Clubes brasileiros exageram e salários absurdos inflacionam o mercado

Folha de pagamento algumas vezes é maior que a receita total do time

28 de janeiro de 2012 | 21h17

Wagner Vilaron

SÃO PAULO - Se por um lado a chegada de Ronaldo ao Corinthians na temporada 2009 transformou-se em uma revolução na estratégia de contratação dos clubes brasileiros, por outro inflacionou de tal forma o mercado que, três anos depois, jogadores, treinadores e agentes falam em salários de R$ 300 mil, R$ 400 mil, R$ 500 mil por mês com naturalidade assustadora. Mas, afinal de contas, pode-se adjetivar o atual nível salarial dos profissionais de grandes clubes do futebol nacional como absurdo? E quais valores seriam normais? Como explicar mudança tão rápida de patamar?

De acordo com especialistas do mercado, as respostas estão diretamente relacionadas às receitas dos clubes. Ou seja, chega-se àquele raciocínio teoricamente óbvio, mas que na prática é tão difícil de ser seguido: não se deve gastar mais do que se ganha. Portanto, o que se leva em consideração no momento de definir a diferença entre aceitável e devaneio não é o montante pago a esse ou aquele, mas o porcentual que a folha de pagamento do futebol representa na receita total do clube.

 

Em mercados mais ricos e organizados, como os grandes centros europeus, constata-se que os gastos com o departamento de futebol representam, na média, de 50% a 60% das receitas totais de clubes como Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Arsenal. No Brasil, esses valores frequentemente se aproximam dos 80% e podem chegar a insanos 176%, como o caso da Ponte Preta. Em outras palavras, o gasto do clube campineiro com o futebol é quase o dobro de sua arrecadação.

 

Para explicar este "boom" salarial, dirigentes dos principais clubes brasileiros explicam que o fenômeno está relacionado à nova realidade econômica destas agremiações. "De fato, os contratos dos direitos de transmissão ficaram maiores e os clubes começam a aprender como explorar o marketing", afirmou o presidente do Botafogo, Maurício Assunção. "O problema é que ainda não se criou uma nova referência. O mercado está sem referência, o que dá margem para absurdos."

 

Só para se ter ideia, o contrato relativo aos direitos de transmissão de clubes como Flamengo e Corinthians, que até o ano passado rendiam a estes clubes algo em torno de R$ 30 milhões, saltou para R$ 90 milhões, aumento de 200%. "Mas não é só isso. Aos poucos as pessoas entendem que futebol é entretenimento. Ou seja, receitas como bilheteria tendem a crescer bastante na medida em que os clubes começarem a tratar o futebol como espetáculo", explicou o botafoguense.

 

RAZÃO X EMOÇÃO

 

Mas existe outro aspecto importante que faz com que alguns cartolas percam a noção da realidade e cometam as chamadas loucuras no momento de contratar um reforço: a paixão.

 

"Dirigentes também são torcedores. E talvez muitos não consigam separar as coisas", afirmou Assumpção. "Eu tentei contratar jogador oferecendo salário de R$ 250 mil. Então, o procurador disse que um rival ofereceu R$ 650 mil. Agradeci e pulei fora. O problema é que tem muito dirigente que encara a disputa com o rival por um atleta como uma final de campeonato. Não pode perder de jeito nenhum. É preciso ter convicção para lidar com a pressão da torcida." 

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