Alexandre Vidal / Flamengo
Alexandre Vidal / Flamengo

Série A ainda resiste a psicólogos; transtornos de saúde mental afetam atletas de três clubes

Nove times contam com profissionais da área em suas comissões técnicas. Chapecoense, Palmeiras e Sport foram as únicas equipes que informaram ter diagnosticado atletas com transtornos de saúde mental em 2021

Pedro Ramos, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2021 | 05h00

Maus resultados, críticas da torcida, lesões graves, falta de oportunidades em campo e até salários atrasados podem ser problemas comuns em muitos jogadores dos times brasileiros. Levantamento do Estadão aponta que Chapecoense, Palmeiras e Sport foram os únicos clubes da Série A do Brasileiro que informaram ter diagnosticado atletas com transtornos de saúde mental neste ano. Todos forneceram tratamento aos jogadores envolvidos. 

Os catarinenses tiveram um caso de depressão no elenco, mas não contam com psicólogo. O clube dispõe de um psiquiatra como colaborador, além do médico Fabiano Winckler para acompanhamento na área clínica. O Palmeiras identificou casos de ansiedade em atletas e tem uma profissional de psicologia esportiva em sua comissão técnica. O Sport, que também conta com uma psicóloga, não informou o transtorno de saúde mental.

Além do Palmeiras e do clube pernambucano, Ceará, Fluminense, Fortaleza, Juventude, Santos e São Paulo informaram que contam com especialistas de psicologia, mas não revelaram dados sobre diagnósticos dentro do elenco. O Red Bull Bragantino também possui profissional de psicologia atuando com o elenco, mas disse que não houve registro de transtornos de saúde mental em atletas na temporada.

Assim como a Chapecoense, Atlético-MG, Bahia, Corinthians, Cuiabá, Flamengo, Grêmio e Internacional são os times da primeira divisão que não contam com psicólogos no futebol de cima. O tricolor gaúcho avalia internamente contratar esse especialista no médio prazo, como parte fixa do departamento de futebol. O Inter dispõe de duas assistentes sociais que atendem diariamente atletas e suas famílias. Atlético-MG e Bahia colocam à disposição o psicólogo que atua na base dos clubes, caso um atleta profissional solicite atendimento. Já América-MG, Athletico e Atlético-GO não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

Como atuam os psicólogos do esporte?

A psicóloga Michelle Rios trabalhou durante 11 anos nos rivais Atlético-MG e Cruzeiro e defende uma maior presença de profissionais da área nos clubes brasileiros pela importância do cuidado da saúde mental e melhora da performance dos atletas.

"Atualmente, são poucos os clubes brasileiros com psicólogo do esporte. Nesse momento pós-pandemia, percebe-se um leve e discreto movimento a favor de uma busca pela saúde mental no futebol, o que tem contribuído para diminuir o preconceito com a área. Em ambos os clubes em que trabalhei, tivemos casos de ansiedade, depressão, crises de pânico... Precisamos falar mais sobre isso e desmistificar, tirar dúvidas sobre a saúde mental", opina.

A atuação de psicólogos no futebol brasileiro não é tão recente como se imagina. Na Copa do Mundo de 1958, a seleção brasileira contou com a atuação do psicólogo João Carvalhaes, que atuava no São Paulo. Quatro anos depois, a vaga foi mantida, sendo ocupada por Athaide Ribeiro da Silva. 

O psicólogo do esporte e presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac, critica que a área ainda seja pouco reconhecida no futebol brasileiro, em contraponto ao europeu, e destaca que ela é potencializadora da performance do atleta.

"Os clubes confundem muito a psicologia do esporte com a psicologia clínica. Acham que é desnecessário, que quem precisa que vá procurar (atendimento) em uma clínica. É uma posição antiquada. Não se entende aqui como um suporte cotidiano diário, dentro de uma uma visão multidisciplinar no esporte", explica. 

Muitos profissionais de psicologia esportiva realizam trabalho de observação em treinos e jogos, conversas com funcionários do clube para colher informações, além de elaboração de relatórios individuais e gerais. Trabalham-se aspectos emocionais como melhora de foco e atenção, treinamento mental e aumento de motivação.

"Falar em psicologia do esporte não significa falar em depressão apenas ou desenvolver um trabalho de prevenção e promoção da saúde no futebol. Significa também o desenvolvimento e o fortalecimento de habilidades psicológicas dos atletas, como velocidade de reação, foco, metas", avalia Cozac. 

De Michael, do Flamengo, à ginasta Simone Biles 

O tema da saúde mental nos esportes de alto rendimento voltou a ganhar mais atenção neste ano, quando a ginasta Simone Biles desistiu de competir de seguidas provas nos Jogos Olímpicos de Tóquio, alegando problemas de saúde mental. A atleta havia entrado na competição como grande aposta de medalhas. "É difícil, peço desculpas. Não acho que as pessoas vão entender a magnitude do que enfrentei, mas por muitos anos precisei enfrentar muitas coisas sem ninguém para ajudar. E tenho orgulho de mim", disse a americana.

Nos últimos anos, mais atletas e ex-jogadores do futebol mundial revelaram ter enfrentado transtornos de saúde mental. No Brasil, nomes como Adriano, Kaká, Nilmar, Thiago Ribeiro e Cicinho já contaram ter buscado tratamento para superar a depressão. O ex-atleta e atual comentarista de TV Pedrinho contou em uma live no Instagram no ano passado ter "perdido" três anos de vida por causa da doença, quando atuou no Palmeiras no início dos anos 2000. 

"Eu tinha um dos maiores salários, recebia em dia. Tinha quatro anos de contrato, morava em hotel, em cobertura. Eu era chamado de rei e estava completamente no fundo do poço. A conclusão que a gente chega é que dinheiro, fama e sucesso estão bem longe de ser sinônimos de felicidades. Muito longe", afirmou.

Em julho, o atacante Michael, do Flamengo, revelou ter enfrentado graves problemas de saúde mental no ano anterior e contou com a ajuda da família, dos companheiros de time e da religião para superar a depressão

No futebol europeu, nomes famosos como o goleiro italiano Gianluigi Buffon e o meia espanhol Andrés Iniesta também dividiram suas angústias do passado. O ídolo do Barcelona detalhou o período mais complicado de sua carreira. "Eu desejava chegar em casa à noite, tomar remédios e descansar. Quando sofre de depressão não é você. Quando está tão vulnerável é difícil controlar momentos da vida", disse no programa de TV Salvados de La Sexta em 2018.

PARA ENTENDER

Em 1.º de junho deste ano, a FIFPro (Federação Internacional dos Profissionais de Futebol) lançou a campanha mundial “Está pronto para falar?”, a fim de ajudar sindicatos de atletas a tratar da saúde mental dos jogadores. A iniciativa está ligada a estudo antigo da entidade, de 2015, que concluiu que 38% dos atletas em atividade no mundo na época sofriam de depressão ou ansiedade, 23% de distúrbios do sono e 18% sintomas de estresse. Foram entrevistados 607 jogadores.

Desde então, a Fifpro tem trabalhado no tema. “O estudo mostrou que jogadores profissionais são propensos a relatar os casos e todas as partes interessadas precisam ser mais conscientes sobre os problemas de saúde mental que possam ocorrer no futebol profissional”, diz Vincent Gouttebarge, médico que coordenou a pesquisa de 2015.

O estudo apontou também que as contusões são o maior fator desencadeador de depressão e ansiedade. Relação com companheiros e treinadores, insatisfação com a carreira, pressão por resultados e críticas seguidas também afetam a saúde mental dos atletas. (Almir Leite)

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