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China denuncia 'interferência' dos EUA na Fifa após escândalo

Crise no futebol vai ganhando contornos geopolíticos

Jamil Chade - Correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2015 | 08h12

A China alerta que a decisão dos EUA de interferir na Fifa vai “estabelecer um precedente negativo para as relações internacionais” e acusa Washington de “arrogância” ao lançar uma operação contra a corrupção no futebol. Nesta terça-feira, a agência oficial do governo de Pequim, Xinhua, atacou a iniciativa da Justiça americana de processar cartolas do futebol e de agir como “a polícia mundial”.

No último dia 27, atendendo a um pedido do FBI, a polícia da Suíça prendeu sete dirigentes esportivos em Zurique, entre eles José Maria Marin, ex-presidente da CBF. Dias depois, Joseph Blatter anunciaria que vai renunciar de seu cargo.

Apesar de a tempestade anti-corrupção ter ajudado o organismo mundial do futebol acelerar suas reformas, parece ser mais o caso de um plano bem desenhado para atingir certos objetivos geopolíticos”, indicou a agência, ligada diretamente ao governo. Segundo os chineses, a operação ocorrer “no momento em que Sepp Blatter garantia um quinto mandato e a Rússia se prepara para sediar a Copa de 2018”. 

Os chineses ainda citam um representante da CBF que, sem ser identificado, denuncia a ação americana. “O envolvimento de Washington nos assuntos internos da Fifa transformou o organismo mundial em uma arena para a guerra política entre potências mundiais e onde uma nova Guerra Fria será encenada”, teria dito o brasileiro. 

O texto ainda cita ainda um advogado russo, Igor Trunov, que acusa os EUA de estar “colocando seu sistema legal acima do internacional ao tentar prender dirigentes de uma organização internacional”. Xinhua ainda cita o presidente Vladimir Putin, que acusou os americanos de tentar “estender sua jurisdição para outros países”.

“Os EUA sempre agiram nos assuntos internos de organismos internacionais e outros países, forçando-os a agir para atender a seus objetivos políticos”. Para os chineses, “o esporte não pode se transformar em instrumento para jogos políticos”.

RÚSSIA

Mas a preocupação entre os líderes políticos é real. O governo russo admitiu ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, que está “preocupado” com o impacto que a crise na Fifa pode ter para as futuras Copas do Mundo. Na segunda-feira, os dois parlamentares brasileiros estiveram em Moscou para uma reunião dos Brics. Mas entre os temas debatidos foi o escândalo de corrupção e a operação contra a Fifa.

"Há um enorme desconforto dos russos", disse ao Estado por telefone o presidente da Câmara. No fim de semana, auditores da Fifa chegaram a dizer que a Copa de 2018 e 2022 na Rússia e Catar estariam ameaçadas. "Os russos vieram nos falar da situação", disse Cunha.

Renan Calheiros, presidente do Senado, confirmou o clima de preocupação. Mas indicou que não haverá uma posição comum dos Brics sobre o assunto. Para eles, os russos não acreditam que perderão a Copa de 2018. "Está muito perto". Mas 2022 poderia de fato estar ameaçado. "Os russos nos dizem que isso teria um grande impacto no Oriente Médio", alertou Cunha.

Também na segunda-feira, o tema entrou na agenda do G7, reunidos na Alemanha. O presidente dos EUA, Barack Obama, pediu "integridade" no futebol e alertou que, além de um esporte, a modalidade se transformou "em um grande negócio". 

"Em conversas que tive na Europa, as pessoas acham que é muito importante que a Fifa opere com integridade, transparência", disse Obama. "O futebol é um jogo, mas também um grande negócio", afirmou.

Obama se recusou a comentar o conteúdo da investigação americana. Mas estimou que seria « importante » que a entidade funcione em "total transparência". "O futebol é fonte de um incrível orgulho nacional e as pessoas no poder precisam ter certeza que ele é administrado com integridade", disse. "Como os EUA jogam cada vez melhor a cada Copa do Mundo, nós queremos ter certeza que um esporte que ganha popularidade é administrado de forma apropriada", completou.  

Blatter, antes de deixar o cargo, acusou os EUA de promover uma conspiração por não terem vencido a corrida para sediar a Copa de 2022, que ficaria com o Catar. "Isso não cheira nada bem", declarou o cartola suíço. 

Por dias, Blatter insistiu que não existia razão de uma mudança nos locais das duas próximas Copas. Mas, neste fim de semana, o auditor da Fifa não descartou a possibilidade, caso provas de compra de votos sejam encontradas. Tanto o FBI quanto o Ministério Público da Suíça investigam esses casos.

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