JF DIORIO / ESTADÃO
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Especial: Cem jogos do Palmeiras na arena

O Palmeiras chega ao 100º jogo no Allianz Parque com a certeza de que o investimento valeu a pena

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

08 Março 2018 | 07h00

Estádio concebido dentro do padrão Fifa, a nova arena foi inaugurada no ano do centenário do Palmeiras, em 2014. A praça esportiva também tem a capacidade para receber variados eventos, como shows, e é cotada como uma das sedes de partidas da próxima Copa América, que será realizada no Brasil em 2019. Mas nada disso é tão importante quanto a aproximação do torcedor.

O novo campo de jogo representa um grande aliado para o Palmeiras. A presença do público bem próximo ao campo pressiona os adversários e contribui para o time ter bom rendimento nos resultados. Nesses três primeiros anos de utilização, foram dois títulos conquistados no local: Copa do Brasil 2015 e o Campeonato Brasileiro 2016.

Em todo o retrospecto das partidas disputadas, a equipe tem números favoráveis tanto dentro quanto fora de campo. De modo geral, o palmeirense está satisfeito com sua Casa.

Fora os gols, o clube se beneficia também financeiramente do projeto, principalmente com as receitas de bilheteria. Além da média de público acima de 30 mil por partida, o Palmeiras viu o programa de sócio torcedor se consolidar com a inauguração da nova arena, que virou um atrativo até mesmo turístico para a cidade. O estádio também é aberto para os torcedores visitá-lo em dias sem jogos.

Reduto de apresentações internacionais, a arena recebeu desde sua inauguração 44 shows, que atraíram cerca de 1,5 milhão de pessoas. Uma nova forma de plantio do gramado e de preparação do palco permitiu nas últimas ocasiões o time utilizar o estádio mesmo poucos dias depois desses espetáculos.

A arena tem média de público elevada e uma renda bruta acima dos R$ 2 bilhões, tudo porque conseguiu aumentar de forma bastante significativa o número de frequentadores em comparação aos anos anteriores à sua inauguração, em novembro de 2014.

ARTILHEIRO

O grande nome palmeirense dentro da arena é Dudu. O capitão do time é quem mais fez gols e deu assistências no estádio. Além disso, ele comemorou duas conquistas no Allianz. "São marcas e momentos bem legais. Essas coisas me deixam feliz e levarei isso comigo para o resto da minha vida. Já vivi grandes momentos no Allianz, marquei gols, comemorei títulos e sempre recebi o carinho da torcida. Espero seguir fazendo bons jogos em nossa casa e ajudar o clube a conquistar os objetivos da temporada", disse o jogador.

TIME MAIS RECEBIDO

O Santos foi o time que mais enfrentou o Palmeiras na nova arena. As seguidas decisões em Estaduais e também na Copa do Brasil fizeram o clube da Vila Belmiro se transformar em um rival bastante frequente nos encontros disputados no Allianz Parque.

ÚLTIMO ENCONTRO

O jogo mais recente entre Palmeiras e Santos foi pelo Campeonato Paulista, em fevereiro deste ano. O time da casa ganhou com gols de Antônio Carlos e do colombiano Borja.

Começo da arena: 'A arena causou mais impacto do que a Parmalat'

Ex-presidente do Palmeiras, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo foi o responsável por organizar e iniciar o projeto de transformação do antigo Palestra Itália em Allianz Parque. Uma empreitada árdua e cheia de dúvidas, como relembrou o dirigente em entrevista exclusiva ao Estado. Os esforços tiveram fruto, pois segundo ele a inauguração da arena causou para o clube um dos maiores impactos de toda a sua história.

O impacto do estádio te surpreendeu?

