Chamusca fez estágio com Cruyff

A chegada do Brasiliense à decisão da Copa do Brasil chamou a atenção, também, para o trabalho de treinador tão jovem que, misturado aos jogadores, parece mais um deles. É Péricles Chamusca, um baiano de apenas 36 anos, os últimos oito deles vividos como técnico ou coordenador técnico de equipes profissionais. Normalmente tranqüilo, bem articulado, estudioso, Chamusca descobriu sua vocação, quando era preparador físico do Bahia, na equipe de Evaristo Macedo. "Ali, percebi que tinha jeito para a função??, disse nesta entrevista para a Agência Estado. Destino traçado, fez um trabalho de três anos nas categorias de base do Vitória e em 1995 foi promovido ao time principal. Depois, passou por clubes como Santa Cruz e Porto (PE), CSA, Confiança (SE) e Anápolis (GO). Também passou quase dois anos como coordenador técnico do Vitória. Ainda não teve oportunidade em um time grande dos principais centros do País. Mas está convicto de que ela chegará. "O importante é trabalhar com dedicação, seriedade e competência, que a chance vai aparecer.?? Agência Estado - Você começou cedo a carreira de técnico de futebol. O que levou a isso? Péricles Chamusca - Como treinador de clube profissional, comecei em 1995, no Vitória. Isso foi conseqüência de um trabalho de três anos que desenvolvi nas categorias de base, revelando jogadores como Dida, Vampeta, Júnior (os três estarão na Copa de 2002 pela seleção brasileira), Alex Alves, Rodrigo (lateral que jogou no Corinthians) entre outros. Então, os dirigentes decidiram me dar uma oportunidade no time principal. Tinha 28 anos. AE - Antes de ser treinador, o que você fazia? Chamusca - Fui jogador nas categorias de base do Bahia. Era meia. Mas chegou a época da faculdade e optei por deixar o futebol para cursar Educação Física. Aí, surgiu um convite para ser auxiliar de preparação no Bahia. Tinha 23 anos. Pouco depois, fui efetivado e em 1989 passei sete meses trabalhando com o Evaristo de Macedo na equipe principal do Bahia. Aquilo fui um curso para mim. Foi quando descobri minha vocação para ser treinador. Passei a treinar os juniores do clube. AE - Então, você deu início à carreira no Bahia e depois passou para o maior rival... Chamusca - O Vitória levou toda a comissão técnica do Bahia para fazer esse trabalho de três anos nas categoria de base. AE - Quais os treinadores em que você se espelhou? Chamusca - Fiz um estágio no Barcelona, na época em que o Johann Cruyff era o técnico, e aprendi muito. E desde o início sempre prestei atenção nos métodos do Wanderley Luxemburgo. Usar a tecnologia, estatística, analisar vídeos. E também admiro o trabalho de Carlos Alberto Parreira e de Oswaldo de Oliveira, a importância que eles dão para a ética, para a boa imagem do profissional. AE - Você dedica muito tempo estudando os adversários? Chamusca - Não há um padrão, mas normalmente eu vejo as fitas com os dois últimos jogos do adversário e defino a planificação para o jogo.Pego o que acho mais interessante e analiso junto com os atletas, para que eles visualizem o que nós precisamos fazer. AE - Aí, você vai para o campo... Chamusca - Isso, acho importante trabalhar o eu quero o tempo todo.Assim, quando chega a preleção, todos já sabem o que vão fazer, é apenas um repasse. Preleção é lembrança. AE - Como se define como treinador? Chamusca - Acho que o treinador tem de procurar perceber o que o jogador tem de bom, fazer o time jogar de acordo com as características deles. O técnico não pode ter uma visão única. Tem muitas vezes que se adaptar à realidade do clube, da região, do ambiente. AE - Apesar de sua atitude no fim do primeiro jogo (invadiu o campo para interpelar o juiz Carlos Eugênio Simon), você parece um técnico tranqüilo. Confere? Chamusca - Sou. Mas aquilo que aconteceu é porque não tenho sangue de barata. Mas acho importante passar tranqüilidade para o grupo. Claro que é preciso vibração, mas você tem de medir essa vibração. E uma coisa variável de grupo para grupo e de jogador para jogador. Tem os atletas "agite antes de usar?: precisam levar uma bronca para jogar; outros, não jogam se levarem uma bronca pesada. AE - O treinador anterior do Brasiliense diz que saiu porque o ex-senador Luiz Estevão, dono do clube, interfere muito no trabalho. E assim mesmo? Chamusca - De fato, ele falou isso. Mas eu não tenho do que reclamar.Ele nunca interferiu e me dá toda a estrutura para trabalhar. Tudo o que pedi até agora ele atendeu. AE - Você passou por vários clubes do Nordeste, do Goiás, e em São Paulo teve passagens rápidas por Mirassol e Rio Branco. O que dificulta sua chegada a um time grande do Sul-Sudeste: Chamusca - Acho que nada. Até já recebi algumas proposta, mas não acertamos. Só isso.

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