Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Cidade que recebeu o Brasil em 2006 volta a hospedar candidatos à taça

A pequena Weggis, na Suíça, é o cenário escolhido pela equipe local antes da viagem ao Brasil

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2014 | 07h25

SUÍÇA, Weggis - Além do barulho dos chutes e das ordens do treinador, o som que se escuta no campo de treinamento da seleção da Suíça na pequena cidade de Weggis é dos sinos pendurados nos pescoços das vacas que ocupam as proximidades do campo. Há oito anos, a trilha sonora era bem diferente.

Semanas antes de iniciar a Copa de 2006 na Alemanha, a CBF optou por levar a seleção de estrelas como Ronaldo, Cafu e Roberto Carlos para Weggis, na Suíça. Agora, o vilarejo de apenas quatro mil habitantes volta a receber uma seleção que se prepara para um Mundial. Desta vez, foram os próprios suíços que optaram pelo vilarejo. Uma vez mais, patrocinadores e autoridades políticas fizeram questão de organizar fogos de artifício e barracas de alimentação.

Mas, ao contrário do que ocorreu em 2006, a comissão técnica do time alpino colocou limites e deu uma ordem geral aos jogadores, empresários e políticos locais: o carnaval está proibido. O objetivo da estadia é preparar a equipe, e não ser um produto a ser explorado comercialmente.

Em 2006, a CBF fechou um acordo para levar a seleção por duas semanas para a cidade nas proximidades de Luzerna. A meta era lucrar até mesmo com a preparação do time e a CBF, saiu da Suíça mais rica.

Mas, em termos esportivos, a experiência foi um desastre e até hoje é citada como exemplo do que não se deve fazer na preparação de uma seleção. Ingressos para ver jogadores correndo pelo campo eram vendidos a mais de US$ 100, bandas pseudo-carnavalescas tomaram conta da cidade e a comissão técnica simplesmente perdeu o controle sobre os jogadores.

Sem segurança reforçada, atletas foram alvos de invasão de campo e o hotel se transformou em um quartel general de festas. "Só uma seleção como o Brasil pode ter um clima desse como preparação", declarou, na época, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, em uma mistura de ironia e zombando da situação.

Internamente, o então treinador Carlos Alberto Parreira se queixou, protestou e pediu mudanças. Mas a CBF alegou que os contratos já estavam assinados. Um ano depois do desastre, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, confessou ao Estado que viu jogadores voltando "de pileque" para a concentração. O grupo, naquela viagem à Weggis, foi comandado por Marco Polo Del Nero, escolhido na ocasião pela CBF para ser o chefe da delegação. Hoje, Del Nero é o presidente eleito da entidade.

Nesta semana, a reportagem do Estado voltou à pequena cidade que, em algumas ruas e prédios, ainda guarda a tinta verde-amarela usada para receber a seleção brasileira. O estádio para seis mil pessoas que acolheu o Brasil foi trocado por uma arquibancada menor, com capacidade para apenas 1,7 mil pessoas.

Hoje, ex-empregados do hotel ocupado pela seleção relatam cenas surrealistas daquela preparação. "Uma tarde, num momento em que a seleção brasileira estava treinando, eu escutei um som que vinha da sala de festas", contou um ex-gerente, que pediu para não ser identificado. "Achei que era alguém que tinha entrado ou um funcionário. Mas, quando entrei na sala, eram alguns jogadores que estavam dançando" contou.

Com os suíços, a ordem da comissão técnica é de que haja "concentração total" para a Copa. Treinando no local desde segunda-feira, o time tem sido alvo também de pedidos de autógrafos e tietagem. Mas os organizadores passaram a limitar o acesso dos torcedores, restringiram a imprensa e fizeram questão de alertar a cada jogador sobre o que ocorreu com o Brasil em 2006.

"Os treinamentos são intensos. Todos estão atentos e podemos ver que há muitas concentração", declarou Michel Pont, assistente do técnico Ottmar Hitzled. Os suíços são cabeça de chave na Copa e enfrentam Equador, França e Honduras na primeira fase.

Em 2006, 900 jornalistas foram credenciados para acompanhar a seleção, aumentando a população da cidade em quase 25%. Uma rua foi transformada em espécie de feira ao ar livre, enquanto grupos de samba, pagode e forró se alternavam em palcos pela cidade.

Com o time da Suíça, os organizadores admitem que o interesse não é o mesmo. Ontem, diante de uma fina chuva, as arquibancadas traziam apenas algumas dezenas de crianças. Por ordens da comissão técnica, nem todos os treinos serão abertos, como ocorreu com o Brasil em 2006 - em uma semana, apenas seis foram liberados e outros seis serão fechados.

Quem parece não ter aprendido a lição de 2006 são os políticos locais que voltam a tentar usar a presença de uma seleção para atrair a atenção do mundo. "A vinda do Brasil para Weggis mudou a imagem da cidade no mundo", declarou ao Estado o orgulhoso prefeito do vilarejo, Kaspar Widmer. Segundo ele, a receita da cidade e o turismo aumentaram depois que a CBF escolheu a cidade para se preparar em 2006.

Ele não esconde que a meta desta vez era também atrair a atenção internacional. Na segunda-feira, uma feira foi aberta com a presença das autoridades locais. A prefeitura ainda promete 17 atividades até o fim do estádio da seleção, além da venda de alimentos típicos, como raclete e salsicha. "Queremos oferecer aos turistas uma experiência atrativa com futebol, música e comida", declarou o Adrian Steiner, CEO da empresa Thermoplan, responsável por financiar as instalações esportivas e o campo para a seleção suíça.

Entre os comerciantes da cidade, ninguém parece muito preocupado com o resultado da preparação do Brasil em 2006 e torce para um novo fluxo de torcedores. "Nunca tivemos tantas pessoas como em 2006", relembra Hans Kohler, dono de um restaurante na cidade. "Lembro-me que tive de contratar duas pessoas para ajudar a servir. Foi fantástico."

A federação suíça relata que autorizou a prefeitura local a realizar as festas. Mas exigiu que houvesse um equilíbrio entre os lucros e a preparação do time. A prefeitura garantiu que a concentração dos jogadores suíços não seria atrapalhada, salvo pelos sinos das vacas.

PARA LEMBRAR

Em apenas um dia, naquele maio de 2006, um caminhão foi assaltado, três jornalistas foram vítimas de furto e, pior, uma torcedora invadiu o campo de treinamento da seleção, em Weggis, revelando inúmeras falhas na segurança. Sem ser impedida, Sheila Soares, brasileira que morava em Zurique, correu até o meio do campo e pulou sobre Ronaldinho Gaúcho, que fazia alongamento. Enquanto alguns jogadores aplaudiam, outros jogavam um colchão para cobrir o atleta e a torcedora. Antes de sair algemada, Sheila contou que, enquanto abraçava o jogador, Ronaldinho disse: "Já que você veio, então deita e rola comigo na grama".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.