Felipe Rau/Estadão
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Antero Greco
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Chega de xerifes

Incidente com Felipe Melo na Libertadores mostra que não cabem mais justiceiros da bola

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 04h00

O discurso inflamado de justiceiros de ocasião encanta o cidadão comum, que acredita na eficiência do preceito do “olho por olho, dente por dente”, tão velho quanto a humanidade. Basta ver o aparente sucesso de candidatos a cargos públicos que tentam seduzir eleitores com acenos para mão pesada “contra tudo isso que está aí” e não falam nada sobre projetos concretos a respeito de governo.

O mesmo comportamento evasivo e fanfarrão faz barulho no futebol, ainda tido por muitos como “esporte para machos”. Há torcedores que babam de alegria por jogadores que exaltam Jesus num momento e descem a ripa em adversários no outro, “mas com responsabilidade”. Esses xerifes dos gramados têm linguagem populista, em geral proporcionalmente inversa à qualidade técnica. Procuram ganhar o respeito da plateia com frases e atitudes bélicas, confundidas com seriedade e amor à camisa.

Tanto o político fútil quanto o atleta estouvado são anacrônicos, remam contra a maré da modernidade. Sustentam-se por um tempo; desabam tão logo fiquem escancaradas as próprias limitações. Antes, fazem estragos...

No meio da semana, por um triz o Palmeiras não viu classificação sossegada para as quartas de final da Libertadores virar uma tragédia. Menos por força do oponente – o Cerro Porteño não é grande coisa – do que por destempero de Felipe Melo. O volante deveria ser uma das referências de equilíbrio da equipe, pela experiência e pela rodagem, e quase pôs tudo a perder, com a expulsão aos 4 minutos do jogo disputado no Allianz Parque. Numa dividida no campo de ataque entrou para rasgar um paraguaio; tomou vermelho e deixou o time na mão por 100 minutos.

Angústia, desgaste e derrota (0 a 1) desnecessários. Com um a menos, mudou a estratégia da equipe de Felipão e houve abalo emocional no conjunto. Para complicar teve também a expulsão de Deyverson, que se enfureceu com uma falta boba. A torcida percebeu que a vaca palestrina ia pro brejo e tratou de compensar com incentivo fora do comum. Mas o consenso foi o de que tudo começou com Felipe Melo.

Não se trata de buscar vilões e é besteira colocar rótulos. Mas tem gente que não se ajuda – e Felipe é um desses. Fosse a primeira vez na carreira, passa; tem dias em que as coisas não saem como o planejado. No caso, há reincidência da reincidência da reincidência. Sabe-se lá quando vestiu o personagem de homem mau, acreditou e considera seja esse o caminho certo. Ok, cada qual com suas escolhas e aguente as consequências e segure a bronca.

Os times brasileiros precisam acabar com a balela de que Libertadores é guerra, de que os gringos são catimbeiros e malvados, de que a Conmebol está contra a gente – “porque eles falam castelhano”. Enfim, já deu a lenga-lenga de que somos nós contra “eles”, o restante da América. Muita empáfia.

A preocupação tem de ser com a “leonor”, como Stanislaw Ponte Preta chamava a bola. Sabemos (ainda) tratá-la com amabilidade. Dessa forma, desde o início dos anos 1990 times daqui conquistaram 13 títulos, além de 8 vices. Não precisa apelar para a ignorância para vencer.

Jogador com espírito de liderança sabe até, com o perdão da palavra, o momento de bater – e se for último recurso depois de tomar muita botinada. Timing que Carlos Alberto teve contra a Inglaterra, na Copa de 70. Os britânicos desciam a ripa, até que ele deu um chega pra lá num tal de Lee, que subiu meio metro e desmontou. Dali em diante todo mundo só jogou bola e o Brasil venceu por 1 a 0.

Vale a lição para os clubes que restaram no torneio. Na teoria, a tarefa mais árdua é a do Cruzeiro, nos duelos com o Boca. Palmeiras (contra Colo Colo) e Grêmio (Atlético Tucumán) podem suar menos. E que nenhum dos três esqueça do futebol.

 

 

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