JF Diorio
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Ciência faz o dia a dia do campeão Palmeiras

Câmeras termográficas, GPS e máquinas de recuperação estão no cotidiano dos atletas

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2016 | 17h00

A primeira coisa que um jogador do Palmeiras faz quando chega para treinar é tirar uma foto. Mas não é preciso falar "giz". A câmera termográfica mede apenas o desgaste físico pela temperatura corporal. No treino, eles são monitorados com um GPS que mede distância, piques, mudanças de direção, salto e até trombada. Em tempo real, o preparador físico recebe todos esses dados. No final da atividade, cada um dos 35 atletas recebe da nutricionista uma garrafinha personalizada, com seu nome, para repor a energia perdida. No dia seguinte, começa tudo de novo. A ciência e a tecnologia estão no cotidiano do campeão brasileiro. 

O Palmeiras não inventou a roda. Embora tenha sido pioneiro em algumas ferramentas, como a termografia e esse GPS que faz 12 registros por segundos, a maioria dos grandes clubes brasileiros tem cotidianos semelhantes. O fisiologista Turíbio Leite de Barros, um dos primeiros a escalar a ciência como titular nos clubes de futebol, ainda na década de 1980, explica que os times grandes principalmente estão parelhos.

Um dos diferenciais do Palmeiras é fazer o que todo mundo faz de um jeito mais eficiente e dinâmico, fazendo com a informação seja compartilhada por fisioterapeutas, termografista, preparadores físicos até o treinador. Além disso, o time conseguiu resultados práticos que influenciaram diretamente na performance da equipe. 

Entre 2015 e 2016, as lesões musculares despencaram de 36 para 13. Sem contar que o tempo médio de recuperação caiu de 24 para nove dias. O caso mais emblemático foi do atacante Gabriel Jesus. Em três oportunidades, ele defendeu a Seleção Brasileira e, horas depois, jogou pelo Palmeiras. Isso aconteceu contra São Paulo, Cruzeiro e Atlético-MG. Como a maioria dos aparelhos é portátil, ele fez sua recuperação dentro do avião. "Não é possível ter resultados continuados no futebol sem ciência", diz Altamiro Bottino, coordenador científico do Palmeiras. 

Com todos os atletas na mão, o técnico Cuca consegue repetir várias vezes a mesma escalação, aperfeiçoar o entrosamento, fazer mais jogadas ensaiadas e se destacar coletivamente. Quando precisa fazer alguma troca, o substituto está praticamente no mesmo nível dos outros. Cuca valorizava a quantificação da carga de trabalho para evitar riscos - essa é a expressão que o fisioterapeuta Jomar Ottoni utiliza. Com a saída de Cuca e de seus dois auxiliares, o novo treinador - possivelmente Eduardo Baptista - poderá adotar novas orientações. A equipe de trabalho, no entanto, é contratada pelo Palmeiras.

O Palmeiras estava com um pé atrás na hora de mostrar os equipamentos, como o recovery ou o GPS. Altamiro explica que é importante valorizar as pessoas, não as máquinas. Nos últimos anos, o clube vem investindo consideravelmente na contratação de profissionais. O fisiologista Gustavo Magliocca, diretor médico da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), passou a trabalhar diariamente com o elenco profissional.

Após três anos de mestrado pela Universidade Politécnica de Madri, termografista cearense Davi Mahamud voltou para ser um dos raros especialistas na área. Quando saiu do Botafogo, o clube desativou a termografia porque não existiam substitutos no mercado para o trabalho de Davi. Ele conta que apenas três clubes no Brasil utilizam a termografia continuamente: Palmeiras, Cruzeiro e Corinthians.

Utilizado principalmente para detectar câncer de mama, a termografia no esporte permite fazer diagnóstico por imagem da condição do músculo. Quando o músculo está sobrecarregado por um treino forte ou jogo, ele desenvolve um processo inflamatório de regeneração, o que aumenta a temperatura da região. Essa alteração pode ser captada pela câmera termográfica, que capta a radiação infravermelha e faz a tradução em graus Celsius.

Os pontos mais sobrecarregados ficam com a coloração vermelha; os de menor temperatura ficam com um tom azul esverdeado no gradiente de cores da câmera temográfica. David explica que não podemos dizer que todos os jogadores têm o mesmo perfil nem que o valor de temperatura é o mesmo para todos. Tudo tem ser individualizado. 

A temperatura elevada captada pela câmera termográfica somada ao estudo da carga de treinamento semanal ou diário, registrado pelo GPS, fornece informações importantes para o planejamento dos próximos treinamentos. 

DESEMPENHO 

A identificação na porta da sala diz: Centro de Inteligência do Palmeiras. Em uma sala ampla e arejada, cercada de monitores de vídeos e computadores, com uma grande mesa redonda com o símbolo do clube, os analistas de desempenho Rafael Costa, Gustavo Nicoline e Gabriel de Oliveira atuam em três frentes: a análise dos próprios atletas do Palmeiras, dos rivais e o monitoramento da Série B.

Além de acompanhar os jogos dos rivais in loco, os profissionais usam monitores e softwares de última geração para analisar as principais jogadas ofensivas e defensivas.

O monitoramento da Série B, que abrange a análise de todos os atletas, partida por partida, conta com a ajuda dos profissionais da base e dos captadores de novos talentos. São assistidos 15 a 20 jogos por semana. Na Academia de Futebol, a equipe criou um grande painel colorido, que forra a parede com fichas de qusae 400 atletas. O projeto é simples: os jogadores que se destacam, jogo a jogo, ganham fichas coloridas de cor azul; aqueles com menos destaques ganham cores amarelas.

Os profissionais pediram que o Estado não fotografasse o painel para evitar especulações sobre novas contratações. Ter a ficha azul significa o primeiro passo para um contato da diretoria, de acordo com a necessidade do clube. Diretores do clube afirmam que aquele painel é um instrumento de gestão.

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