Alexandre Vidal / Flamengo
Reinier foi convocado para o Mundial Sub-17. Alexandre Vidal / Flamengo

Clubes cariocas ameaçam ir ao STJD para liberar jogadores convocados

Flamengo, Vasco e Fluminense não querem ceder seus atletas para as seleções principal, sub-23 e sub-17

Ciro Campos, Guilherme Amaro e João Prata, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 04h30

Flamengo, Vasco e Fluminense não gostaram de ver seus jogadores na lista de convocados das seleções brasileiras - principal, sub-23 e sub-17 - e podem recorrer à Justiça esportiva para conseguir a dispensa dos atletas. O trio é uma exceção aos demais clubes, que informaram ao Estado que não pedirão a desconvocação de seus jogadores.

O Flamengo avisou que não vai ceder o meia Reinier para o Mundial Sub-17, que acontecerá no Brasil de 26 de outubro a 17 de novembro. O clube vai pedir a liberação à CBF e caso não consiga amigavelmente promete ir ao STJD. O Vasco também buscará liminar judicial para liberar Talles Magno do Mundial. O Flu vai pedir à CBF a liberação do lateral-esquerdo Caio Henrique e do volante Allan, chamados para amistosos do time sub-23.

"A gente perde o Gabriel, o Rodrigo Caio, e tem a situação do Reinier. A seleção principal é data Fifa, o que nos impossibilita de tomar uma atitude. Mas na (seleção) que a gente entende que existe uma possibilidade de questionamento (a sub-17) o Flamengo fará. O clube não quer liberar o Reinier. Todos foram avisados, inclusive o atleta", afirmou Marcos Braz, vice de futebol do Flamengo.

Apesar de ser reserva, o clube entende que deve pedir a desconvocação, pois já se sentiu prejudicado por ter Gabriel e Rodrigo Caio na lista de Tite - os dois devem desfalcar o Flamengo em dois jogos do Brasileirão: contra o Atlético-MG, em 10 de outubro, em casa, pela 24.ª rodada, e contra o Athletico-PR, no dia 13, pela 25.ª, fora.

O caso do Vasco é ainda mais prejudicial, pois Talles é atualmente um dos principais jogadores do elenco. "Vamos perder um jogador importante por até dez jogos. O clube forma, paga salário, isso, aquilo, e falta à CBF entender a necessidade. Estamos numa posição de buscar manter o time na primeira divisão e eles estão radicais. Não liberaram (o jogador)", reclamou o técnico Vanderlei Luxemburgo.

No Fluminense, Allan e Caio Henrique foram convocados pelo técnico André Jardine, para os amistosos da seleção sub-23, contra Venezuela e Japão, no Recife, nos dias 10 e 14 de outubro. Os dois se apresentam no dia 7 e ficam até o dia 15. Com isso, podem desfalcar o clube em três jogos: Cruzeiro (dia 8), Bahia (12), e possivelmente Athletico-PR (15).

"Como se trata de partidas amistosas e levando em consideração a situação que o Fluminense se encontra, era preciso ser mais bem avaliada (a convocação dos dois atletas). São dois jogadores insubstituíveis para nós. Aliás, eu tinha planos de um substituir o outro se fosse o caso. Perderão dois jogos muito importantes para jogar amistosos", disse o técnico Oswaldo de Oliveira.

Na entrevista coletiva logo após a convocação, o coordenador de seleções da CBF, Branco, informou que os jogadores sub-17 não serão liberados da equipe. "Eles vão se apresentar no dia 7 junto com todo o grupo. Não seria justo com o restante do grupo liberá-los e prejudicaria nosso trabalho. Não tenho dúvida de que todos estarão dia 7. O grupo inteiro."

