Alex Silva/Estadão
Centurión, atacante do São Paulo  Alex Silva/Estadão

CBF discute mudança de regra para estrangeiros

Entidade estuda modelo inglês, onde jogador precisa ter passagem pela seleção

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2015 | 17h00

A CBF estuda a possibilidade de restringir o número de estrangeiros no Brasil. A proposta foi debatida durante encontro de ex-técnicos da seleção brasileira na sede da entidade e deve ser encaminhada para discussão entre os clubes nos próximos dias.

A medida visa conter a entrada sobretudo de jogadores sul-americanos, contratados muitas vezes apenas por aceitarem receber salários mais baixos do que os brasileiros. Estão inscritos atualmente no Departamento de Registro e Transferência da CBF 90 atletas profissionais estrangeiros.

“A ideia é que a gente melhore o nível técnico e a qualidade dos jogadores que vão atuar aqui. Para trazer igual ou pior do que nós temos aqui, não precisamos contratar de fora”, defende Carlos Alberto Parreira.

A proposta discutida na CBF segue basicamente o modelo inglês, no qual para atuar em um clube do país o jogador de fora da comunidade europeia precisa ter um número mínimo de convocações para a seleção. Desde 1.º de maio entraram em vigor na Inglaterra regras mais rígidas que vetam, por exemplo, a contratação de atletas cujos países não estejam até a 50.ª posição do ranking da Fifa. Antes, o limite era o top 70.

Aqui no Brasil, no entanto, o projeto não foi bem aceito pelos treinadores. Tite, do Corinthians, é contra dificultar a entrada de estrangeiros no País. “Não é esse tipo de medida que vai ajudar a melhorar o futebol. Quanto mais qualidade, melhor. Estimula a concorrência e eleva o nível. Não importa se o jogador é de fora”, disse.

Atual bicampeão brasileiro com o Cruzeiro e hoje no comando do Palmeiras, Marcelo Oliveira também defende que a CBF não deve endurecer os requisitos para a entrada de jogadores de fora no País. “Acho saudável e legítimo a interação com estrangeiros. Vale como experiência para os nossos atletas. Talvez o Parreira esteja preocupado com a formação do jogador brasileiro e a seleção, mas a nossa seleção é formada por atletas que estão fora, então os estrangeiros não causam prejuízo. Acho até que são benéficos, porque trazem ideias novas.”

O colombiano Juan Carlos Osorio, técnico do São Paulo, reage com espanto à proposta. Pós-graduado em ciência do futebol pela Universidade de Liverpool e auxiliar técnico no Manchester City durante cinco temporadas, ele não concorda com a comparação entre as realidades de Brasil e Inglaterra. “Isso me surpreende. A quantidade de jogadores estrangeiros no Brasil é muito baixa. Não vejo como um problema, como na Inglaterra. Lá, vários times, como o Arsenal, muitas vezes não tinham na escalação nenhum inglês sequer. No Brasil, todos os times têm oito ou onze brasileiros.” / COLABORARAM CIRO CAMPOS e DANIEL BATISTA

*ANÁLISE: Pablo Forlán

'É preciso saber jogar. Se bastasse lutar, os clubes contratariam boxeadores'

Na minha época de jogador, todos os uruguaios que foram para o Brasil já haviam passado pela seleção. Sem dúvida, isso é uma coisa muito importante porque você chega ao País com uma bagagem grande. Éramos do Peñarol, do Nacional, tínhamos disputado algumas Libertadores e até Copa do Mundo. O nosso currículo era importante.

Grandes jogadores uruguaios passaram pelo Brasil, como Pedro Rocha, Hugo de León, Darío Pereyra, Olivera, Rodolfo Rodríguez e Mazurkiewicz. Acredito que, de alguma forma, colaboramos com o futebol brasileiro porque sempre defendemos com muita luta e garra as cores que vestimos.

Mas isso não é suficiente. É preciso saber jogar. Se bastasse lutar, os clubes brasileiros contratariam boxeadores ou atletas de caratê, e não jogadores de futebol. É por isso que entre 209 seleções do mundo, o Uruguai está entre as sete melhores da história, com quatro taças mundiais (incluindo dois ouros olímpicos), 15 Copas Américas e várias Libertadores.

