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Antero Greco
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Choque sempre rei

Numa era de futebol cheio de não me toques e dodóis, de jogadores tatuados e cercados de assessores, tem hora que bate saudade de momentos de lirismo ou mesmo de gaiatice do mundo da bola. De época em que clássico tinha apelido dado pelos jornais – e bem aceitos pelo publico, sem nariz torcido ou alguma implicância por “desrespeito com a instituição”. 

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2016 | 03h00

De tempos em que São Paulo x Palmeiras não significava apenas mais um jogo na tabela, mas surgia como o Choque-Rei paulista, expressão criada pelo lendário Thomaz Mazzoni, da não menos emblemática A Gazeta Esportiva, “o maior jornal de esportes do continente.” A gente esperava terminar a rodada e, no domingo mesmo, corria pra bancas centrais em busca de exemplar quentíssimo com as histórias do dia. Que cheirinho bom de tinta fresca, de notícia saída do forno. E conferir lances, opiniões, as notas, as fotos... Pra fechar, vinham as mesas-redondas.

Vixe, que viajada! Já ia fugindo do tema. Qual mesmo? Ah, sim, o duelo entre tricolores e alviverdes. Encontro nobre de times de ponta; diferente, especial. Contam os historiadores que o apodo Choque-Rei apareceu nos anos 1940, quando ambos dividiam a hegemonia local. O São Paulo levou os títulos de 43, 45, 46, 48, 49, enquanto o Palmeiras ficou com os de 42, 44, 47, 50. 

E agora? Perdeu o encanto? De jeito nenhum. Continua tão importante quanto aquele da final do Paulista de 1971 – o do gol de cabeça belíssimo de Leivinho, anulado por Armando Marques –, ou o da decisão do Brasileiro de 1973, ou de memoráveis tira-teimas em Libertadores, nos quais os são-paulinos costumavam ser mais felizes.

Ambos voltam a desafiar-se neste domingo, no destaque da quarta rodada da Série A que trata de engrenar. Assim como os dois lados. Não ocorrerá o combate individual entre Rogério Ceni e Robinho, marca registrada de jogos recentes. O goleiro que levou gols de cobertura pendurou as chuteiras. O meia-atacante autor das proezas foi repassado dias atrás para o Cruzeiro. 

Nem por isso faltam atrações e motivos para chamar a atenção do público. O São Paulo, a propósito, é o remanescente brasileiro na competição Sul-Americana, da qual o Palmeiras não passou da fase de grupos. Edgardo Bauza sabe que, para manter a tropa com moral alta, não pode diminuir a toada. No meio da semana, até deixou de lado alguns titulares, no pega com o Coritiba, e se satisfez com o empate. Desta vez, vai com o que tem de melhor em condições de uso. O argentino captou com rapidez o grau de expectativa – e de cobrança – diante do Palmeiras. 

O São Paulo de Bauza aos poucos ganha cara competitiva. Não é a de futebol bonito e vistoso; uma pena para os que apreciam eficiência combinada com arte e graça. (Incluo-me nessa corrente, sempre e com convicção.) Porém, apresenta resultados. E como prevalecem os pragmáticos, El Patón segue com métodos em alta e, com vitória, o time dele ficará na parte de cima da classificação geral.

O Palmeiras anda de olho na liderança; e, para tanto, é estratégico passar pelo adversário dominical. Cuca faz charme, um certo mistério, mas uma coisa é certa: deve repetir o trio Dudu, Roger Guedes e Gabriel Jesus que deu bom caldo contra o Fluminense. Na quarta-feira, viu-se uma postura mais ousada. A questão está em saber se o treinador terá peito para repeti-la. 

Por falar em Cuca, que vacilo o uso de ponto eletrônico para comunicar-se com auxiliares, uma vez que estava suspenso e ficou num camarote. O tribunal esportivo recebeu a denúncia, e claro, não perderá a ocasião para azucrinar. Caberá aos advogados do clube provarem que, se houve conversa, não foi com Cuca. Por essa, pode pegar gancho de seis rodadas. Desnecessário o erro.

Também essa mancada entra no cardápio para tornar apetitoso o Choque-Rei, que garante histórias desde os tempos em que os bondes da cidade eram puxados por burros. Burrice foi acabar com os bondes.

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