Classe especial

Carlos Alberto pertenceu à casta dos mitos, mas dos que de fato fazem jus à deferência

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2016 | 05h00

Há jogadores comuns – são a maioria, como os mortais de qualquer profissão. Existem os bons, os muitos bons, os ótimos, os excelentes, os extraordinários. Os craques. E os mitos. São raros os que se enquadram nesta última e especialíssima faixa. Pois Carlos Alberto Torres pertencia a casta tão seleta e particular. Por mérito, trajetória e qualidade. Não por bem articulada ação de marketing, que hoje transforma toscos em astros.

O capitão do tri, ou o Capita, ou o Carlinhos para os amigos, ou o Torres para os mais formais – pouco importa a maneira como era chamado –, cresceu, desenvolveu-se, desfilou a arte num dos períodos mais viçosos do futebol, o mundial e sobretudo o brasileiro. Despejou categoria entre as décadas de 60 e 70 do século passado, não por coincidência a era dos três primeiros títulos mundiais da seleção. 

O auge da geração dele, da qual fazem parte semideuses como Gérson, Tostão, Jairzinho, Rivellino, Clodoaldo, ocorreu na Copa do México, em 1970. Aquela competição marcou época; aquele time conquistou corações e mentes, foi divisor no esporte. Se a turma de 1958 abriu as portas da glória verde-amarela, se o pessoal de 1982 carrega o rótulo da injustiça, a trupe do tri resume o maior encanto jamais produzido por uma equipe nacional. 

Por essas combinações felizes da natureza, o desfecho do campeonato ficou famoso por quatro imagens e dois personagens: o primeiro, claro, Pelé, o deus da bola, a subir com Facchetti para anotar de cabeça o gol inicial dos quatro do Brasil; e o mesmo Rei carregado pelo povo, sem camisa e com sombrero, ainda no gramado do Estádio Azteca, tão logo terminou o duelo.

Os outros destaques couberam a Carlos Alberto – ao fechar a conta dos 4 a 1, com um chute seco, na entrada da área, em passe de Pelé. E, depois, a alegria ao erguer a Jules Rimet, em gesto semelhante aos de Bellini (58) e Mauro (62), zagueiros e líderes como ele. Na oitava edição dos Mundiais, o capitão foi o último a levantar a deusa alada, mais tarde surrupiada e derretida. 

Carlos Alberto não era xerife, ao menos na concepção do sujeito que limpa a área, que se impõe pelo físico, que entra rasgando a chuteira no adversário. O negócio dele era acariciar a bola, como só os virtuoses sabem. Lateral na maior parte da carreira, brecava o caminho de atacantes, mas se transformava num gigante, num trator, ao irromper na frente. E com pontaria. 

Mas o timing do fora de série aparecia, também, quando o clima esquentava. Se não distribuía sapatadas, porque elas são tarefas dos carregadores de piano, também era mestre em aplicá-las, se necessário. Como no jogo com a Inglaterra, pela segunda rodada da Copa do México, ainda na fase de grupos, em 7 de junho, em Guadalajara.

Jogo complicado, truncado e os ingleses a descerem a ripa sem dó. Um tal de Lee, folgado pra chuchu, abusou e lascou uma patada em Félix. Apreensão entre os brasileiros, e o juiz Abraham Klein complacente. Eis que, numa disputa na intermediária, Carlos Alberto dá um rabo de arraia no Lee, que sobe meio metro e despenca, vermelho de raiva, fulo e assustado.

Os britânicos absorveram o recado de Carlos Alberto em nome dos demais companheiros. Eles entendem de brigas e reconhecem quando topam com um adversário à altura. Dali em diante, o jogo transcorreu numa serenidade só, quase um amistoso. No final, 1 a 0 para o Brasil, gol de Jairzinho, e a refrega terminou com os atletas abraçados. Sem ódios nem rancores, como se deve.

Carlos Alberto foi um dos maiores na posição, em todos os tempos. Sem patriotada, nem papo de saudosista, tampouco conversa laudatória para saudar alguém que morreu. Trata-se de constatação, fato de manual de futebol. Assim como Djalma Santos, outro lateral inigualável e a quem ele sucedeu na seleção.

O corpo de Carlos Alberto, a matéria, foi embora; sina inevitável. A obra fica – eis a vantagem do artista sobre os demais. Vira imortal. Obrigado e a bênção, Capitão do Tri. 

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