Chega de avacalhação

Já é mais do que tempo de o futebol sul-americano parar com catimbas ultrapassadas

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2017 | 04h00

O futebol sul-americano tem características que o tornam único, especial, diferente, admirado. Neste lado do planeta florescem talentos em abundância, que logo batem asas e vão encantar plateias na Europa. Jogador bom por aqui cresce que nem mato. Sobretudo no Brasil, na Argentina, no Uruguai, com Peru e Chile atrás.

As equipes se enfraquecem logo, é verdade e uma pena, mas insistem na capacidade de reposição – com qualidade. Toda hora tem um garoto bom a despontar. E, mesmo que estejam muito aquém do poder das multinacionais da bola de Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra, França, ainda alcançam proezas inimagináveis.

Os grandes desafios continentais chamam a atenção nossa, dos vizinhos e dos gringos endinheirados do Hemisfério Norte, sempre de olho em novidades. A Sul-Americana ameaça voos maiores. Já a Libertadores cresceu, virou obsessão nacional – argentinos sempre a levaram a sério – e já há alguns anos busca status de torneio chique. A Conmebol não esconde que pretende vê-la transformada na versão latino-americana da Champions League.

Pretensão, caldo de galinha e água benta não fazem mal. No caso do futebol, pensar alto até ajuda, faz bem para a autoestima. E que bom que o campeonato de clubes dos europeus sirva de parâmetro para a turma de cá aperfeiçoar produto pra lá de cinquentenário.

Só que, para tanto, não se pode ficar apenas na conversa fiada, nem em perfumarias. Não adianta inventar um hino do campeonato, como tem na Champions, e achar que, com isso, o salto na organização vem automaticamente. É preciso mudar hábitos, de dirigentes, jogadores, técnicos. E de torcedores.

Falemos sem rodeios: nestas bandas tem muita avacalhação. Vá lá que certa catimba, algumas artimanhas, ligeiras encenações compõem o folclore e o estereótipo do futebol da América do Sul. O pessoal tem sangue quente, malícia e ginga naturais, gosta de umas espertezas para desestabilizar adversários.

Mas há exageros e comportamentos obsoletos, mesquinhos. Por exemplo: não dá mais pra achar engraçado torcida atirar objetos dentro de campo, sobretudo quando o rival vai cobrar escanteio. Coisa de jeca. Isso diminuiu, porém existe, sem que a cartolagem tenha peito de combater pra valer. Coisa fora de moda é passar a madrugada na frente de hotel de visitante fazendo batucada e soltando rojão, só para impedir que os “inimigos” descansem.

Chato pra burro é impedir treinos prévios no gramado do estádio do jogo ou oferecer vestiários com pouco conforto. Aquela coisa de espaço apertado, às vezes sem água quente, embaixo de arquibancada. Também há evolução e mais fiscalização no quesito, sem que o artifício tenha desaparecido de todo.

Pressionar arbitragem é deselegante, covarde e vergonhoso. Incrível como ainda a gente vê dirigente, atleta e treinador jogando pesado contra suas senhorias, com o argumento de que é se precaver contra má-fé no apito. Não faz sentido ver os moços de preto cercados por policiais no meio do campo ou na saída para vestiários.

E o mais importante: está na hora de os jogadores colaborarem. Atitude de criança malcriada simular faltas e contusões, cavar pênalti em qualquer dividida na área, chutar e esmurrar, cuspir nos adversários, chamá-los para briga. Fazem o diabo por aqui e viram cordeirinhos quando se transferem para a Europa.

Imprensa também tem de fazer mea culpa. Já esgotou o papo de que “Libertadores é guerra”, de que “os gringos são manhosos”, de que “argentinos e uruguaios pegam pesado mesmo” e clichês do gênero. Brasileiro não é santo – e disso temos prova em casa, nos nossos torneios.

Enfim, nem se trata de copiar europeus; é questão de civilidade. E que Lanús e Grêmio façam, no meio da semana, uma bela final de Libertadores.

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