Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Cemitério Novodevichy, um local para homenagear os heróis russos

A lápide do general cosmonauta Gherman Titov é uma das 'atrações'

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 05h00

O grupo era grande e o passo rápido. Atrás do guia, mais de vinte chineses se apertavam para ver em detalhes as mais diferentes formas de homenagens a uma extensa classe de heróis da Rússia e da União Soviética. De um lado, o corpo perfeito de uma bailarina em granito. De outro, a réplica de um tanque de guerra com canhão e tudo. Ainda é possível ver aviões e outros adereços militares, bandeiras do país, instrumentos musicais, livros e, claro, artigos que remetem à corrida espacial. É assim, com estátuas, que o Cemitério Novodevichy recorda das personalidades que ali estão enterradas. Adornos que, claro, com o tempo, viraram mais uma das atrações turísticas de Moscou.

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Novodevichy também é conhecido com o 'Cemitério dos Astronautas'. É lá que está a lápide, por exemplo, do “general cosmonauta Gherman Titov, o segundo a ir para o espaço, depois de Yuri Gagarim, mas o primeiro a passar mais de um dia fora do nosso planeta”, explica todo orgulhoso o russo Vitaly, que caminhou com a reportagem do Estado pelas arborizadas alamedas do local.

Guerman Titov era piloto da Força Aérea Soviética e, aos 26 anos, no dia 6 de agosto de 1960, subiu ao espaço a bordo da nave Vostok 2. Até hoje ele é o astronauta (os russos só falam 'cosmonautas') mais jovem a ter saído da órbitra terrestre. No voo, ele dormiu na cápsula espacial e cravou mais uma marca – foi o primeiro ser humano a dormir no espaço, além de ter sido o primeiro a sofrer de enjoo. Em 25 horas de missão, completou 17,5 órbitas em volta da Terra.

Na sequência da visita, que contou com uma divertida companhia de turistas chineses, Vitaly fez questão de mostrar o túmulo do ex-presidente russo Boris Yeltsin, o primeiro presidente da Rússia após a queda do regime comunista no país. “Sua lápide é formada pelas três cores da bandeira da nossa bandeira”, contou o guia. Yeltsin assumiu o comando da nação quando o país ainda era uma das repúblicas da União Soviética, em 12 de junho de 1991. Ele deixou o cargo no dia 31 de dezembro de 1.999, passando a presidência para Vladimir Putin, que segue na liderança do Kremlin até hoje.

 

O cemitério também é repleto de personalidades da vida cultural da Rússia e da União Soviética. Uma senhora colocava uma flor no túmulo de Lyudmila Gurchenko, uma das maiores cantoras e atrizes que o país já teve. “Lyudmila é para nós como Liza Minelli é para os norte-americanos”, explicou Vitaly.

“Também não posso deixar de mostrar onde descansa Anton Tchekhov”, disse, sobre o famoso dramaturgo russo, que também era escritor e médico. “Ele é um dos maiores representantes da história mundial do teatro. Até hoje suas peças são encenadas em todas as partes do planeta”, diz o guia, atraindo a atenção de outros visitantes. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão a comédia A Gaivota (1896, dividida em três atos) e o drama As Três Irmãs (1901, dividida em quatro atos).

Em meio aos artistas, músicos, bailarinas, esportistas, políticos, cientistas, entre outros, também estão os heróis de guerra, do Exército, da Marinha e da Força Aérea da Rússia. Muitos conquistaram suas honrarias após a morte, ou na Primeira ou na Segunda Guerra Mundial. Para onde quer que o visitante olhe, ele vai encontrar generais, coronéis, coronéis-generais, aviadores, marinheiros. Além disso, lá também está enterrado Viatcheslav Molotov, o criador de uma das maiores armas de guerrilha urbana de toda a história mundial, o Coquetel Molotov – líquidos inflamáveis em uma garrafa de vidro com um pano embebecido com as mesmas substâncias e que funciona como um pavio. Ao ser acesso e atirado contra o alvo, a garrafa explode. O Cemitério dos Astronautas é uma verdadeira aula de história da Rússia.

 

 

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