Chama o Marcos

Dunga e companheiros da comissão técnica têm convidado antigos campeões do mundo para visitas à seleção. Nomes de peso na história do futebol brasileiro convivem por alguns dias com os moços de hoje, e lhes passam experiências das respectivas épocas. Uma forma simpática de aproximar gerações e extrair conhecimento.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

19 de junho de 2015 | 03h00

Não seria nada mal chamar o Marcos para um desses encontros. O ex-goleiro do Palmeiras e titular na campanha memorável da Copa de 2002 teria muito o que dizer para os jovens de hoje. Não surpreenderia a ninguém se, no estilo claro e direto que sempre o distinguiu, passasse um esculacho caprichado, um sabão e tanto na tropa da Copa América.

Dá para imaginar o são Marcos a recomendar aos jogadores que façam exercícios de sinceridade e humildade, qualidades essenciais para o aprimoramento pessoal e profissional. Para início de papo, deveriam admitir em público que não têm jogado nada e que mereceram, por exemplo, a derrota de anteontem para a Colômbia. Algo na linha do que ele costumava declarar após algum indefensável vexame palestrino. Reação que lhe valeu certos desafetos no meio, insignificantes em comparação com admiração incomum de companheiros e de torcedores de todo canto.

Pois são de provocar coceiras alérgicas as declarações da moçada diante de dificuldades. Apesar de defenderem times badalados, da rodagem de muitos ou, sobretudo, das evidências, ainda se saem com chavões batidos, ocos, que escancaram preguiça para autocríticas e atitude infantil e mimada.

Repare como as desculpas mais citadas para o 1 a 0 se referiram ao árbitro e à postura dos adversários. O juiz chileno Enrique Osses faria parte de um complô contra o Brasil, por ter irritado nossos valorosos representantes. “Ele já prejudicou o Corinthians”, alegou o volante Elias. Além disso, os colombianos tiveram a petulância de engrossar para o lado de cá. “Todos querem bater o Brasil”, atestou Diego Tardelli. 

Quer dizer, ao olharem para o próprio umbigo, os boleiros nacionais ainda se veem como centros do universo futebolístico. Penduram-se ao passado glorioso para justificar a suposta necessidade de os outros se firmarem às custas deles. Ao invés de mergulharem em exame de consciência, apelam para estereótipo e superficial. Fora a neura de enxergarem inimigos até na sombra. 

Há um erro grotesco no argumento de que “todos querem ganhar do Brasil”. Entra-se em campo, numa partida de futebol, em busca de vitória, independentemente da fama do oponente. Obviedade que dói de tão escandalosa. Assim como os brasileiros teoricamente tentam superar obstáculos, quem está do lado de lá pretende o mesmo. Parece que ação tão corriqueira ainda soa como petulância. Ora, onde já se viu qualquer gentinha se meter a tirar uma lasquinha dos brasileiros. E por aí vai...

A seleção é time comum com um Neymar para desequilibrar. Quando ele joga mal, como foi o caso de quarta-feira, então o Brasil atual não difere muito de Colômbia, Chile, Uruguai e equipes de igual quilate. É a verdade que os rapazes não enxergam. O astro esteve nervoso, tenso, sobrecarregado, desta vez não deu conta do recado e ainda fechou a noite com expulsão tola e merecida. Os demais afundaram com ele.

Se a safra de atletas não é das melhores, daí devem sobressair o talento e a inteligência do técnico. Dunga precisa agir como professor, eis o momento para criar alternativas táticas, jogadas ensaiadas, planos de emergência. Enfim, tem de comportar-se como técnico de seleção e compensar queda de nível com criatividade e força do conjunto. 

Mestres x Astros. Professores chilenos estão em greve há semanas e não despertam muito interesse popular. Vidal quase foi preso por dirigir bêbado e destruir uma Ferrari e causou comoção nacional. Todos temiam o destino do Chile se ele desfalcasse o time. Já as reivindicações dos professores não tiram o sono de ninguém, a não ser dos próprios. 

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