Filippo Monteforte| REUTERS
Ronaldo sofreu grave lesão no joelho quando jogava pela Inter de Milão, em 2000 Filippo Monteforte| REUTERS

Ronaldo sofreu grave lesão no joelho quando jogava pela Inter de Milão, em 2000 Filippo Monteforte| REUTERS

Evolução das cirurgias do joelho evita fim de carreira de atletas profissionais e amadores

Técnicas mais modernas permitem estender período de atividade de jogadores mesmo após graves traumas; tratamento se estende para corredores anônimos e para quem gosta de jogar futebol no fim de semana

Eugenio Goussinsky , especial para o Estadão

Atualizado

Ronaldo sofreu grave lesão no joelho quando jogava pela Inter de Milão, em 2000 Filippo Monteforte| REUTERS

A essência do futebol se constituiu de craques com ginga, dribles, arrancadas e mudanças de direção, com desacelerações repentinas e descobertas de espaços. Graças à intuição e à criatividade, mas também à mais delicada e detalhista articulação do corpo. A história do futebol brasileiro, por seu conjunto de lances mirabolantes, sempre esteve ligada aos joelhos de seus jogadores. Numa trajetória de glórias e dramas.

São inúmeros os talentos que tiveram carreiras abreviadas por causa de rupturas de ligamentos, meniscos e problemas nas cartilagens. Reinaldo (Atlético-MG, anos 70), Zico (Flamengo, anos 90) e Garrincha. Nos tempos atuais, porém, com inúmeras técnicas nas intervenções e tratamentos, jogadores com problemas similares costumam ter carreira mais prolongada. A revolução nestas cirurgias também beneficia os atletas amadores, como corredores de fim de semana e aqueles que gostam de jogar seu futebol no fim de semana.

“As inovações dos tratamentos e as novas intervenções nos permitiram sermos menos invasivos na abordagem das lesões, o que possibilita uma melhor recuperação e um retorno mais breve. Foram surgindo técnicas de reparação meniscal, da cartilagem, avanços nas cirurgias de reconstrução de ligamentos, tudo voltado cada vez mais para a melhora da parte biológica, tentando preservar ao máximo as estruturas da articulação”, diz o ortopedista Marcos Cortelazo, especialista em cirurgia de joelho, e coordenador do pronto-socorro de ortopedia do Hospital São Luiz, em São Paulo.

Por ser uma das maiores articulações do corpo, responsável por sustentar o peso, o joelho é um fator determinante para a prática do futebol. Ao propiciar estabilidade, é ele que permite que o craque realize o que pensou. Quando o joelho não funciona bem, é como se, para um violinista, a corda de um violino estourasse durante uma apresentação.

“Por ser bastante exigido, o joelho é uma das áreas que mais sofrem com lesões, além, claro, de outros fatores que podem comprometer seu bom funcionamento, como sobrepeso, histórico genético e a idade”, observa Cortelazo.

Segundo estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), 72,2% das lesões são nos membros inferiores, com o joelho ocupando a terceira colocação (11,8%) depois do tornozelo (17,6%) e da coxa (34,5%). “Evidente que nos anos 70 não seria possível obter o resultado que encontramos hoje, por causa da falta de conhecimento, de capacidade de avaliação e técnica operatória inadequada, situações compatíveis com o tempo que se vivia na época”, diz o ortopedista José Luiz Runco, médico da seleção nas Copas de 1998 e 2002, entre outras.

BARESI

Um dos marcos do avanço das intervenções no joelho ocorreu na Copa do Mundo de 1994, com o líbero italiano Franco Baresi. O drama e a recuperação do jogador causaram impacto na opinião pública mundial em relação à eficiência das novas técnicas.

O então capitão italiano sofreu ruptura de meniscos do joelho direito no jogo contra a Noruega, o segundo de sua seleção naquele Mundial, e foi parar na mesa de cirurgia do hospital Lennox Lin, em Nova York. Porém, após a recém-implementada videoartroscopia e rápida recuperação, Baresi voltou à equipe na final da Copa. O Brasil foi campeão, mas ele teve excelente atuação. “Este caso já demonstrou como a evolução das técnicas operatórias e o diagnóstico correto foram fundamentais para o atleta se recuperar e retornar em alto nível dentro de uma competição”, ressalta Runco.

Com novas alternativas, apesar de uma recuperação grave levar, em média, oito meses, contra pelo menos um ano e meio nos anos 80 e 90, a chance de um jogador voltar a atuar normalmente é muito maior, diz Runco. Inclusive em função do fortalecimento muscular, já que são os músculos um dos principais elementos de proteção dos joelhos. “O que também tem facilitado, e sendo um fator de prevenção, é o fato de existirem vários meios de trabalhos preventivos, através da fisioterapia, que servem para prevenir e facilitar a recuperação de lesões no joelho.”

REVOLUÇÃO

A principal técnica que revolucionou as intervenções cirúrgicas no joelho é a artroscopia, que permite ao médico, por meio de um monitor, diagnosticar e realizar a intervenção sem invadir a articulação. E a partir dos anos 90, com o desenvolvimento de equipamentos cirúrgicos, como instrumentos precisos de corte, o método, que passou a se chamar videoartroscopia, se tornou a principal solução para as lesões graves. No procedimento, é feita pequena incisão na pele do paciente, para que seja inserido um artroscópio. Por meio de um monitor de TV inserido ao sistema, é possível ver a imagem da estrutura e realizar a operação.

