Alex Silva/Estadão
Clássicos em São Paulo continuam a receber apenas a torcida do time mandante Alex Silva/Estadão

Clubes criticam torcida única, mas se conformam com o modelo na fase final do Paulistão

Ministério Público e Polícia Militar vão manter só a torcida mandante nos clássicos que decidem o torneio

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2019 | 04h30

Enquanto os órgãos de segurança de São Paulo celebram a queda dos confrontos entre torcedores nos clássicos desde a adoção da torcida única em 2016, os clubes e a Federação Paulista afirmam que o modelo não é o ideal, mas se conformam com a determinação. Nas semifinais do Campeonato Paulista 2019, serão disputados seis clássicos até a definição do título. Todos terão torcida única.

“Neste momento é o que pode ser feito. É o que querem a Polícia Militar e o Ministério Público. Os índices de paz melhoraram. Não é o ideal, mas é o que se pode fazer”, afirmou o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, ao Estado.

O presidente Andrés Sanchez, do Corinthians, reafirma sua posição contrária à torcida única. Nas semifinais, o time vai enfrentar o Santos em Itaquera neste domingo. No dia 8 de abril, uma segunda-feira, os dois times se reencontram no Pacaembu. “Essa é uma situação que já tem três anos. Não vai mudar. Não tenho mais o que dizer. Eu sou contra, mas não vou conseguir mudar”, reclamou o presidente.

Para José Carlos Peres, presidente do Santos, a presença de apenas uma torcida nos clássicos é um mal para o futebol. “Havia um tempo em nós assistíamos ao jogo todos misturados e não havia problema. Depois, começaram a dividir e sempre temos leões que querem brigar. A divisão aumentou o número de brigões. Se você liberar tudo, não vai ter briga. É o que acontece com o alambrado grande, cheio de policiais, para evitar invasões de campo. Hoje, a proteção é de 1,50m, mas ninguém pula. Isso inibe. Ninguém suja o metrô, por exemplo”, diz o dirigente.

A adoção da torcida única foi uma medida de segurança imposta aos estádios da capital desde abril de 2016. A mudança foi uma resposta aos confrontos entre integrantes das torcidas Mancha Alviverde, do Palmeiras, e Gaviões da Fiel, do Corinthians, em vários pontos da cidade. Os conflitos deixaram dezenas de feridos e um morto.

O promotor Paulo Castilho, do Ministério Público de São Paulo, afirma que a volta de duas torcidas nos clássicos seria um retrocesso. O posicionamento do órgão está apoiado em pesquisas da PM que apontam a queda dos índices de violência nos estádios. “As medidas implementadas no estado de São Paulo vêm promovendo efeitos positivos há anos. Temos redução drástica dos índices de violência”, diz o promotor.

Estudo realizado pela seção de Planejamento e Operações do 2º Batalhão de Choque de Polícia Militar, responsável pelo policiamento nos estádios, mostra uma queda no número de confrontos entre torcidas rivais desde a implantação da torcida única. A redução foi de 43% entre os 44 clássicos realizados antes e os 44 realizados depois da medida. Os conflitos passaram de 21 para 12. Paralelamente, o estudo mostra aumento do público nos clássicos. No mesmo recorte de 44 clássicos, o aumento do público foi de 33.

Além da adoção da torcida única, outros fatores podem ter influenciado nos números, como a modernização das arenas, que atraem torcedores com diferentes perfis, como as mulheres, por exemplo.

A economia dos policiais se deve ao deslocamento de agentes de segurança que fariam o policiamento nos estádios para outros locais da cidade. Castilho afirma que a torcida única continuará a ser utilizada por tempo indeterminado. “A intenção do estado de São Paulo é que tenhamos torcida única no Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro e Libertadores. Os resultados são altamente satisfatórios. Temos consciência de que não é o ideal, todos gostariam de ver o estádio com duas torcidas, mas temos de ver o custo que isso traz para o Estado e para a sociedade”, afirma o promotor público.

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    Confronto entre organizadas deixa um morto antes do clássico

    Senhor sem relação com briga é vítima de bala perdida

    Vítor Marques, O Estado de S.Paulo

    03 de abril de 2016 | 14h26

    Integrantes de torcidas organizadas de Palmeiras e Corinthians protagonizaram pelo menos três brigas na manhã deste domingo, horas antes do clássico, que será disputado às 16h no Pacaembu. Em uma das brigas, um senhor foi morto nas imediações da estação de trem São Miguel Paulista, na Zona Leste, vítima de uma bala perdida.

    Segundo a polícia, o homem que faleceu não pertencia a nenhuma das torcidas. "Os torcedores se encontraram na estação São Miguel Paulista e um senhor acabou morrendo, vítima de uma bala perdida. O que sabemos é que esse senhor não estava no confronto", afirmou o tenente-coronel da Polícia Militar (PM) Luiz Gonzaga. "A bala pode ter partido de uma das organizadas."

    Três torcedores foram detidos e encaminhados ao 63º DP de São Paulo com pedaços de pau. A polícia apura agora a relação da morte do senhor com a briga entre as torcidas.