Eu costumo comparar a decisão de encaminhar a construção do estádio com o acordo de co-gestão da Parmalat. Nos dois casos havia uma leva de incerteza muito grande a respeito do resultado. Se eu dissesse para você que antecipei o resultado, estaria mentindo. Estaria sendo infiel à minha formação e concepções. Você tem que imaginar não só os resultados do empreendimento, como também os efeitos que ele vai produzir. Foi uma aposta. Foi muito ajudado por companheiros de clube, que foram muito importantes. Você tem que tomar essa decisão consultando as pessoas. Foi um processo difícil, inclusive porque não havia outro estádio parecido com as características do Allianz. Contei com a circunstância favorável e o espírito desbravador do Walter Torre (dono da construtora), que se apaixonou pelo projeto. Ele fez consultas em outras arenas do mundo e fez da forma mais avançada, além de carregar o risco. Nós transferimos todo o risco para a WTorre. O clube não investiu um tostão sequer e cedeu o uso do terreno, que aliás estava todo ele submetido a penhoras. Paguei R$ 63 milhões em 2010 graças a um empréstimo para suspender as penhoras e obter o alvará. 

E o que te fez acreditar no sucesso?

Uma das nossas vantagens era a localização. Aliás, acho que foi o Luis Paulo Rosenberg, que falou da baleia no aquário, né? Ele tem um pouco de dor de cotovelo. A baleia nada em um tanque de grana. É chato dizer isso, mas é verdade. Sou amigo dele e compreendo a angústia que ele tem. A oposição foi muito resistente ao estádio, porque disse que eu tinha dado o estádio para a WTorre. Foi uma espécie de concessão, válida por 30 anos, para dar um mínimo de segurança jurídica e empresarial. O que me interessava ali era que eu queria diminuir a dependência do Palmeiras das receitas convencionais, como transmissão de jogos e patrocínio. Se eu disser que imaginava o sucesso, seria mentira. Uma decisão desse tipo, sobretudo com um ativo inédito, tinha riscos e poderia não dar certo. A torcida abraçou o estádio e a arena alavancou o programa de sócio torcedor.

Dentro da história do Palmeiras, você compararia o impacto da arena com que outro acontecimento?

Não sou a pessoa indicada para falar isso, porque seria um elogio a mim. Mas o estádio tem um impacto maior do que a Parmalat. O Palmeiras é um clube muito peculiar. É o mais conservador e ao mesmo tempo mais inovador que eu conheço. O estádio é um divisor de águas mais profundo do que a Parmalat. E eu também participei desse projeto.

Os ingressos com o novo estádio ficaram mais caros. Como avalia isso?

Sei que tem muita discussão que o estádio na verdade elitizou a torcida, como dizem, gentrificou. Os ingressos são mais caros. Mas é preciso ter claro que você até pode fazer políticas de atração para pessoas menos favorecidas, mas é preciso entender que esses estádios não são como os antigos. Estamos em outro momento. O clube que quer sobreviver, precisa se valer dessa nova forma, da nova relação com os torcedores, associados e balançar entre atrair quem não é muito favorecido e ao mesmo tempo manter a capacidade de arrecadação. Hoje quem vai ao estádio se sente confortável com o atendimento, porque são bem recebidas e bem tratadas. É sinal de respeito com o torcedor.

O senhor vai sempre ao estádio?

Não muito. Não faz parte do meu repertório ir lá e receber agradecimentos. Eu fiz minha obrigação. Muita gente me agradece quando vou lá, ficou feliz. Mas não acho que seja o caso. Sou palmeirense de estirpe, de família. Sou neto de italianos, então vem de DNA. Não tenho isso de se valer do clube para celebrar a sua personalidade.

Não gosta de ser rotulado como o mentor do estádio?

Eu me sinto feliz de ter feito isso pelo Palmeiras, pela comunidade. A celebração é imprópria. O futebol suscita vaidade, inveja, ressentimentos, coisas que atrapalharam muito o clube no passado. Muita gente se vale do clube para se promover. Não gosto de estimular isso. Hoje me considero só torcedor.

Em qual momento o senhor teve a ideia?

