Arte/Estadão
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César Sampaio: 'Acredito que a melhora do futebol passa pela educação'

Na série FUTEBOL EM DEBATE, o ex-volante destaca a necessidade dos atletas se dedicarem ao estudo

Entrevista com

César Sampaio, ex-jogador

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2019 | 04h30

César Sampaio fez história no futebol dentro de campo e está tentando fazer fora dele também. O volante que passou por equipes como Santos, Palmeiras, Corinthians e São Paulo, atuou na Europa, no Japão e na seleção brasileira, garante que não se pode desvincular o futebol da educação. O ex-jogador que atua como comentarista e está se especializando cada vez mais na gestão de clubes lembra que o futuro dos jovens que sonham um dia se profissionalizar passa pela escola. E é sobre esse assunto que ele aborda no oitavo capítulo da série especial Futebol em Debate, promovida pelo Estado.

O que falta para o Brasil voltar a ter aquele futebol que encantava o mundo?

Economicamente falando, cada vez mais esses países periféricos sofrerão com a perda de seus melhores jogadores precocemente. A maioria dos clubes brasileiros é deficitária e uma das fontes de receita é a comercialização de atletas. Em alguns clubes, é a maior fonte, inclusive. Tem clubes brasileiros que já têm meta de venda desde o início do ano para fechar a conta dos gastos que terá. Outro ponto é que o departamento comercial dos clubes está muito afetado pelos agentes. Os clubes formam os atletas, mas na hora de vender boa parte dessa negociação é direcionado por um agente forte local. O clube muitas vezes não têm 100% de domínio das negociações. E o próprio atleta, que às vezes tem muitas pessoas dependentes do seu trabalho, acaba decidindo sair por causa da remuneração.

O Campeonato Brasileiro sofre com essa falta de talentos?

Tem um amigo que diz que a gente vive o pré e pós carreira dos jogadores. Usando como exemplo real o Rodrygo, do Santos, que estava esperando completar 18 anos para sair (ele já foi negociado com o Real Madrid). E o pós, quando vemos Ricardo Oliveira brilhando, mas o período esportivo mais competitivo, em termos físico, de inteligência de jogo, os atletas não vivem aqui. O Campeonato Brasileiro é totalmente afetado por isso. A gente perde em qualidade.

Antigamente o jogador surgia no time pequeno do interior, ia para o grande do interior, depois para o da capital e só depois ia para fora. Atualmente essa trajetória tem menos escalas. É isso mesmo?

Eu penso que o mundo ficou menor com o avanço tecnológico e com esses departamentos de análise de desempenho e análise de mercado. Mas não é um fator só do Brasil. Ocorre na Costa do Marfim, na Zâmbia... Se você tiver um bom jogador em qualquer lugar que não seja economicamente auto-sustentável, você perde o atleta porque os caras acham. Tem um filtro que alguns analistas usam que é o quilômetro percorrido, a intensidade e os números do atleta para colocar em um ranking. Um exemplo: você é goleiro, faz tantas defesas por jogos, tem boa reposição com os pés, tem uma técnica de encaixe perto da de um goleiro da Premier League, algum cara de lá vai te ver. Vai passar uns dias no seu país, ver treinos, conversar com pessoas próximas de você... É assim que antecipam a compra, pois é mais barato, e terminam a formação do atleta no clube de fora.

Do ponto de vista financeiro, muda muito a vida do jogador ir atuar no exterior?

Ter acesso a outra cultura sempre é legal, desde que se esteja de mente aberta. Se for para os grandes centros, a qualidade de vida é maravilhosa. Tem segurança, ótima educação para os seus filhos, boa gestão da competição, do gramado que você treina e joga, a infraestrutura do clube é excelente, torcida não invade o CT, ou seja, tem um monte de coisa, não é só o valor financeiro. Vivi na Espanha, machuquei os dois tendões, acabei jogando pouco, mas para minha família foi maravilhoso pela ótima qualidade de vida.

No momento, qual a percepção dos estrangeiros sobre o futebol brasileiro?

A percepção é a mesma que a nossa, pois a informação acaba chegando lá. O antigo presidente da CBF não pode sair do País, o outro esteve preso, tem desorganização, corrupção, calendário maluco, joga cinco competições simultâneas com elenco ruim, os clubes não pagam. Tudo isso circula fora do País. Eu não pretendo morar fora do Brasil. Não tenho nada contra quem saiu, mas quero melhorar aqui. Acho que sou um pouco utópico, mas entendo que o futebol, e o esporte em geral, pode ser uma ferramenta de mudança para melhor.

Você acredita que essa mudança no futebol pode começar por uma melhoria nas categorias de base?

Acredito muito na educação, na escola. Felizmente a legislação já mudou e hoje já temos alguns grandes centros de clubes interditados por falta de estrutura adequada. Do outro lado, trabalhamos com sonhos de crianças que muitas vezes querem mudar a realidade da família e se sujeitam a qualquer coisa, a qualquer custo. Me lembro que no ano passado teve a história de um jogador alemão da base que foi relacionado para um jogo no profissional, mas ele tinha prova na escola e não deixaram ele ir jogar. Isso mostra a importância na Liga Alemã da escola e formação do caráter e do cidadão. Isso a gente transporta para o jogo com o fair play financeiro e esportivo. É um outro mundo, que eu acho que é o certo. Por isso acho que temos de apresentar soluções.

E quais seriam essas soluções?

Eu tenho estudado bastante nesses últimos anos para que a gente possa tirar do Power Point essas ideias que temos e transformar em algo concreto. Hoje sou presidente de um clube de formação na cidade de Tietê e a gente vem procurando montar esse case, que vai demorar um pouco porque não temos verba. Eu vim de projeto social. Fiz teste em grandes clubes e não passei, mas continuei jogando em um centro educacional no Jabaquara, onde aprendi muitas coisas na minha infância. Minha mãe era diarista e costureira, meu pai era carteiro, então ia para a escola de manhã, voltava e ficava na rua. Esse centro educacional ajudou muito na minha formação. Então sempre tive vontade de devolver isso para a sociedade. Tenho também duas escolinhas de futebol, e nesse projeto social em Tietê usamos o esporte como ferramenta de inclusão. A maioria dos garotos não vai virar atleta profissional, mas a gente tenta ajudar eles com essa ilusão e aproveita para introduzir valores e princípios.

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