É evidente que a decisão de diminuir o número de estrangeiros no Brasil passa exclusivamente pela CBF e os clubes, mas, na minha opinião, o futebol brasileiro não vai melhorar com mais ou menos atletas de fora do País. Sobram jogadores brasileiros com potencial tanto nos clubes do Brasil como no exterior.

O maior problema está na escolha de quem vai defender a seleção brasileira. Nos últimos anos, os atletas não foram bem escolhidos. Com todo respeito aos técnicos, acho que o Brasil não soube definir os seus melhores jogadores para participar de competições como Copa América e Copa do Mundo. A seleção brasileira tinha condições de disputar no ano passado uma Copa muito melhor do que fez e a culpa não foi dos jogadores estrangeiros que atuam nos clubes do País.

As Eliminatórias para o Mundial de 2018 vão começar agora e estou esperando para ver o que o Brasil vai fazer. É muito importante que o técnico convoque jogadores que ele conheça bem. O time joga duas partidas seguidas e depois demora para se reunir novamente. O treinador não pode ficar mudando os atletas a todo instante. É preciso ter uma base forte.

*PABLO FORLÁN JOGOU NO SÃO PAULO DE 1970 A 75 E DEFENDEU O CRUZEIRO EM 76. DEPOIS FOI TÉCNICO DA BASE NO MORUMBI E DO TIME PRINCIPAL

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'O problema não é a bandeira que um jogador representa'

Atacante do Palmeiras acredita que cota para estrangeiro não vai ajudar o futebol brasileiro

Entrevista com

Cristaldo

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2015 | 17h00

O que pensa da ideia de limitar os estrangeiros no futebol brasileiro?

Acho que tem que jogar de acordo com a qualidade do jogador, tanto faz de onde ele vem. O futebol é jogado da mesma forma em todas as partes. O problema não é a bandeira que um jogador representa. Ele tem que ter qualidade, independente da nacionalidade.

Mas os estrangeiros podem ajudar?

Acredito que sim. Na Inglaterra, a maioria joga mesmo em sua liga, mas no resto do mundo, não. Na Espanha tem um monte de estrangeiros e o campeonato é um dos melhores do mundo. E na seleção argentina, todo mundo joga fora, ninguém fala nada e continuam revelando jogadores normalmente, como acontece no Brasil. Isso é normal. Não ficaria bom ver o Messi jogando o Campeonato Argentino.

Pelo que você sente, o Brasil vive uma crise no futebol?

Acho que estão exagerando. O Brasil tem uma boa seleção, mas se os resultados não acontecem, tem que ser cobrada como a Argentina também, porque estamos falando de potências mundiais. É que futebol tem uma paixão e as pessoas exageram. Acredito que o Brasil vai dar certo e tem outra coisa também que é o fato de outras seleções terem crescido bastante. Hoje o futebol está muito igual.

O que tem de diferente no Brasil para outros países (jogou na Argentina, Ucrânia e Itália)?

Aqui o jogador tem mais qualidade do que na Ucrânia e na Itália. O Brasil tem uma grande potência para criar jogadores de qualidade, rápidos e de bom dribles, mesmo com os clubes tendo estrangeiros.

A torcida te trata diferente por ser estrangeiro?

Não. Acho que os palmeirenses gostam de mim pela dedicação que tenho, pelo meu estilo de jogo e meu jeito. Sei também que não agrado todo mundo, mas acho que o fato de eu ser argentino não faz com que algum torcedor goste mais ou menos de mim.

Acredita que poderia ir para a seleção de seu país jogando no Brasil?

Eu sou consciente da qualidade dos jogadores existentes em meu país. Tem muitos bons jogadores com a característica igual a minha, então é muito difícil. Quem sabe se eu fizer uns 100 gols pelo Palmeiras, aí pode ser. Eles vão ter que me buscar aqui.

Existe muita brincadeira entre vocês por causa da rivalidade Brasil x Argentina?

Um pouco. No 7 a 1 da Alemanha, eu estava jogando na Ucrânia ainda e assisti o jogo com brasileiros, entre eles o Cleiton Xavier, e argentinos. Até o terceiro gol, deu para tirar sarro. Depois paramos, porque tínhamos que respeitar o companheiro. Eu não gostaria de ser “zoada” tomando de sete. Eles também me respeitaram quando perdemos a final da Copa do Mundo e da Copa América.  

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