Em 2007 eu cheguei como diretor de planejamento do presidente Affonso Della Monica, que foi quem assinou o contrato. Depois eu assinei a escritura. Tivemos antes uma tentativa com outra empresa, que não foi bem sucedida e tivemos uma reunião na WTorre. Pensamos no modelo, no contrato e fomos encaminhando o projeto até a assinatura, em 2008. A redação do contrato foi feito por um escritório especializado, os conselheiros apreciaram o conteúdo e aprovaram. Entre 2008 e 2009 demos sequência ao processo, enfrentamos problemas com financiamento do empréstimo de R$ 350 milhões. Tivemos momentos curiosos na obra, como um conselheiro que quando as máquinas entraram para derrubar o antigo estádio, se jogou na frente. Felizmente não teve um acidente maior. Teve outro caso de um conselheiro que me disse que eu tinha deixado o clube em ruínas.

O alvará do estádio foi assinado pelo senhor no hospital. Como foi isso?

Foi em 2010. Todo mundo fala que fiquei doente por causa do Palmeiras, mas não é verdade. Problema cardíaco é algo genético. Houve a coincidência de eu estar com 95% de obstrução em uma das coronárias e aí o prefeito Gilberto Kassab foi para levar o alvará. Eu andava pelos departamentos da prefeitura para resolver burocracias da obra. Tive de resolver um problema com o Ministério Público, que não queria que eu derrubasse tudo. Pode ver que tem uma parte da arquibancada antiga lá ainda. 

O senhor acompanhou de perto a obra depois de deixar a presidência, em 2010?

À distância. Eu era informado de como estava andando. Perto da inauguração foi lá ver como estava. Eu acompanhava a evolução por um site. Não tinha essa obsessão, não. Na inauguração não fui convidado.

Ficou magoado?

Eu já disse que Palmeiras para mim faz parte de outro universo. Não ficou magoado por nada. Acho que foi uma espécie de descuido, talvez motivado por ressentimento. O clube não é um ambiente favorável. Agora eu tenho ido aos jogos, tenho cadeira cativa desde o antigo estádio. A primeira vez foi lá foi em um empate em 2 a 2 entre Palmeiras e Atlético-MG, em 2015.

O clube a empresa tiveram vários problemas de relacionamento. Faria o contrato diferente?

Isso é normal. Foi sábio escolher a arbitragem para as divergências. É comum ter conflitos de interesse e para se resolver de forma civilizada, colocamos no contrato que é preciso resolver os problemas em câmaras de arbitragem. Nenhum contrato é perfeito. Hoje, se eu fosse fazer, teria colocado outras questões, para clarear alguns pontos. O importante é que os dois se beneficiam. O Palmeiras ganha com a bilheteria e a WTorre, com os shows. Eles precisam se entender um pouco sobre quem paga o quê. Qualquer parceria é complicada. Por isso é preciso ter instrumentos necessários para contornar os conflitos.

O senhor se sente pouco reconhecido?

O que me conforta é a reação dos torcedores do Palmeiras. O que acontece lá no clube não quer me dizer nada. Tenho amigos, claro. Levantei hostilidades dentro do Palmeiras até pela minha forma de agir. Sinto recompensado por fazer as coisas. Não preciso que as pessoas fiquem me agradecendo. Esses dias uns parentes estiveram no show e me agradeceram pelo estádio. Na rua também acontece de motorista de táxi me reconhecer e elogiar a arena. As manifestações populares são as mais marcantes para mim. 

Gramado: Alvo de polêmica, campo supera críticas graças a novo tipo de grama

O gramado onde o Palmeiras joga, marca gols e atrai a torcida é um dos locais mais cuidados da arena. Pela configuração multiúso do Allianz Parque, o piso que recebe shows ao mesmo tempo em que sedia partidas, precisou passar por uma reformulação radical recentemente para dar conta de todos esses variados compromissos.

A mudança veio em 2017, depois de seguidas polêmicas e críticas por parte da comissão técnica do Palmeiras sobre o mau estado de conservação da gramado. A administradora do estádio resolveu, então, apostar em uma nova forma de plantio, junto com um novo tipo de grama. A Bermuda Celebration substituiu a Bermuda Tifgrand e conquistou elogios dos jogadores.

