Cerimônia do beija-mão

CBF encaminha seu novo presidente com o aval de clubes e federações estaduais

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

12 Março 2018 | 04h00

Afastado da CBF por decisão da Fifa até o dia 15, Marco Polo del Nero trabalha desde a semana passada com afinco invejável para deixar o comando do futebol brasileiro exatamente do jeito que está. Conclamou seus pares das federações estaduais e dos clubes da Série A e Série B à tradicional cerimônia, não oficial, do beija-mão. Ela consiste na submissão aos desejos do presidente e a qualquer um dos seus caprichos no trono, envolvendo ou não o bem-estar do futebol.

A cerimônia do beija-mão vem da monarquia europeia. Portugal foi o último país da Europa a aboli-la, daí a explicação de o Brasil se valer da prática em desuso lá fora. Mas como ela se encaixou perfeitamente por essas bandas, em alguns setores da sociedade, ficou. Beijar a mão direita do rei, ou de quem mandava, era sinal de reverência e subordinação. No caso da história recente do centenário futebol brasileiro, de Havelanges, Teixeiras, Marins e Del Neros, subordinação é a palavra mais adequada para se referir aos que se curvam diante dos nossos cartolas.

Pior do que estender a mão para que ela seja beijada é segurar para beijá-la, como fazem nossos dirigentes esportivos, ao menos a maioria daqueles com peso na escolha do novo presidente da CBF. Acusado de sete crimes de corrupção no futebol, Del Nero se valeu mais uma vez do expediente para conseguir com que seu fiel eleitorado eleja Rogério Caboclo seu sucessor, uma vez que ele poderá, em breve, ser punido em definitivo pela Fifa, o que significaria seu afastamento imediato do comando do futebol brasileiro, das competições e também da seleção de Tite.

Fazer o seu sucessor na CBF significa, para bom entendedor, deixar tudo como está, mesmo a despeito de já ter ouvido por aí que o iminente novo presidente (as eleições devem ocorrer em abril) seja um cara austero e sem medo de dizer não para quem deve ouvir não.

Por anos, desde 1989, quando Ricardo Teixeira assumiu o comando do futebol nacional, ou até antes disso, os presidentes da CBF fazem seus sucessores. Daí tamanha desconfiança, quase uma certeza, de que nada mudará com o novo comando. Gostaria muito de estar errado, completamente errado, mas temo não estar. Teixeira elegeu Marin, que elegeu Del Nero, que vai eleger Caboclo. E assim toca a banda, num enredo de uma batida só.

Ocorre que os agentes de uma possível transformação no futebol se acuam covardemente bem acomodados nas cadeiras mais confortáveis das 27 federações estaduais, essas que organizam os campeonatos regionais que insistem em permanecer vivos no calendário. Esses presidentes são convidados para festas e recepções pela CBF, ganham medalhas e prêmios extensivos às mulheres e ajuda financeira quando precisam (estão sempre precisando para tocar suas gestões), além, claro, de “representarem” o futebol brasileiro em caravanas para competições internacionais importantes, como Copas do Mundo. Com tantos presentinhos, a CBF amarra todos dentro de um ciclo de comando que não se encerra. E a única coisa que pede em troca é a cerimônia do beija-mão.

Da mesma forma, poucos dirigentes de clubes brasileiros das duas principais divisões, A e B, se rebelam contra o sistema. Pior. Não conseguem sequer se organizar no sentido de fazer frente e peitar o Rei. Sucumbem por algum motivo, ou por diversos motivos, de modo a sempre esbravejarem, mas sempre também aceitarem o jogo como ele é.

São Paulo

Aguirre tem o aval dos três reis magos do Morumbi, Raí, Lugano e Ricardo Rocha. Tem um elenco razoável e nove meses para mudar a condição do São Paulo.

FPF

Espero que não haja venda de mando de jogo na fase decisiva do Campeonato Paulista. Espero!

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