Robson Fernandes/ Estadão
Robson Fernandes/ Estadão

'Chute no traseiro' azedou relação de Valcke com o Brasil

Declaração arrogante foi dada ao criticar atrasos nas obras da Copa

Jamil Chade, Eduardo Bresciani, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2015 | 17h17

Jérôme Valcke recebeu na tarde desta quinta-feira da Fifa o mesmo tratamento que deu ao Brasil em março de 2012, durante os preparativos do País para sediar a Copa do Mundo: um chute no traseiro. Todo-poderoso da entidade e da organização do Mundial à época, o então secretário-geral da entidade teve uma explosão de raiva ao falar dos atrasos na preparação - em como obras dos estádios, aeroportos, hotéis e até na elaboração de leis para a realização da Copa - e deu uma demonstração de falta de educação e arrogância, ao sugerir que o Brasil precisa levar "um chute no traseiro'' que se dar conta de que era preciso trabalhar.

"As coisas simplesmente não estão funcionando no Brasil", declarou Valcke. "Temos de dar um empurrão, um chute no traseiro e entregar a Copa e isso é que faremos."

A declaração foi dada em Londres, uma semana antes de uma viagem que ele iria fazer ao Brasil com o objetivo claro de pressionar o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo a  tomar ações urgentes. "O grande problema que temos no Brasil é que quase nada avança", disse. Diante da repercussão negativa de sua frase - o então ministro do Esporte, Aldo Rabelo, chegou a pedir que ele fosse afastado da interlocução com País - Valcke acabaria se desculpando.

Mas no dia em que teve seu acesso de fúria, Valcke não teve papas na língua. "Eu não entendo por que as coisas não avançam. Os estádios não estão mais dentro do cronograma e por que  tantas coisas estão atrasadas?", se queixou. "Em 2014 teremos uma Copa do Mundo. A preocupação é de que nada esteja sendo feito ou preparado para receber a quantidade de gente que quer ir ao Brasil.''

Na ocasião, o francês também reclamou do atraso no estabelecimento de lei que dariam à Fifa garantias superespeciais para promover a Copa em território nacional - como isenção do pagamento de imposto de importação de vários produtos e equipamentos. " Há debates sem fim sobre a lei geral da Copa. Teríamos de ter recebido esses documentos assinados em 2007 e estamos em 2012", atacou.

Além do atraso nos estádios e na Lei Geral da Copa, Valcke reclamou na época que várias cidades não tinham hotéis suficientes para receber torcidas e teme pela situação dos aeroportos. Manaus foi citada como um exemplo de uma cidade que precisa de mais quartos e de transporte público. "A cidade é bonita, mas a forma de chegar ao estádio e o transporte precisam ser melhorados", criticou o então secretário-geral da Fifa.

Valcke "identificou'' como  problema central para os atrasos o fato de o Brasil, na sua visão, estar mais preocupado em ganhar o Mundial do que em organizá-lo. "O que é a Copa para o Brasil? Organizá-la ou vencê-la?" questionou. "Acho que é vencer a Copa", afirmou. "Não estou tão certo sobre organizar a Copa. Pense na África do Sul. Foi para organiza-la, não para vencê-la", completou.

PEDIDO DE PERDÃO

Pouco tempo depois, Valcke pediu perdão. Mas não sem antes transferir a culpa por seu deslize. Ele culpou a tradução de sua declaração pela polêmica com o governo brasileiro e, em carta encaminhada ao ministro Aldo Rebelo, pediu "desculpas" a quem tenha se sentido ofendido com suas palavras.

No documento enviado a Rebelo, Valcke alegou não ter sido bem interpretado. "Eu lamento profundamente que a interpretação incorreta das minhas palavras tenha causado tanta preocupação. Em francês, 'se donner un coup de pied aux fesses' significa apenas 'acelerar o ritmo', e, infelizmente, essa expressão foi traduzida para o português usando palavras muito mais fortes", justificou na carta.


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