"'Essa grama tem duas vantagens. A primeira é se adaptar melhor à pouca luz e ter mais velocidade de crescimento', explicou Breno Rodrigo Couto, gerente da Itograss, empresa responsável pelo fornecimento de grama. 'As arenas multiúso dão conforto ao público por ter uma cobertura maior do estádio, mas oferecem como dificuldade expor o gramado menos à luz', afirmou."

A nova grama teve uma aceitação melhor, gerou menos problemas e costuma ser plantada em tempo recorde. Isso porque os responsáveis mudaram a técnica. Antes, os pedaços do futuro campo eram transportados de uma fazenda até São Paulo em cortes de 30 metros de comprimento e de 1 cm de espessura. A partir, de agora os blocos são mais espessos (3 cm) e mais curtos (12 metros).

O Estado acompanhou em abril de 2017 a troca completa do gramado. Graças às novas dimensões de corte, a grama pode ser utilizada para um jogo em cerca de dois dias após a finalização do plantio. "A grama viaja de caminhão e cercada de cuidados. Quase sempre transportamos à noite, para evitar o trânsito e fazer um trajeto mais rápido. A troca total do gramado necessita 625 rolos de grama", contou o gerente.

Nessa troca realizada no último ano, o Allianz Parque investiu cerca de R$ 300 mil no serviço. Trabalharam na operação de plantio 60 funcionários. 

Dez curiosidades sobre o cem jogos

1. A despedida

O 27 de novembro de 2016 teve outra marca além do título brasileiro conquistado pelo Palmeiras. O dia teve o último jogo da Chapecoense antes da tragédia aérea que causou a morte de 71 pessoas, na Colômbia. Dos 14 jogadores utilizados pelo time catarinense na partida, somente o lateral Alan Ruschel sobreviveu. Uma das vítimas fatais do acidente que esteve na arena naquela tarde foi o atacante Ananias, que em 2014 marcou pelo Sport o primeiro gol do estádio.

2. As brigas

A relação não é totalmente de paz entre o Palmeiras e a construtora WTorre, responsável por administrar o estádio por 30 anos. A briga pública entre ambas foi sobre a diferença na interpretação do contrato sobre a utilização de 10 mil assentos da arena. O caso foi parar na câmara de arbitragem. As duas partes ainda brigam nos bastidores sobre acertos como custos operacionais, manutenção, criação da sala de troféus e repasse de rendas nos jogos em que o time faz em outros locais devido a shows no Allianz Parque.

3. O cerco

Em outubro de 2016 a Polícia Militar começou a aplicar antes dos jogos o cercamento das ruas ao redor do estádio. O entorno é isolado sob a justificativa de segurança e só podem entrar nas imediações quem tem ingresso, moradores da região ou quem vai trabalhar na partida. A medida causou reclamações dos torcedores, que tinham nas ruas próximas à arena um ponto de encontro e de comemorações. Porém, a diretoria do Palmeiras concordou com a atitude por considerar que contribui com a redução de furtos.

4. Devolução de ingressos

Em julho de 2017 a diretoria do Palmeiras precisou devolver os ingressos comprados pela torcida do Atlético-MG para o jogo entre as equipes, pelo Campeonato Brasileiro. Tudo porque os visitantes ficaram em um local reservado e cercado com uma cerca de acrílico. O problema foi que o material absorvia a luz e isso atrapalhou a visão de quem estava no setor para ver a partida, que acabou empatada sem gols.

5. Carona

O primeiro jogo na arena trouxe um imprevisto. Ao contrário do planejado, os ônibus dos times não poderão entrar pelo estádio ela entrada principal, já que havia costuma ficar lotada de torcedores. A solução adotada desde então é de receber os veículos por outro acesso e depois, embarcar os jogadores em um carrinho, parecido ao utilizado para carregar maca, que fica o responsável por completar o trajeto do portão de chegada até o vestiário.