Até os anos 80, as técnicas para as intervenções não estavam tão evoluídas. A partir do diagnóstico, o joelho era aberto para a cirurgia, muito mais invasiva. Infiltrações também eram comuns e costumavam postergar e agravar o problema. Em várias ocasiões, os meniscos de um jogador eram retirados. Atualmente, isso ocorre apenas como último recurso.

Nos anos 60 e 70, os craques Garrincha (Botafogo) e Reinaldo (Atlético-MG) foram os exemplos mais emblemáticos de jogadores que tiveram a carreira encurtada por causa da retirada dos meniscos. Conhecido como “Anjo das pernas tortas”, Garrincha tinha, possivelmente desde o nascimento, os joelhos desalinhados.

Tais condições, por alguns anos, até ajudaram o jogador a desafiar a lógica e, com movimentos surpreendentes, se tornar uma lenda. O tempo e as pancadas, no entanto, foram tirando a magia dos joelhos do craque, que, após ter retirado os meniscos, em 1964, nunca mais foi o mesmo.

Reinaldo, um dos melhores centroavantes dos anos 70, se deparou com problemas no joelho desde o início da carreira. Em 1974, ele teve rompidos os meniscos da perna esquerda após pisar em um buraco durante um jogo. Dois anos depois, em função de uma pancada no treino, teve os meniscos retirados, em uma cirurgia que hoje, para muitos, não seria considerada necessária. Ele ainda conseguiu continuar jogando em alto nível por bom tempo. Mas encerrou a carreira em 1988, em função destes problemas, aos 31 anos.

Muitos atletas, porém, tiveram de encerrar ainda mais precocemente a trajetória no futebol, conforme afirma Márcio Pinto de Abreu, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho e Artroscopia e que atuou como médico do Internacional. “Naquela época (anos 70 e 80), as cirurgias para correção da lesão não eram bem-sucedidas. Hoje esta situação mudou radicalmente, pois nos últimos 30 anos houve uma melhor compreensão da anatomia e biomecânica do joelho e um grande avanço tecnológico”, destaca.

As dificuldades na recuperação ocorriam em outros componentes importantes do joelho: ligamentos; tendão patelar (antigamente conhecido como rótula) e cartilagens, entre os principais. Em 1985, Zico sofreu uma grave contusão após entrada do zagueiro Márcio Nunes, em jogo contra o Bangu. O craque flamenguista saiu de campo com torção nos dois joelhos, no perônio esquerdo e nos dois tornozelos. Seus joelhos nunca mais foram os mesmos. Sem estabilidade nas pernas, se machucava em treinos.

Zico acabou tendo lesão de ligamento cruzado anterior e ligamento colateral do joelho esquerdo. Naqueles anos, ainda não havia cirurgias que reconstruíssem com precisão o ligamento cruzado anterior. A videoartroscopia trouxe soluções para a reconstrução de ligamentos. Geralmente, a lesão ocorre em função de traumas ou de desacelerações com o pé fixo no gramado, e compromete o funcionamento do joelho, uma articulação tibiofemoral, formada entre três ossos: o fêmur, tíbia e patela.

A SUPERAÇÃO DE RONALDO

Há todo um método, hoje em dia, para a retirada dos ligamentos lesionados, substituindo-os por enxertos. A técnica tem avançado para encontrar solluções que deem maior estabilidade ao joelho. Mas as intervenções já têm obtido bons resultados, com enxertos como os tendões flexores do joelho e o terço médio do tendão patelar, entre outros.

Técnicas para recuperação de cartilagens e do tendão patelar evoluíram. As cartilagens revestem as extremidades dos ossos e não permitem que haja choque entre estes durante o movimento. Já o tendão patelar é o ponto de ligação entre a patela e a tíbia e um dos responsáveis pela extensão do joelho.

Foi no tendão patelar do joelho direito que o craque Ronaldo sofreu sua mais séria contusão. Após uma intervenção com raspagem em 1996, Ronaldo, em 1999, sofreu grave contusão atuando pela Inter de Milão, que o obrigou a realizar mais duas intervenções, entre 1999 e 2000. As partes rompidas do tendão foram reconstituídas nos procedimentos.

O jogador, então, passou por um processo de recuperação que permitiu a ele jogar a Copa do Mundo de 2002, conquistar o título e ainda ser artilheiro e o maior nome da competição.

Atualmente, para a correção da região do tendão patelar, em geral, é realizada sutura no local, por meio de fios de alta resistência, com a opção de enxertos de outro tendão e com fitas sintéticas, que aceleram a recuperação e a cicatrização.

Para Cortelazo, as novas descobertas não são o fim do caminho. Mas já significam um avanço que não tem volta. No entanto, há dificuldades a serem superadas, principalmente em relação às cartilagens. “Muitas vezes, a cartilagem lesionada é um problema difícil de ser resolvido e ainda é o grande desafio do cirurgião do joelho, seguido das lesões meniscais. Entendo que as lesões ligamentares hoje guardam um terreno muito bem resolvido, já temos soluções boas”, observa. As mais recentes técnicas já estão bem disseminadas. E, como ressalta Cortelazo, “quanto mais precocemente as lesões são tratadas, melhor o prognóstico.”

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