O Estado procurou o Superior Tribunal de Justiça Desportiva para saber se já havia recebido pedido de dispensa de jogador feito por algum clube, mas não recebeu resposta até a publicação do texto. A assessoria de imprensa da CBF informou que não recebeu solicitação de dispensa de jogadores da sub-23, mas não respondeu se já havia chegado alguma requisição em relação aos atletas que vão ao Mundial Sub-17.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Imagem Robson Morelli
Colunista
Robson Morelli
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Coluna. Seleção versus clubes

A CBF é a grande vilã pelos desfalques dos times brasileiros para a seleção

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 04h00

A convocação de Tite para os amistosos da seleção brasileira contra Senegal e Nigéria provocou uma gritaria maior do que se imaginava no País. Ele tirou sete jogadores de clubes nacionais para as partidas dos dias 10 e 13 de outubro em Cingapura. Portanto, do outro lado do mundo. Fosse a seleção brasileira um poço de respeito e comoção, talvez o torcedor entenderia melhor as escolhas do treinador. Mas não é assim. Não há atualmente qualquer sentimento pelo escrete nacional, assim chamado o time pelos críticos do passado. 

A seleção não desperta nada nas pessoas a não ser desconfiança e indiferença. Nem usar sua camisa podemos mais, porque ela, na versão amarela, foi associada equivocadamente ao presidente da República, a manifestações políticas, a movimentos partidários. Há quem aprove isso. Mas também há quem se sinta bastante incomodado. 

O fato é que ganhar ou perder com a seleção não significa nada para os torcedores e, ouso dizer, para muitos jogadores também, principalmente aqueles seguem depois suas vidas na Europa ou em seus respectivos clubes como se nada tivesse acontecido. 

Os atletas sabem que o que conta são os jogos de competições, conquistas importantes e não amistosos contra rivais que não acrescentam nada ao Brasil. Mas vencer significa muito para a CBF, que ganha dinheiro com seleção – e dada a prisão e o banimento do futebol dos principais dirigentes da entidade, diria que ganha dinheiro sujo. 

Flamengo e Grêmio foram os times mais prejudicados por Tite, com duas baixas em rodadas do Brasileirão. Palmeiras, São Paulo e Athletico-PR também perderam um jogador cada. O treinador chamou os melhores dessas equipes porque precisa apresentar resultados diante de Senegal, contra quem o Brasil nunca jogou, e Nigéria, como explicou em sua entrevista sexta-feira. Joga para manter o emprego. 

Convocar atletas que atuam no Brasil não é, em si, o ponto da discórdia. Afinal de contas, nós queremos ver na seleção os jogadores mais próximos da gente, dos nossos clubes no Brasil. O problema é a CBF não parar os campeonatos no País e acertar o mesmo com a Conmebol em relação a Libertadores e Sul-Americana. O problema é a CBF dizer, e Tite repetir, que esses são os únicos rivais que aceitaram jogar amistosamente contra a seleção. Não cola mais. No dia 9 de outubro, por exemplo, a Argentina vai enfrentar a Alemanha na mesma data Fifa que o técnico alegou não ter encontrado oponentes melhores do que Senegal e Nigéria. O torcedor sabe que a CBF ‘vendeu’ a seleção. Ora, só isso explica levar o time para o outro lado do mundo. Ou, nas partidas passadas, jogar à meia noite contra Colômbia e Peru nos Estados Unidos.

O torcedor desconfia que há esquemas e que esses esquemas prejudicam o seu time. Então, entre servir o Brasil ou jogar pela sua equipe, não há mais dúvidas sobre sua preferência. A seleção brasileira que se dane!

Esse sentimento, inimaginável em outros tempos, tem muito a ver com a postura arrogante da CBF, livre em sua redoma para fazer o que bem entender, e com a fraqueza da comissão técnica de Tite. O próprio técnico perdeu respeito depois de passar a mão demais na cabeça de Neymar, dar explicações nada convincentes sobre o time e se submeter aos desejos e caprichos da CBF. Tite mostra-se igual aos outros que foram demitidos antes dele. Juntou-se à farinha no mesmo saco.

A CBF é a grande vilã dos desfalques dos times brasileiros, mas os clubes também têm boa parcela de responsabilidade nisso tudo. Os dirigentes devem ser cobrados. São eles que se rendem a todos os mandos da Confederação Brasileira de Futebol, seduzidos talvez pelo poder dessa perigosa aproximação. Continuam sendo paus mandados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.