Clubes desistem da Copa São Paulo para fugir dos empresários

Times preferem ter rendimento ruim na competição e escondem jovens revelações para evitar assédio

Valéria Zukeran, O Estado de S. Paulo

12 de janeiro de 2008 | 10h21

Por muitos anos, a Copa São Paulo de Futebol Júnior foi esperada com ansiedade por jovens atletas de todo o Brasil. Neste ano, apesar do grande número de equipes participando do evento, alguns clubes não escondem que, deliberadamente, evitaram a competição por dois motivos: o assédio dos empresários sobre os atletas e a queda do nível técnico com a presença de equipes formadas por representantes de atletas interessados em negociar jogadores.   "Acho que a competição fugiu de seu propósito inicial", alega o presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas, ao explicar porque a equipe júnior do clube não disputa a Copa São Paulo. Segundo ele, antes o objetivo da competição era dar experiência aos atletas das categorias de base e, ao mesmo tempo, permitir aos clubes conhecer adversários que, futuramente, integrariam os melhores times do futebol brasileiro. "Hoje o ponto de vista é muito mais comercial. Se seu objetivo é formar um atleta para a equipe em vez de negociá-lo, não há motivo para disputar a Copa São Paulo."   O presidente botafoguense reclama que o nível técnico do evento também não é mais o mesmo. "Há um inchaço na competição. Várias equipes são montadas especialmente para a disputa, não há equilíbrio", observa. As inúmeras goleadas na Copa São Paulo reforçam seus argumentos. Assim, de acordo com o dirigente, tornou-se vantajoso, pelo menos no caso do Botafogo, não disputar a Copa São Paulo e concentrar força em outras competições, como campeonatos estaduais e nacionais oficiais. "Vamos participar de todos esses eventos."   O gerente de Futebol do Sport, Carlos José, admite que o clube também abriu mão de disputar o torneio para não correr o risco de perder atletas. "Um dos motivos mais fortes é o fato de que, se você participa da competição sem ter um forte vínculo contratual com o jogador - documento assinado, salário em dia -, pode ficar sem ele."   Outro fator que pesou na decisão, segundo o dirigente, foi uma grande reformulação no Sport. "Oito de nossos atletas da categoria de base subiram no início do ano para o time principal que vai disputar o Campeonato Pernambucano. Não faria sentido participar da Copa São Paulo apenas por participar. Somos um clube de tradição e temos um nome a zelar. Se é para competir, vamos para ganhar", diz José. Ele garante que, mais estruturado, o clube disputará a Copa São Paulo em 2009.   24 horas   No Náutico, as categorias de base são administradas por um grupo de quatro pessoas. Uma delas, José Ferreira, admite que o assédio dos empresários foi fundamental para que o clube decidisse não participar da Copa São Paulo. "Aqui em Recife, você já tem de ficar alerta 24 horas. Quem investe na base tem de policiar os atletas e não atrasar os salários", afirma. "Agora, virou moda na Europa garimpar jogador aqui no Nordeste. Soube até de gente do Barcelona que veio aqui para isso."   Outro problema da Copa São Paulo, na opinião do dirigente, é a faixa etária dos atletas - ampla demais. "Isso sem contar que a idade que consta na súmula nem sempre corresponde à idade biológica do jogador."   Ferreira afirma que o Náutico está se preparando para um torneio em Dubai, na Arábia Saudita. "Preferimos competições nas quais os jogadores disputam com atletas da idade deles, como o Campeonato Sub-20 da CBF, a Copa BH ou a Copa Nike", completa.

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