Ciência e tecnologia estarão a serviço da seleção brasileira na Copa do Mundo

Garrafas inteligentes com isotônicos personalizados estão entre as novidades para os atletas

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Para conquistar o hexa, os jogadores brasileiros terão de percorrer o caminho das águas. Não é superstição. É ciência. Trata-se de um circuito de água rasa e forrada com quatro tipos de pedras, com texturas e tamanhos diferentes. Caminhando por ali, os jogadores fortalecem a musculatura e previnem lesões nas articulações, como joelho ou tornozelo. Quando a garganta secar, cada jogador terá um isotônico específico para suas necessidades. Cada bebida repõe exatamente o que foi perdido pelo jogador a partir dos testes de suor e urina feitos por eles. Essa análise permite uma hidratação de altíssima precisão. A bebida de Neymar, por exemplo, é diferente do líquido ingerido por Fred. Até as garrafinhas são individuais.

Essas são algumas das inovações científicas que aguardam os jogadores segunda-feira no início da preparação para a Copa do Mundo. "Temos um Centro de Treinamento que é um dos mais modernos do mundo", orgulha-se Paulo Paixão, preparador físico da seleção.

O caminho das águas e as garrafas inteligentes – mais abaixo esse conceito será explicado direitinho – estão ao lado de modernismos que os torcedores já conhecem, como a sessões de crioterapia. São aquelas banheiras de hidromassagem que fazem os jogadores esfriar a cabeça – e o resto do corpo inteiro – após os jogos com temperaturas entre 5 e 10º C. O objetivo é regenerar as fibras musculares. Além disso, uma piscina foi construída para permitir que o fisioterapeuta, médico ou preparador físico observe o movimento do jogador debaixo da água quando faz exercícios específicos. Uma parte dela é transparente, fechada por vidro.

"Hoje em dia o futebol não se ganha apenas dentro das quatro linhas", afirma José Luiz Runco, médico da seleção brasileira e um dos idealizadores da modernização da Granja.

Para aguentar o tranco de perder de 1200 a 1400 kcal durante os treinamentos, os jogadores têm um cardápio variado que inclui proteínas e carboidratos para acelerar a recuperação, aminoácidos para proteger de lesões musculares e creatina para garantir a força muscular. Tudo obviamente dentro da lei. Esses são os “acompanhamentos” para as seis refeições diárias que cada atleta vai fazer.

Aqui entra de novo o conceito da personalização. A suplementação com proteínas e aminoácidos leva em consideração as particularidades de cada atleta, que começam a ser destrinchadas nos testes físicos a partir de amanhã. Silvia Ferreira, nutricionista da seleção brasileira desde 2001, explica que o consumo médio de calorias diárias de um jogador de futebol é de três a quatro mil kcal, quase o dobro de um adulto normal (entre 2000 e 2500 kcal/dia).

GARRAFAS INTELIGENTES

Aquela bebida personalizada, que repõe o que cada jogador perdeu, é o resultado de um projeto de quase dois anos que é pioneiro no futebol mundial. Cientistas da Gatorade, parceira da seleção, recolheram amostras de urina e suor de todos os jogadores convocados para os amistosos e também durante a Copa das Confederações. O objetivo era descobrir o nível inicial de hidratação de cada um e também quais sais minerais eram perdidos nos jogos. A partir dos resultados, a empresa criou bebidas específicas para a necessidade de cada jogador. Elas deveriam ser tomadas nos treinos e também em outros momentos do dia, até em casa. A ideia é aumentar o desempenho dos atletas e diminuir ao máximo a necessidade de hidratação.

Esse é o segundo passo do projeto. Por meio de um chip, a garrafa armazena os dados sobre a quantidade de líquido ingerido. Essas informações são enviadas, em tempo real, para um laptop da comissão técnica. Com isso, Parreira e Felipão sabem quem está mal das pernas. "A queda do desempenho do atleta é diretamente proporcional ao declínio do nível de hidratação", explica Orlando Laitano, professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco e consultor da empresa.

O fisiologista Turíbio Leite de Barros, um dos mais renomados especialistas em Fisiologia do Exercício, coloca uma dúvida. "É uma tecnologia muito avançada, mas que parece ser limitada pelas regras do jogo. No futebol o atleta não tem condições de beber quando acha que é necessário, como no ciclismo, por exemplo." Laitano afirma que o projeto vai muito além das pausas para reidratação durante o jogo, que não são permitidas pela Fifa. "O objetivo é minimizar a necessidade de reidratação, fazendo com que o jogador esteja bem durante todo o jogo."

VITÓRIA

O coordenador técnico Carlos Alberto Parreira e o médico da seleção José Luiz Runco são os "padrinhos" da reformulação tecnológica do Centro de Treinamentos em Teresópolis. Vale lembrar que Parreira foi o primeiro a autorizar a realização de testes para mapear o funcionamento do organismo de cada atleta durante o esforço da partida. Isso lá em 1994, ano do tetra. No caso de Parreira, repetir os procedimentos é ciência mesmo e não tem nada de superstição.

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