Luciano Leon
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CLUBES DECRETAM FIM DOS ALTOS SALÁRIOS PARA TREINADORES

Dirigentes começam a mudar política e abaixam os valores pagos aos técnicos

ALMIR LEITE, O Estado de S.Paulo

25 Março 2015 | 07h00

O Fluminense mandou Cristóvão Borges embora e aproveitou para economizar. Mesmo diante das críticas da torcida, optou por contratar um treinador que aceitasse um salário menor que o antecessor, Ricardo Drubscky. Seguiu o caminho de dois outros clubes cariocas, Vasco e Botafogo, que também preferiram treinadores baratos e figurões que exigem altos salários. Santos e Internacional fizeram a mesma coisa.

Com clubes endividados e com uma medida provisória de refinanciamento dos débitos que exigirá boas práticas de gestão batendo às portas, os dirigentes começam a colocar os pés no chão. Perceberam ser preciso gastar menos. E um dos primeiros passos dessa nova realidade está sendo a redução dos salários dos treinadores. Os dias em que os técnicos recebiam salários de R$ 500 mil, R$ 600 mil e até mais parecem contados.

Aos 55 anos e sem experiência em times do eixo Rio-São Paulo, Drubscky assumiu o Fluminense após ter assinado contrato que lhe garante salário de R$ 180 mil mensais. É um valor R$ 70 mil menor do que ganhava Cristóvão Borges. E não adianta nem a torcida chiar, como fez nesta terça-fera, no primeiro treino que o treinador comandou nas Laranjeiras. O presidente do Tricolor carioca, Peter Siemsen, já avisou que não vai contratar mais "treinadores caros". "O Ricardo foi uma escolha da nossa área técnica, mas, por outro lado, é preciso levar em consideração que o Fluminense vai aderir em breve ao parcelamento da dívida com o governo. Temos de nos adequar para o futuro'', disse.

Recentemente, o Fluminense perdeu um patrocinador que por mais de uma década despejou dinheiro a rodo no futebol do clube. Ou seja, de uma hora para outra, o time "empobreceu''. E precisa saber conviver com a nova realidade. "Precisamos ser comedidos nos gastos para podermos fazer essa transição de forma segura. Em um primeiro momento, teremos de limitar o investimento para sairmos forte dessa transição. Entendemos que era importante escolher um técnico com o perfil que se encaixasse dentro desse nosso desejo.''

Siemsen até tentou contratar outro treinador. Mas Ney Franco, que era o preferido, pediu R$ 260 mil por mês e Argel Fucks teria exigido R$ 200 mil. O Flu ficou com a opção mais em conta.

GRATIFICAÇÃO

Também em situação financeira delicada - o pagamento dos direitos de imagem dos atletas, por exemplo, estão atrasados -, o Santos radicalizou. Mesmo com o time invicto no Campeonato Paulista, dispensou os trabalhos de Enderson Moreira, que ganhava R$ 180 mil mensais e havia reclamado dos atrasos de pagamento, e simplesmente efetivou Márcio Fernandes, funcionário do clube com vencimentos de R$ 10 mil em carteira.

Fez mais: em vez de aumentar o salário do novo treinador, optou por pagar gratificações mensais (valor não revelado). O mesmo recurso está sendo utilizado para remunerar os dois auxiliares de Fernandes, Serginho Chulapa e Edinho, igualmente assalariados do clube.

Na prática, Fernandes e seus parceiros vão ter mais dinheiro entrar na conta enquanto estiverem em seus cargos de comando do time principal. Se caírem, voltam a receber o descrito em carteira - no caso de Fernandes R$ 10 mil por mês. "Se o Santos contratar um novo treinador no futuro, os três vão voltar a fazer parte da comissão técnica do clube e perdem o direito de receber a gratificação", explicou o presidente Modesto Roma Júnior.

O dirigente até tentou contratar um treinador de nome. Mas Dorival Junior manteve-se irredutível na pedida de R$ 300 mil mensais e simplesmente foi preterido.

Outros dois clubes cariocas também decidiram economizar na contratação de treinadores para esta temporada. Rebaixado à Série B do Brasileiro e quase na bancarrota, o Botafogo não renovou com Vagner Mancini, que tinha direito por contrato a R$ 150 mil mensais e reabilitou René Simões, que até então vinha trabalhando como comentarista de uma emissora de TV a cabo. Salário: R$ 60 mil. É parte da política saneadora da nova diretoria do Alvinegro.

