Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Cidade prevê injeção de dinheiro com a chegada do Brasil em 2018

Com economia em baixa por causa da fuga dos turistas habituais, Sochi espera reaquecimento com presença da seleção

Jamil Chade, enviado especial a Sochi, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2017 | 07h00

Ao longo do Mar Negro, lojas vazias aguardam desesperadamente os clientes, num clima de desilusão. Os hotéis, muitos deles construídos para os Jogos de Inverno de 2014, também estão parcialmente vazios. Num domingo de sol e com temperatura agradável, centenas de famílias percorriam a orla. Mas poucas pessoas se atreviam a entrar nos bares e restaurantes.

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O baixo crescimento que atinge a Rússia também fez seu desembarque na cidade conhecida como “Riviera”. Não é por acaso, portanto, que o anúncio da CBF de que havia fechado um acordo para usar Sochi como base foi comemorado por comerciantes, hotéis e autoridades locais.

Na prefeitura, a estimativa é de que a transformação de Sochi na base do Brasil leve à cidade pelo menos mil pessoas, entre jogadores, assistentes, familiares, agentes, patrocinadores, empresários e um batalhão de jornalistas de todo o mundo.

Nos primeiros meses da recessão, entre 2014 e 2015, Sochi chegou a se beneficiar da crise. Isso porque aqueles russos que tinham o hábito de viajar para o exterior optaram por rotas domésticas, depois de ver sua moeda perder 50% do valor. Destinos como Espanha, Itália e Grécia foram trocados por Sochi.

Como consequência, o turismo atingiu seu pico, com mais de 6 milhões de pessoas. Ironicamente, os investimentos de US$ 50 bilhões (R$ 163 bilhões pela cotação atual) para os Jogos de Inverno pareciam ter valido à pena. Vladimir Putin, presidente russo, havia sido alvo de duras críticas depois de garantir que, após as obras, Sochi não seria apenas um resort de verão, mas também de inverno, com trens e estradas ligando a cidade à beira do mar até os picos de neve das montanhas.

Com clima subtropical, Sochi por décadas apenas atraia visitantes durante o verão ou era destino de pessoas com artrite, como Joseph Stalin.

Mas, segundo empresários da região consultados pelo Estado, três anos depois da crise a falta de dinheiro atinge a todos e o resultado é o começo de uma queda nas reservas e da atividade econômica. O hotel onde a seleção se hospedará, o luxuoso Kamelia, estava oferecendo quartos com 75% de desconto em comparação ao preço de tabela para os meses de verão. Empresas aéreas, como a Transaero, faliram.

O próprio time de Sochi, que fechou suas portas, é o retrato da crise. Em 2010, a reportagem esteve no estádio que o Brasil vai usar como base. Naquela época, o time do Zhemchuzhina gastava por ano US$ 30 milhões (R$ 97 milhões) com a ambição de subir para a Primeira Divisão. No dia da visita, os cartolas comemoravam um fato histórico para seus cofres. Naquela noite ocorreria a primeira transmissão pela TV de um jogo de Segunda Divisão da Rússia.

“Vamos aumentar comerciais e arrecadação’’, afirmava Andrei Malozolo, então presidente do time. Sua grande estrela era um brasileiro, Ricardo, que perambulava pelas divisões inferiores da Rússia.

O governo, tentando manter a economia de Sochi funcionando e evitar a ociosidade das instalações, passou a levar ao local conferências e festivais. Da mesma forma que fazia o Kremlin durante a era soviética, o governo de Putin agora subsidia tours à cidade para funcionários públicos de todo o país.

A cidade também foi afetada pelo embargo imposto à Rússia depois de sua invasão da Crimeia. Por ano, Sochi recebia cerca de 30 navios com turistas em uma rota que também incluía a Crimeia. Agora, as empresas europeias são obrigadas a evitar o território invadido e as reservas despencaram. Para 2017, serão apenas cinco cruzeiros.

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