    O tenente-coronel da PM ainda confirmou outros embates que ocorreram na capital paulista antes do jogo. "Já houve outros (confrontos) na cidade. Sabemos de um em Guarulhos e outro na estação Brás do Metrô, onde ocorreu uma destruição razoável de patrimônio público. Todos aconteceram pela manhã e acreditamos que tenham ocorrido ao acaso, sem ter sido algo premeditado."

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      Os 20 anos da briga que mudou a história das torcidas

      Batalha do Pacaembu terminou com uma morte

      Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

      15 de agosto de 2015 | 17h00

      A auxiliar de enfermagem Ester Gasparin fica angustiada quando o neto vai ao estádio. Ela não fala nada porque não quer estragar as boas experiências desse santista de 11 anos que adora descer a serra para ver os jogos na Vila Belmiro. Ester não assiste aos jogos e não quer mais saber de futebol desde o dia 20 de agosto de 1995.

      Seu filho, Marcio Gasparin, foi assistir São Paulo x Palmeiras pela final da Supercopa São Paulo de Juniores, no Pacaembu. Não houve cobrança de ingressos. Depois que o atacante Rogério deu o título para o Palmeiras, os torcedores aproveitaram que havia poucos policiais e invadiram o gramado. Armados com pedaços de madeira de uma obra do tobogã, protagonizaram um dos momentos mais terríveis do futebol brasileiro. Foi um confronto violento, ao vivo pela tevê, domingo de manhã. Foram 102 feridos, entre eles, Marcio, que faleceu oito dias depois por causa dos golpes que recebeu. “Eu me lembro de tudo”, diz Ester.

      A briga foi um divisor de águas na questão das torcidas organizadas. “Era uma final de campeonato, mesmo de juniores, com transmissão pela tevê, com torcedores dispostos ao conflito, e provocou grande reação na opinião pública”, explica Bernardo Buarque de Holanda, professor e pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas.

      Foi o primeiro caso de briga de torcidas que foi a julgamento no Brasil. Apesar da participação de inúmeros torcedores, a polícia só identificou o palmeirense Adalberto Benedito dos Santos pela morte de Márcio. Adalberto foi condenado a 14 anos de prisão pelo 1º Tribunal do Júri, em São Paulo, por homicídio duplamente qualificado, pena confirmada pelo Tribunal de Justiça em 98. Ele cumpriu quatro anos em regime fechado e hoje está solto, em dia com a Justiça. Foi admitido como garçom, vive em São Paulo e leva uma vida normal. Não quer falar sobre o caso.

      Na área criminal, Adalberto foi o único punido. No campo cível, Ester foi derrotada em uma ação contra os administradores do Pacaembu. Ela pedia a responsabilização da Prefeitura de São Paulo, dona do estádio, em um processo de R$ 300 a R$ 500 mil, em dinheiro de hoje. O Tribunal de Justiça negou, alegando que Márcio estava no gramado e “havia dado causa ao evento”. Ester afirma que os vídeos mostram Márcio sendo empurrado para dentro do campo. “A culpa foi de quem deixou o jogo ser realizado lá, com aqueles entulhos.’’

      Para Ademar Gomes, advogado de Ester na época, a Justiça acertou. “Na área cível, o tribunal entendeu que o Márcio estava na briga. Na área criminal, o Adalberto foi condenado e preso. Foi solto de acordo com a lei.”

      Torcedores concordam com Ester: os organizadores falharam. “A torcida tem culpa, sem dúvida. Mas não é possível que os dirigentes não tivessem avaliado o risco”, afirma Wildner D’ Paula Rocha, da Gaviões. “Se fosse hoje, eles seriam responsabilizados”, completa. “Pela experiência de torcedor, eu vi que tinha pouca polícia e aquele monte de entulho”, diz Hélio Silva, da Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP).

      Fernando Capez, promotor público à época e hoje deputado estadual, explica que a estratégia do Ministério Público após o episódio foi pedir a extinção das organizadas. “Era necessário um tratamento de choque.”

      Para asfixiar financeiramente as torcidas, foram extintas a Mancha Verde e a Independente. A Federação Paulista proibiu todas as uniformizadas nos estádios de São Paulo. Durante dois anos, praticamente sumiram e só se reorganizaram a partir dos desfiles de carnaval.

      Capez reconhece que houve avanços e recuos nesses 20 anos. Ex-integrantes da Mancha Verde formaram a Mancha Alviverde e a Independente, na prática, só mudou sua estrutura. Algumas leis simplesmente não pegaram. Por outro lado, foi criado o Estatuto do Torcedor, o MP está em todas as discussões sobre segurança nos estádios e foram criados os Juizados Especiais Criminais, que conseguem resolver as infrações menores na hora. Para Bernardo Buarque de Holanda, a repressão tem de ser acompanhada de prevenção e reeducação, com a participação do governo e dos clubes.

      A Alemanha, paradigma para tudo depois dos 7 a 1, reorganizou os estádios, mas manteve a festa das torcidas. “Aqui, os estádios são pouco atraentes – as bandeiras são proibidas – e as pessoas têm pouco engajamento com o espetáculo”, opina Bernardo.

      Ester não quer mais saber de nada disso. Cuida das duas filhas, Alessandra e Shayenne, e do neto Eric. Acha que a violência sempre vai existir nos estádios. Para ela, o futebol acabou em agosto de 1995.  

       

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