Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Clube-empresa volta a entrar na agenda de Brasília

Mudança na estrutura e forma de gestão dos times é visto como caminho para atrair mais investidores

Marcio Dolzan/Rio, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2019 | 04h30

As dificuldades para competir financeiramente com clubes europeus e asiáticos, além de dívidas que se acumulam há décadas, principalmente com a União, podem fazer os clubes brasileiros passarem por uma mudança profunda em seus modelos de administração num futuro próximo. A Câmara dos Deputados deve discutir neste segundo semestre um novo projeto para transformar as agremiações em empresas, o que, em tese, tornaria o investimento nos clubes mais atrativos.

Na terça-feira, o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM) foi à sede da CBF, no Rio, conversar com o presidente da entidade, Rogério Caboclo. O parlamentar, que é conselheiro do Botafogo, disse que o principal motivo da visita foi “pedir ajuda” ao seu time do coração, mas que também foi discutida a ideia de transformar os clubes de futebol em empresas.

“Nós precisamos da entrada de capital estrangeiro. Um clube associativo (como é o modelo tradicionalmente usado no Brasil) não vai atrair capital privado nenhum, muito menos estrangeiro, porque a forma de administração é primária, primitiva, atrasada, que não gera eficiência, que não gera transparência, e que não gera bons clubes de futebol no Brasil”, disse Rodrigo Maia. O seu Botafogo já avalia a possibilidade de fazer essa mudança a partir de um projeto encomendado pelos irmãos Moreira Salles, mais ligados à área de cultura e cinema.

O modelo de empresa é comum entre os grandes clubes europeus. Se for aplicado no País, deve ter como efeito colateral um aumento (grande) com o pagamento de impostos, mas isso seria compensado pela possibilidade maior de se conseguir grandes investidores.

“Existe uma diferença gritante entre ser um clube modelo associativo, como é hoje no Brasil, e uma empresa privada. No sistema associativo não se paga imposto de renda, tampouco contribuição social sobre o lucro, porque são associações cíveis sem fins lucrativos”, explica Eléia Alvim, presidente da Comissão de Direito Tributário da seccional de Goiás da Ordem dos Advogados o Brasil. “Outra diferença é quanto às contribuições previdenciárias. Na forma como é hoje, os clubes de futebol têm muitos benefícios. Em uma empresa normal, a contribuição previdenciária dela é de 20% sobre a folha de pagamento, e a gente sabe que num clube isso é muito alto”, explica.

Para a advogada, porém, o modelo em discussão é mais atrativo. “O investidor privado precisa de uma garantia sobre o seu dinheiro. O clube associativo não traz garantia nenhuma, porque tem diversos sócios e uma governança praticamente zero, não tem compliance. Empresas têm governança, uma administração verdadeiramente profissionalizada, uma gestão remunerada de diretores, uma governança qualificada.”

Opinião semelhante tem Guilherme Barbosa, coordenador do MBA em Marketing Esportivo do Ibmec-RJ. “O modelo atual realmente afasta o investidor. Ele vê os clubes com um presidente que tem mandato de até três anos, similar a projetos governamentais. Isso afasta quem está visando o médio e o longo prazos”, pondera.

Barbosa lembra que a Europa já prefere o modelo de clube-empresa há pelo menos duas décadas. “Estamos muito atrasados em relação a isso”, diz.

Para o professor, a possível mudança tem boas chances de dar certo no Brasil pelo potencial de retorno. “Os produtos da CBF estão se fortalecendo, como o Brasileiro e a Copa do Brasil. Temos campeonatos em quatro divisões. A Conmebol também está seguindo nessa linha, fortalecendo Libertadores e Sul-Americana. É um mercado super atraente”, avalia Barbosa. “Hoje, o que deixa o investidor com um pé atrás é o modelo de gestão. Acho que essa mudança seria um grande passo.”

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