Classificado para o Catar, Tite tem agora um trabalho mais duro: preparar seus atletas para a Copa
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Classificado para o Catar, Tite tem agora um trabalho mais duro: preparar seus atletas para a Copa

Lapidar o elenco, escolher o grupo, apresentar soluções para situações difíceis de jogo, mostrar repertório, testar e avançar para não voltar para casa mais cedo, como aconteceu com ele próprio em 2018 e com outros antes dele

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 11h28

A seleção brasileira está na Copa do Catar e vai, mais uma vez, lutar pelo sexto título. Brasil, Alemanha e Itália, em qualquer situação, sempre chegam como favoritos. A Azzurra nem foi para o Mundial da Rússia, em 2018, mas não perdeu sua majestade. Ganhou recentemente a Eurocopa e volta com a corda toda. Precisa ainda se garantir nas Eliminatórias da Europa. Os italianos adoram futebol. Alemães e brasileiros também.

Após o 'PQP, estamos no Catar', que Tite queria soltar, mas não soltou - coube ao seu auxiliar o desabafo emotivo -, o trabalho do treinador passa a ser outro de agora em diante. Não é mais ganhar os jogos que faltam na disputa sul-americana nem montar equipes para vencer possíveis amistosos até o Mundial. Se acontecer, melhor. Tite e sua trupe têm de focar nas dificuldades do time em campo, nas marcações fechadas e como superar elas, nas opções de jogadas e de jogadores com características diferentes e diferenciadas, da velocidade e da cadência no meio de campo, na mentalidade dos seus atletas, inclusive Neymar, que pode, como ele mesmo disse, estar na sua última Copa após dois fracassos anteriores.

Na verdade, o trabalho está indo para um outro patamar, mais difícil do que enfrentar os rivais da América do Sul. É preciso recorrer a tudo o que deu errado nas edições passadas e mostrar para seus jogadores, pontuar, explicar. É preciso fechar o grupo, uma parte dura do trabalho, porque gente interessante pode ficar para trás.

Tite precisa convencer seus jogadores muito mais do que já fez. Esse fechar o grupo não é se isolar. É mentalizar um projeto e tocá-lo, como a Alemanha fez em 2014 no Brasil. Foi uma seleção simpática em sua concentração na Bahia e ganhou a competição. Não é preciso sofrer no trabalho. É preciso gostar do que se está fazendo e fazer bem feito. Só que numa Copa do Mundo, todos pensam assim. Então é preciso pensar mais e fazer mais.

O Brasil não vai bem em Copas desde 2006, quando tinha um dos melhores times do mundo, com Ronaldinho, Adriano, Kaká... Desde o penta, só faz perder e irritar o seu torcedor. Tite está mais maduro, era um 'aprendiz' na Rússia. O Brasil não teve a Copa das Confederações e isso pôde ter atrapalhado. Lembro-me de Tite na Rússia ávido por informações e sentimentos. Agora, ele está mais bem preparado.

Precisa falar para seus jogadores que meninos ganham jogos, mas não ganham Copas. Homens ganham Copas. Então, é preciso colocar isso na cabeça de todos eles por um mês apenas, em novembro de 2022, quando o torneio vai ser jogado no Catar. São sete partidas. É preciso ainda encontrar caminhos para uma possível ausência de Neymar. Pode acontecer. O Brasil não pode mais uma vez se abater se o craque do time ficar fora por lesão ou cartão.

Neymar é um capítulo único nessa trama. Aos 29 anos, precisa ser mais do que foi nas últimas Copas do Mundo. Deixar vaidades de lado e fazer o que tem de ser feito. Ter liberdade sem deixar de ter responsabilidades. Liderar e não ser pivô das polêmicas, embora Neymar se alimente dessas confusões para jogar mais. Não precisa. Ele sabe o caminho das conquistas. Ele é melhor do que muitos que estarão no Catar. Tem de botar isso na cabeça por um mês. Depois da Copa, pode ganhar o mundo. Mas no Mundial, ele precisa fazer jus à tradição da camisa que sustenta. É cobrado porque pode dar. Então que dê.

Por fim, Tite precisa ser ele mesmo, sem querer ser o que não é e se preocupar tanto com o que os outros vão falar dele. A sensação que tenho é que Tite tenta, de todas as formas, não deixar passar nada em sua conduta e postura. Quer ser um paizão e isso é legal. É sua personalidade. Mas essas condutas não podem atrapalhar ou intimidar sua missão e seu trabalho. Então, que ele seja o que precisa ser numa Copa do Mundo, duro mas sem perder a ternura.   

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