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Censura

Colunista comenta sobre a relação da imprensa com a assessoria de imprensa dos clubes

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2019 | 04h30

Assessoria de imprensa é uma atividade bastante conhecida em certos meios bem determinados e localizados. É mais frequente quando trata das relações entre um profissional do entretenimento, o que vulgarmente chamamos de artista, com a imprensa. 

O trabalho de assessoria de imprensa não se dá só no meio jornalístico, mas o nome já fala por si. Conheço vários assessores de imprensa, uma em particular, excelente no que faz. E o que realmente faz um assessor de imprensa, a meu ver? Faz uma espécie de mediação entre o artista que representa e os órgãos de imprensa. 

Está sempre atento em aproveitar oportunidades que surgem para divulgar, ou dar a conhecer, o trabalho de seu artista. De uma maneira bem resumida é isso. A assessoria de imprensa não instrui, não preconiza, não dá receitas do que dizer, apenas aconselha: ser claro, conciso e, se possível, inteligente. O teor da entrevista fica entre o jornalista e o entrevistado. 

No futebol noto que essa função se dá de modo completamente diferente. Assessoria de imprensa no futebol exerce não só a função de definir horários e tempos de duração de uma entrevista, como, tenho certeza, define os tópicos que o jogador deve abordar e, principalmente, como abordar. 

Quero me referir com isso à linguagem que ele vai empregar na entrevista. Policiar o tempo de uma entrevista já me parece algo bastante invasivo e lança muita pressão sobre o entrevistador. Pior ainda, porém, é o resultado de recomendações e avisos que aparecem quando o jogador fala. É inacreditável o modo como o jogador é instruído para dizer absolutamente nada. Emprega um linguajar completamente estereotipado, uma espécie de fórmula feita para evitar que se saiba realmente o que ele pensa. 

Alguns, está claro, não pensam mesmo nada, mas alguns outros pensam, dá para ver que pensam. É possível identificar facilmente por vários sinais quando um jogador não está dizendo o que pensa e repete instruções. 

O que me preocupa são esses, impedidos de se expressar pela assessoria de imprensa, que por sua vez, diga-se de passagem, também obedece instruções que vêm de cima. De treinadores, diretores e presidentes de clubes. O mecanismo é de fato, uma censura sem que esse nome seja pronunciado, em que tudo deve fazer parecer que o jogador está falando algo de seu interesse. Mas a miséria do conteúdo do que fala, e a semelhança do que falam todos, é absolutamente visível.

Qualquer assunto mais espinhoso não recebe resposta, a não ser evasiva. As assessorias de imprensa acreditam que com isso evitam para seu cliente polêmicas e armadilhas. Não é isso que penso. Acho que esconder o que pensa é se entregar à mediocridade. E um jogador de futebol, principalmente de seleção, é muito mais do que apenas aquilo que faz em campo. A personalidade de um craque se incorpora à sua imagem e é tão importante quanto seu jogo, ou mais. Todo verdadeiro ídolo fala o que pensa. 

Outro dia tivemos um exemplo disso. Casagrande, um ídolo à antiga, disse algumas palavras que soaram mal a respeito de Gabriel Jesus. Disse em alto e bom som, como estava acostumado. Gabriel Jesus tocou no assunto dias depois, e o fez de maneira tão débil, tão tímida que dá para sentir a presença de alguém soprando para ter cuidado e cautela. 

É uma pena de que desse mal sofram principalmente os jogadores da atual seleção brasileira, por isso não há sequer um ídolo verdadeiro entre eles. Na verdade, um escapou da censura e, melhor de tudo, trabalha no Brasil. Trata-se de Tite. Inquirido, disse exata e claramente o que pensava da mistura perigosa e proposital de política e futebol. 

Foi educado, como sempre, e não ofendeu ninguém. Foi apenas sincero. E isso, que em outros tempos sequer seria notícia, agora passa por ato imprudente, quase impensado. O assessor de imprensa da CBF deve estar arrasado.

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