René não reclama. Ao contrário, encara a situação sem rodeios. "Eu não estou ganhando mal, estou ganhando muito bem. O futebol brasileiro é que estava fora da realidade'', disse ao ser apresentado.

Figura carimbada no futebol, Eurico Miranda voltou a reinar no Vasco depois de alguns anos de afastamento e uma de suas primeiras decisões ao assumir, em dezembro passado, foi limitar o salário do treinador da equipe a R$ 100 mil. "O clube passa por uma situação difícil e não tem sentido pagar salários absurdos.''

Decisão tomada, mandou um emissário à casa de Joel Santana - assumira o time em setembro passado em troca de um 'soldo' de R$ 200 mil -, comunicar-lhe que estava demitido. Joel esperneou, disse que se sentia injustiçado pela "paga'' que estava recebendo por trazer a equipe de volta à Série A, mas não adiantou. Está vendo o Vasco pela televisão.

Até mesmo o Internacional está conseguindo economizar um dinheirinho com o treinador. Paga entre R$ 300 mil e R$ 500 mil ao uruguaio Diego Aguirre, que ainda não superou a desconfiança da torcida e tem o trabalho questionado também pelo ganha - há quem veja desvantagem para o clube na relação custo-benefício representada por Aguirre. Mas o clube está gastando menos que no ano passado. O treinador anterior, Abel Braga, embolsava R$ 550 mil a cada 30 dias de trabalho.

O uruguaio chegou ao Inter no fim de dezembro e desde então vive na corda bamba. O presidente do clube, Vitório Píffero, garante que ele fica pelo menos até o fim do ano. Mas, se mudar de ideia, de uma coisa já avisou que não abrirá mão: pagar salário considerado realista ao treinador que vier. Salários milionários, entende, são parte do passado.


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Para consultor, jogadores também serão atingidos

MP da dívida e mau momento da economia vão afetar os atletas

ALMIR LEITE, O Estado de S.Paulo

25 Março 2015 | 07h00

A edição da medida provisória que possibilita o refinanciamento da dívida fiscal dos clubes de futebol, mas exige como contrapartida gestão financeira responsável, e também a iniciativa da CBF de estabelecer por meio do Regulamento Geral de Competições medidas punitivas aos maus pagadores ­- o que também força a manutenção dos compromissos financeiros em dia -, certamente estão contribuindo para que os dirigentes passem a gastar com mais parcimônia, trocando a loucura pela responsabilidade e reduzindo a folha de pagamento. Mas o momento ruim da economia do País como um todo e do futebol em particular também estão ajudando a estabelecer um novo momento, em que o pagamento de salários milionários será cada vez mais raro.

A nova realidade já atinge os técnicos, mas está chegando também aos jogadores. Em geral, os salários nos grandes clubes ainda estão altos, mas a tendência é de redução. "É um reflexo do excesso de gastos no passado e do desaquecimento da receita dos clubes'', analisa o consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi.

Ele observa uma mudança de comportamento nos dirigentes, mesmo naqueles que estão há mais tempo à frente dos clubes. "Os clubes gastaram o que tinham e o que não tinham até 2011. Desde então, está havendo uma maior consciência da parte dos clubes de alguma coisa precisa ser feita'', diz Somoggi. A redução da folha salarial se encaixa neste contexto.

Para Amir, independentemente de leis e regulamentos, não há alternativas para os clubes que não a de cuidarem melhor de suas finanças. "Agora, a chave está em readequar as finanças. As despesas não podem crescer, até porque as despesas não crescem.''

Ele afirma que no Brasil ocorre situação bem diferente da que se tem atualmente na Europa. "Lá, ao contrário do que muita gente pensa, as despesas dos clubes não caíram. Em vários casos até cresceram. Mas as receitas também aumentaram. Aqui, de maneira geral, isso não aconteceu.''

O consultor também vê na medida provisória do futebol um excelente método para que os clubes sejam administrados de maneira responsável. "A MP vai obrigar a isso, porque se o clube não tiver os valores necessários para arcar com seus compromissos, terá de diminuir os gastos.''

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