Clube diferente

O ex-presidente Juvenal Juvêncio gabava-se do perfil administrativo do São Paulo. O dirigente enchia a boca para definir o clube que controlava como “difereeeeeen-txe”, por ser dinâmico, ousado, moderno, à frente do tempo. Até foi, mas em outras eras.

O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2015 | 03h00

O São Paulo de hoje virou caricatura de si próprio e ganha destaque no noticiário não pela força da equipe tampouco pelos títulos conquistados – praticamente desaparecidos nos últimos anos. A relevância se dá por casuísmos políticos (como a mudança de estatuto que permitiu três mandatos a Juvêncio), por divisões internas, por dúvidas em gastos com contratações.

Agora só falta migrar para manchetes policiais. Pois até troca de ofensas e socos ocorrem em reuniões de diretoria. O entrevero entre Ataíde Gil Guerreiro e Carlos Miguel Aidar, anteontem pela manhã em um hotel, seria inimaginável numa agremiação com ar fidalgo, nobre e quatrocentão. Mas virou realidade – e, por mais que se tenham colocados panos quentes (e necessários para aliviar dores), o desdobramento veio na forma de demissões de ex-aliados. O poder concentra-se nas mãos de Aidar, que terá de lidar com conselho mais dividido. 

Alguém pode alegar que isso é coisa de cartolas, com interesse escasso para o torcedor. Não é bem assim. As trombadas se refletem no futebol, afetado por desmanche no comando e por turbulências no planejamento, no elenco e na estrutura técnica.

O resultado prático veio na tarde de ontem com a admissão, enfim, de que Juan Carlos Osorio está de saída para dirigir a seleção do México. A debandada do treinador era dos segredos mais escancarados dos últimos tempos e, ainda assim, desmentido sem convencer a ninguém. Bastava um pouco de experiência para entender os recados que Osorio mandou em entrevistas.

Em diversas ocasiões, preparou terreno para limpar o armário e ir para outra freguesia. O colombiano criticou o esfacelamento do grupo (venda de jogadores sem que lhe tivessem avisado na época da contratação), irritou-se com “muita gente” dando palpites, qualificou de “inacreditável” como as dissensões atingiam o futebol da casa e respondeu com um claro “não”, quando lhe perguntaram se confiava na direção são-paulina. De quebra, acenou em diversas ocasiões com o desejo de disputar uma Copa do Mundo e que estava em jogo o futuro profissional. Precisava de mais indícios?!

Osorio sai sem ter feito história no São Paulo. E nisto há constatação e não crítica. Não houve tempo para marcar profundamente a passagem no clube. Mesmo assim deixou boa impressão, ao mostrar empenho, seriedade e inquietação. A equipe oscila, mas se mantém na briga pelo G-4 e na disputa pelo título da Copa do Brasil. Balanço aceitável para quem encontrou elenco despedaçado. Fica para a próxima vez.

O São Paulo continua a distinguir-se dos concorrentes paulistanos. De fato, enquanto Corinthians e Palmeiras buscam aprimorar gestão e têm casa nova, tricolores andam para trás. Os dois rivais eram tidos como provincianos na forma de agir; pelo visto, passaram o bastão.

Pra valer. Os testes em amistosos e na Copa América foram etapas importantes. Agora, no entanto, o desafio de Dunga na seleção é sério: vaga para o Mundial de 2018 na Rússia. A aventura começa amanhã contra o Chile e, caso raro na história, o Brasil não é favorito para ficar à frente das Eliminatórias da América do Sul.

Não se trata de desprezo. O fiasco em 2014 e a falta de geração com muitos talentos acima da média (só Neymar) contribuem para diminuir a cotação nacional. Nem por isso engrosso o coro dos que alardeiam o risco de o país ficar fora pela primeira vez da competição. Com 18 rodadas, jogos em ida e volta, todos contra todos, quatro vagas diretas e outra pela repescagem, o Brasil só não se classifica por hecatombe. Por mais que a maré não seja boa, não chegará a tal ponto de humilhação. 

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