6. Endereço novo

Em abril de 2015 o estádio do Palmeiras ganhou um novo endereço, pois a rua trocou de nome. Antigamente chamada de Turiassu, a via passou a se chamar Palestra Itália ao longo do trecho de 600 metros que contempla a entrada principal da arena. A cerimônia de promulgação da mudança teve, inclusive, a presença do então presidente do clube, Paulo Nobre.

7. Despedida do rival

O último jogo do técnico Tite antes de assumir a seleção brasileira foi na arena. O treinador do Corinthians perdeu por 1 a 0, pelo Campeonato Brasileiro, pouco antes de aceitar o convite da CBF para substituir Dunga. Por curiosidade, o clássico foi realizado em 12 de junho, mesma data da histórica final do Campeonato Paulista de 1993.

8. Chuveiro desregulado

No clássico com o São Paulo, em março de 2015, pelo Campeonato Paulista, o árbitro Vinicius Furlan formalizou na súmula uma reclamação incomum. Segundo ele, os chuveiros dos vestiários da arbitragem estavam com a água muito quente, o que atrapalhou o banho deles após a partida.

9. Filtragem estadual

Na abertura do estádio, o encontro entre Palmeiras e Sport, pelo Campeonato Brasileiro de 2014, a Polícia Militar adotou um procedimento incomum de segurança. Para acessar o estádio, a torcida visitante precisava comprovar que tinha o documento de RG obtido em Pernambuco. Desprevenidos, alguns torcedores tiveram problemas para conseguir entrar.

10. Água causa processo

Três torcedores do Palmeiras decidiram processar o clube, a WTorre e a CBF após os assentos onde estava no Allianz Parque terem sido atingidos por um escoamento errado de água. A ação cobra uma indenização de R$ 60 mil. O incidente foi durante o clássico entre Palmeiras e Santos, pelo Campeonato Brasileiro de 2017, realizado em uma noite chuvosa de sábado e que teve ainda apagões no estádio.

Do Palestra Itália ao Allianz Parque

Por Glauco de Pierri

O torcedor do Palmeiras pode se considerar um privilegiado. Hoje, ele conta com um dos melhores estádios do mundo justamente no mesmo endereço onde no passado o clube tornou-se uma potência do futebol brasileiro, sul-americano e mundial. Se não temos mais o charme do Jardim Suspenso, com as chaminés da antiga Indústrias Matarazzo ao fundo das arquibancadas ou a visão das piscinas do clube, hoje temos um colosso chamado Allianz Parque, moderno, acessível e ainda mais pulsante que a versão anterior da casa palestrina.

A história da transição de um estádio para o outro é complexa, porque deixou uma lacuna de cerca de quatro anos até o término da obra. Jogar “sem casa” pesou mais para algumas equipes do Palmeiras, mas era um ônus que clube e torcedores precisavam passar, para que o clube pudesse dar seguidos passos à frente de seus adversários em uma série de fatores, entre eles a arrecadação – sem dinheiro, não há futebol competitivo no mundo de hoje. 

No centésimo jogo no Allianz Parque, me forço a lembrar o começo da construção da alma de boa parte do palmeirense que hoje frequenta o novo estádio e que leva para o campo a sua família. O pensamento é nesse cara que tem entre 25 e 45 anos, que faz questão de ser sócio-torcedor Avanti, que está a todo momento com a cabeça no clube. Para isso, uma volta no tempo dá a certeza de onde é que foi fortificada a relação entre o torcedor do Palmeiras e sua casa, onde quem usa a camisa verde se sente bem – é ali, naquele pedaço da cidade de São Paulo que a gente quer estar.

