Hélvio Romero/Estadão
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Mauro Cezar Pereira
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Clube rico, futebol pobre

O Palmeiras é pobre nas ideias, na proposta, no conceito de futebol

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 04h00

Zero finalização certa em 90 minutos. Menos de 40% do tempo com a bola, índice que foi ainda menor durante a partida, subindo no segundo tempo, quando o Flamengo, vencendo por 3 a 0, diminuiu a intensidade, deu um refresco ao Palmeiras. Fato é que o campeão brasileiro não foi páreo para o atual líder da Série A.

Foi a maior derrota palmeirense na atual passagem de Luiz Felipe Scolari. E fora o bom começo, subindo a marcação, agredindo o adversário mesmo fora de casa, pouco fez. A diferença entre as equipes não era técnica, pois são dois ótimos elencos, os melhores do País. A distância se explica pelas propostas.

Apesar da conquista do Campeonato Nacional de 2018, o Palmeiras é, desde então e até hoje, um time que não explora seu potencial. Embora seja repleto de jogadores técnicos, quase sempre calça seu jogo em ligações diretas, pouca troca de passes, alternativas reduzidas em meio a pés que poderiam fazer mais, e melhor.

Do outro lado, com cerca de 70 dias de trabalho, Jorge Jesus faz o Flamengo jogar com posse, objetiva e intensamente. Foi vista em campo uma disparidade que não se observa quando se olha os nomes que formam os elencos. E tudo se resume à maneira como o time rubro-negro é preparado e a forma adotada pela equipe alviverde. 

Nos primeiros minutos, quando subiu a marcação e atacou, o Palmeiras foi capaz de fazer ótima jogada que resultou no gol de Matheus Fernandes, bem anulado com a intervenção do árbitro de vídeo. Ali se viu que o time pode ir além, mas não foi, logo voltando ao seu formato de jogo habitual.

Já o Flamengo abriu o placar em excelente jogada logo no primeiro bom ataque, com a participação de Bruno Henrique, De Arrascaeta e Gabriel “Gabigol” Barbosa, que recebeu do uruguaio e tocou mansamente para as redes. O trio soma, agora, 58 gols e 27 assistências em 2019. Eles desequilibram, mas não faziam tudo isso antes de Jesus aparecer.

O Palmeiras é, hoje, um clube rico, mas seu futebol, em geral, é pobre. De ideias, na proposta, no conceito. Rejeição à bola, conexões defesa-ataque sem passar pelo meio-campo, defesa feroz sustentando placares mirrados, seja a vantagem mínima ou até um 0 a 0. Não, esse estilo não basta para um time farto de recursos técnicos.

Na entrevista coletiva após a derrota, Felipão voltou a falar sobre a necessidade de trocar mais passes. Disse o mesmo 312 dias antes, quando da derrota por 2 a 0 para o Boca Juniors, na semifinal da Libertadores. Cabe a ele fazer com que o time atenda a tal expectativa, necessária e absolutamente compatível.

Mas para tal, as escolhas devem ser outras. Scarpa no banco e, de saída, Felipe Melo, Bruno Henrique e Matheus Fernandes, foi o sinal inequívoco de preocupação defensiva, dessa clara prioridade. Não, ficar com a pelota e conduzi-la melhor não era o objetivo número um. O time não é treinado para jogar dessa maneira.

Três dias antes da partida, Scolari rebateu questionamentos sobre o comportamento do Palmeiras dizendo que ninguém (da imprensa) vê seus treinamentos.

Da mesma forma ninguém vê os ensaios de uma banda, mas seus shows, muito menos um filme sendo rodado, ele é visto pronto, na tela grande. No futebol a situação é a mesma.

Obviamente não é preciso assistir treinamentos para se chegar a conclusões sobre uma equipe. Basta ver seus jogos e, naturalmente, tudo fica claro. E o que se vê é um time jogando mal, sem vencer há sete jogos na Série A e eliminado das Copas do Brasil e Libertadores. O campo mostra o que treinos fechados escondem.

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