dopagem da CBF, avalia que os números estão caindo nos últimos anos. “Anualmente, acompanho a relação total de RAA com o número de amostras coletadas e tenho percebido uma diminuição gradativa entre 2015 em 2018”, observa o especialista. “Em 2015, nós tínhamos um índice de positividade de 0,31%. Em 2018, o índice foi de 0,23%. Diante de dados matemáticos, não existem argumentos. Sem dúvida nenhuma o futebol brasileiro é um dos mais monitorados por uma Organização antidoping no mundo”, comenta Solera.  

O aumento dos casos de cocaína entre 2018 e 2019 representa uma preocupação para a CBF. Até o mês de abril já foram quatro casos, entre eles, o do atacante Gonzalo Carneiro, do São Paulo. “Comparativamente ao ano de 2018, é claro que chama a atenção esta demanda”, afirma o especialista. 

As penas são pesadas para quem é pego. No caso de substâncias não especificadas, como anabolizantes, estimulantes (cocaína, maconha), que são considerados casos graves, a punição é de quatro anos. Para substâncias especificadas, como diuréticos e corticoides, a pena é de dois anos. 

Além do monitoramento, a entidade aposta na conscientização dos atletas, especialmente os mais jovens, para buscar a redução contínua dos casos de doping. O Programa Educacional da CBF, dirigido para o futebol masculino e feminino, categorias de base e adulto, oferece palestras de 90 minutos sobre conceitos básicos relacionados ao doping e o antidoping, legislação desportiva com ênfase à dopagem e a prevenção ao doping involuntário. Os pais dos atletas também assistem às aulas.

Em 2018, foram 109 palestras em clubes, Congressos Médicos e de Direito Desportivo. Até o mês de maio, já foram cerca de 30 eventos de conscientização. Entre 2017 e 2018, Solera avalia que as aulas foram eficazes para a queda dos casos de doping com diuréticos (redução de 9 para 2) e também de corticoides (queda de 6 para 1 caso). 

ENTREVISTA

Ricardo Munir Nahas, vice-presidente da Confederação Sul-Americana de Medicina do Esporte (COSUMED), coordenador da Pós-graduação CEFIT-UNIP em Medicina do Esporte em trauma esportivo, explica os efeitos da cocaína nos atletas de alto rendimento: 

1. Quais são os efeitos da cocaína no organismo?  

Ela traz a euforia, aquela famosa “viagem” no aspecto psicológico. Ela deixa o usuário “ligadão” em uma festa, por exemplo. A droga também pode liberar por um período curto a agressividade e diminuir a sensibilidade à dor. No dia seguinte, o usuário acorda muito mal, física e psicologicamente, mas surge a dependência de doses crescentes para gerar aquela mesma euforia. Por outro lado, a cocaína aumenta a frequência cardíaca e a temperatura corporal. O usuário corre o risco de ter um enfarte. Em geral, os jogadores acabam consumindo a droga em festas e eventos sociais, e o metabólito vai aparecer no exame de urina. Ele acaba sendo punido não por um problema atlético e sim por um problema social. 

2. O fato de ficar ‘ligadão’ não é uma vantagem para o jogador?  

Não. A cocaína não traz uma vantagem competitiva. Seus efeitos são muito rápidos e não são cumulativos. Eles não têm interferência em um jogo de futebol. O atleta não vai fazer isso (usar droga) no vestiário. Quando ocorre o doping, o atleta foi pego em função do que fizeram na semana. 

3. Quais as razões do aumento dos casos de doping por cocaína?

Não é um problema só do esporte. Ele é de toda a sociedade. A principal saída é a educação. É preciso mostrar para eles que as punições são rígidas. Antigamente, era possível que as entidades até passassem a mão na cabeça do atleta. Hoje, isso não acontece. Isso prejudica muito a carreira de um atleta, que já é curta, além de deixar uma mancha em sua trajetória. 

 

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