A década de 1980 foi difícil para o Palmeiras, mas não dá para dizer que foi tão ingrata como parece com o torcedor palmeirense – especialmente para crianças, adolescentes e jovens adultos que adotaram o Alviverde como time do coração. Bem, é verdade que o jejum de títulos (de 1976 até 1993) incomodava muito o palestrino de qualquer idade. Também é fato verídico que as equipes, salvo raras exceções, eram quase que abaixo da crítica para os mais velhos daquela época, que cresceram com um futebol de encher os olhos das duas Academias, quando um leque de gênios da bola desfilavam pelos estádios – Ademir da Guia, Dudu, Leão, Chinesinho, Valdemar Carabina, César Maluco, Eurico, Djalma Dias, Djalma Santos, Nei, Edu Bala, Ronaldo...

O motivo para essa explosão de amor pelo Verde e pelo Branco resistir às mazelas do mundo da bola residia na resistência da própria torcida, que tinha um endereço certo toda santa semana, mesmo quando não havia jogos, para renovar sua esperança em dias melhores: o estádio Palestra Itália. 

Palestra Itália, Parque Antarctica ou Jardim Suspenso era e sempre foi a segunda casa de todo o torcedor Alviverde. Era lá que o Palmeiras treinava todo santo dia e era como uma via-crúcis do povo palestrino – quase todo o final de semana, o programa da família palmeirense era partir rumo a Rua Turiaçu ou para a Avenida Francisco Matarazzo. Quem era sócio do clube, então, podia muito bem chegar cedinho, passear pelas alamedas arborizadas, brincar com suas crianças e doutriná-las ao Palmeiras com outros amigos, “cornetar” tudo e todos no “pátio dos milagres” e nas lanchonetes, tentar arrumar uma cadeira cativa para assistir ao jogo das numeradas, mas pagando o ingresso de arquibancada. 

Se o jogo fosse no Pacaembu, não havia problema. Mas a gente precisa ir para o “Palmeiras” antes. Quando a partida era literalmente em casa, era mais gostoso chegar cedo. Porque cedo você podia entrar pelo portão principal, passar pela catraca, começar sua caminhada pelo piso de cimento hexagonal (aquele piso em forma de colmeia) todo desnivelado, subir no primeiro túnel atrás do gol do placar e ver se o público seria bom. Você podia se sentar no "chiqueirinho", onde em jogos menores, como contra os times do interior, as famílias dos sócios se divertiam. Pais e mães assistindo o jogo e as crianças correndo, disputando o jogo dos pequenos dando chutes em copinhos de plástico. 

No nosso velho Parque Antarctica, a gente podia olhar para o placar analógico dos anos 80, uma relíquia que um temporal derrubou sobre a arquibancada em um dia de chuva – mas sem jogo. No nosso antigo estádio, podíamos crescer vendo as nossas bandeiras – eu acho que nós não tínhamos "organizadas" – havia a nossa torcida uniformizada, a nossa mancha verde na arquibancada, o nosso coração verde escrito numa faixa e ainda a máfia, a ira, a cana, o greenpeace, sempre juntas. 

Tinha briga, mas não com as crianças e era uma época em que não morria ninguém. Hoje dá pra perceber que os conflitos eram provocados muito mais pela inquietude e jovialidade da maior parte do pessoal das torcidas do que por violência propriamente dita. Não era uma torcida violenta a do Palmeiras, era uma torcida reativa, em ebulição, controversa, inquieta e explosivamente apaixonada por nossas cores. 

Mas passamos a nos preocupar mais com isso no final daquela década e passamos a ver nossos heróis morrerem. Naquele Palmeiras e Cruzeiro de 1988, do minuto de silêncio em homenagem ao Cléo, estávamos eu, meu pai (‘seu’ Pierri, que saudade), Vini, Tio Nenê e Dé atrás do gol. Em segundos, o desrespeito dos cruzeirenses transformou nossa arquibancada em campo de batalha e é dali a minha primeira recordação do som de um tiro – o estampido seco foi dado por um policial que lançou sua bala para cima para "conter" a fúria palmeirense, como se ela não fosse cair em algum canto. 

