César Greco / Agência Palmeiras
César Greco / Agência Palmeiras

Reconhecimento ou modismo? Sucesso de Jorge Jesus abre portas a mais técnicos portugueses

Equipes brasileiras 'importam' treinadores de Portugal à espera de repetir o caminho vitorioso do Flamengo

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

Séculos depois de os portugueses colonizarem o Brasil, está em processo uma nova espécie de descobrimento, mas pelo futebol. Somente nos últimos cinco anos pelo menos dez treinadores nascidos em Portugal trabalharam em times brasileiros. O movimento se acelerou principalmente após as conquistas de Jorge Jesus com o Flamengo, e justamente esse sucesso gera uma responsabilidade extra aos recém-chegados. Quem veio agora tem de provar que está no Brasil pela competência e não pelo modismo ou pela nacionalidade.

O mercado brasileiro se abriu aos técnicos portugueses somente nos últimos anos. Apenas em 2020, o Santos apostou em Jesualdo Ferreira e o Avaí trouxe Augusto Inácio. Os dois já foram demitidos. O Bragantino negociou com Carlos Carvalhal, enquanto o Vasco fechou com Ricardo Sá Pinto e o Palmeiras trouxe Abel Ferreira.

Neste século, a Série A do Campeonato Brasileiro teve os primeiros treinadores portugueses em 2016, com Sérgio Vieira no América-MG e Paulo Bento no Cruzeiro. Ambos não tiveram sucesso. A presença de técnicos estrangeiros no Brasil se intensificou principalmente após o fracasso da seleção na Copa de 2014. Apesar de argentinos, colombianos, espanhóis, uruguaios e venezuelanos terem sido testados, o maior sucesso é dos portugueses.

Para o novo treinador do Palmeiras, o motivo desse êxito é a tendência de os compatriotas se ajudarem. “É a divisão do conhecimento. Posso dizer que tive vários colegas a compartilhar comigo. Nós compartilhamos ideias, conceitos, formas de atacar e defender’’, explicou Abel Ferreira. Tanto o vascaíno Sá Pinto como o palmeirense evitam se comparar a Jesus.

“O Jorge fez um trabalho extraordinário, realizou uma temporada incrível. Eu, como português, fiquei muito orgulhoso pelo que ele fez, mas os nossos objetivos são diferentes. A nossa capacidade nesta altura é diferente”, disse Sá Pinto.

O ex-comandante do Flamengo conquistou cinco títulos do Brasil e virou referência quando se trata de estrangeiros de sucesso. O próprio clube carioca tentou primeiramente um outro português, Leonardo Jardim, para a repor a saída dele.

Porém, até agora somente um outro português conseguiu ser campeão no futebol brasileiro além de Jesus. Daniel Neri levou o Salgueiro ao inédito título do Campeonato Pernambucano deste ano e analisa com cautela a intensa vinda de compatriotas ao Brasil. “Não é a nacionalidade de um treinador que faz o trabalho dar certo. O importante é a capacidade do profissional. Já tivemos também portugueses que vieram ao Brasil e não tiveram sucesso. O fato é que o futebol brasileiro está a ganhar uma dimensão internacional forte”, comentou.

O técnico português com maior experiência no Brasil é Luis Miguel Gouveia. Há 14 anos no País e com mais de 25 times locais no currículo, ele agora dirige o Itapipoca, da segunda divisão cearense. “A mentalidade no Brasil era muito fechada para estrangeiros. De uns anos para cá isso mudou. O sucesso do Jorge Jesus abriu as portas”, afirmou ao Estadão.

Portugal tem tradição de formar técnicos. O país tem um curso para treinadores considerado de excelência pela Uefa, criado em 1975. São necessários quatro anos de estudos para obter o diploma mais elevado. O conteúdo inclui formação tática, aulas de psicologia, metodologia de treino e estágios em grandes clubes.

ANÁLISE - Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção brasileira nas Copas de 1994 e 2006

 "Vira moda ter técnico estrangeiro. Até que seja da Bolívia vale"

O futebol brasileiro vive a necessidade do novo, do diferente. Vira moda ter técnico estrangeiro. Até que seja da Bolívia vale. A gente tem a prova de que brasileiros são bons também. O impacto do Jorge Jesus foi grande pelos títulos que conquistou no Flamengo. E isso deixou um rastro.

Os portugueses têm boa formação, estão na Europa e têm grande contato com outras culturas do futebol. Isso ajuda. Acho interessante o intercâmbio de ideias, mas outras nacionalidades vieram aqui e não tiveram tanto sucesso. Por isso, não chegou a virar tanta tendência como virou com os portugueses.

Quero ver um técnico alemão vindo ao Brasil, jogando até três vezes por semana. Aqui, o treinador é todo dia desafiado. Trabalhar no futebol brasileiro é bem mais difícil do que parece.

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