O Palmeiras mandava seus jogos em outros estádios também – com bastante frequência no Pacaembu e os clássicos quase sempre eram no Morumbi, mas era o Parque Antarctica dos anos 1980 que vivíamos nossas vidas. São muitas lembranças divertidas: Palmeiras 2 x 2 Bangu, em 1985 com Neto no time carioca caindo na provocação da torcida; Palmeiras 2 x 0 Joinville em 1986, quando a alegria no segundo tempo foi desafiar o cara da piscina a pular do último trampolim (demorou, mas ele pulou); Palmeiras 3 x 2 Portuguesa de 1988, com o gol da vitória feito pelo zagueiro Nenê, de cabeça, no final da partida; Palmeiras 1 x 0 Criciúma, no mesmo ano, com gol de Sílvio também no finalzinho; Palmeiras 1 x 0 Vasco, em 1989 (o time do Vasco era espetacular e ganhamos com gol do finado atacante Gaúcho); Palmeiras 1 x 0 Grêmio de 1990, com o Palmeiras jogando de camisas brancas e gol de pênalti do Careca Bianchesi no final; Palmeiras 2 x 0 Flamengo em 1991, com o Odair comemorando na bandeirinha de escanteio; Palmeiras 1 x 0 Botafogo de Ribeirão Preto, com gol de Evair; Palmeiras 1 x 0 Guarani de 1992, com gol do Evair de novo...

A partir de 1993, o jovem dos anos 1980 ganha um novo melhor amigo – o Palestra Itália. Pois foi lá que foi moldada a conquista do título que encerrou o jejum daquele ano. Ali vimos empates com Ponte Preta e Rio Branco debaixo de dilúvios; ali vimos a vitória por 6 a 1 em cima do Rio Branco de Americana, com protesto contra o então presidente Mustafá Contursi pelo preço alto dos ingressos e mais uma série de jogos incríveis, cada um com sua história. 

Depois, com o passar dos anos e com cada canto do estádio conhecido na palma da mão, ainda saboreamos vitórias inesquecíveis como duas sobre o Boca Juniors da Argentina (6 a 1 em 1994 pela Libertadores e 3 a 1 em 1998 pela extinta Copa Mercosul); 4 a 1 sobre o Vélez Sarsfield (Libertadores-1994); 2 a 0 sobre o Santos (Paulistão-1996); 5 a 0 em cima do Santos e 5 a 1 contra o Grêmio (Brasileirão-1997); 1 x 0 sobre o Cruzeiro (final da Mercosul de 1998) e duas históricas vitórias antes do começo dos anos 2000, as duas pela Libertadores de 1999 – 3 a 0 no River Plate pela semifinal e os 2 a 1 no Deportivo Cali na decisão, com vitória nos pênaltis por 4 a 3. 

Não sei muito bem o que aconteceu a partir dos anos 2000, mas a verdade é que o ou ficamos mais velhos e passamos a ter outras prioridades ou o futebol foi chato e entediante. Nessa década, as partidas que mais marcaram foram as da fase final do Paulistão de 2008, com vitórias sobre São Paulo e Ponte Preta, e o último jogo válido no local, triunfo por 4 a 2 em cima do Grêmio no Brasileirão de 2010 – a despedida de fato foi na derrota para o Boca Juniors por 2 a 0 no mesmo ano. 

Fica no ar a saudade eterna de sair do estádio e caminhar pelo túnel a passos lentos, pegar no pé dos jornalistas corintianos na passagem pelas numeradas descobertas e cobertas (eu acho que o Chico Lang mais se divertia do que ficava irritado) e deixar o estádio com a certeza de que você voltaria na próxima partida. Hoje, fortificada essa relação entre torcida e clube, não importa muito quem é que entra no estádio, na nova arena, mas sim o que ocorre em todo o seu entorno, em todo dia, com jogo ou sem jogo, dentro ou fora do Allianz Parque. Esse estado de espírito ninguém mais tira do palmeirense.

Antes e depois do estádio

Por dentro do estádio

 

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