Clubes do País procuram um matador

Procura-se goleador, matador, artilheiro, um jogador que saiba empurrar a bola para o gol, mesmo que não seja brilhante tecnicamente. Preocupados com a falta de um atacante que tenha faro de gol, os grandes clubes do País correm, às vésperas do início do Campeonato Brasileiro, atrás de centroavante, figura que se tornou rara nos últimos anos no Brasil.Que o diga o torcedor do Palmeiras, que continua lamentando a falta de um típico atacante no elenco, uma das razões pela derrota para o Paysandu no domingo. O time teve oportunidade de vencer o jogo, mas, mais uma vez, faltou "um detalhe": gols. "Tivemos uma grande oportunidade de fazer 2 a 1 com o Muñoz, mas não aproveitamos", afirmou o técnico Vanderlei Luxemburgo.Por isso, o treinador pediu à diretoria do Palmeiras que lhe desse Romário, que dificilmente jogaria fora uma chance igual à do colombiano Muñoz. O presidente Mustafá Contursi, porém, não está disposto a pôr a mão no bolso. O Corinthians pode contratar dois goleadores, Guilherme, do Atlético-MG, e Wellington Dias, do Brasiliense. E conta, também, com o jovem Gilmar, além de Deivid. O técnico Carlos Alberto Parreira foi obrigado a mudar o esquema depois que perdeu o matador Luizão, no início do ano. O atacante era o ponto de referência da equipe. Sem Luizão, Parreira teve de pôr três atacantes, Gil, Deivid e Leandro, mas nenhum deles se sobressaiu tanto - apesar de Deivid ter sido o artilheiro da Copa do Brasil. O São Paulo quer Leandro, apesar de ter Luís Fabiano e Reinaldo. O Santos aposta no novato William e a Portuguesa, em Ricardo Oliveira e no recém-contratado Alex Alves, ex-Juventus. O Inter-RS tem Fernando Baiano, dispensado do Corinthians, e o Cruzeiro, Fábio Júnior e Lucas, que apareceu no Atlético-PR. O Flamengo, mergulhado em dívidas, espera que Andrezinho, recém-promovido das categorias de base, seja a solução para seu modesto ataque. O Fluminense tem os veteranos Roni e Magno Alves. Quase nenhuma equipe, contudo, tem aquela figura típica de centroavante como foram Dadá Maravilha e Serginho Chulapa. Na semifinal da Copa Libertadores da América deste ano, contra o Olimpia, do Paraguai, o Grêmio pagou caro por não ter um matador. Dominou o adversário, não saía de dentro da área, mas ninguém conseguia empurrar a bola para a rede do rival. Resultado: acabou eliminado nos pênaltis. Na opinião de especialistas, o fenômeno que resultou no fim dos centroavantes vem ocorrendo há anos por causa de uma série de motivos, principalmente por causa da nova tendência tática do futebol brasileiro. "Com o 4-4-2, sumiu o centroavante, os treinadores preferem jogadores mais rápidos aos que jogam mais fixos dentro da área", comentou o ex-jogador Casagrande. Casagrande lembrou que o Palmeiras, no fim da década passada, chegou a disputar algumas partidas com Euller e Paulo Nunes no ataque, mas sem nenhum jogador de área. Há poucos goleadores à disposição no mercado. Dodô, que não quer mais ficar no Botafogo-RJ, Leandro, que surgiu na Portuguesa, Marcelo Ramos, ?encostado? no Cruzeiro, e Oséas são alguns dos poucos que sobraram no País.Os clubes, em crise financeira, têm, no entanto, dificuldade para pagar o salário que pedem e, por isso, muitos atletas ainda estão desempregados. "O centroavante acabou, porque os treinadores de hoje só treinam marcação e os jogadores tornam-se muito previsíveis, falta um trabalho melhor nas categorias de base", opinou o ex-atacante Reinaldo, um dos principais jogadores da história do Atlético-MG. O São Caetano, um dos poucos que têm um centroavante típico - Somália -, vem se dando bem. Segundo seu técnico, Jair Picerni, ele serve como uma referência para os meias e para os laterais e sempre incomoda a zaga rival. Prova de que o centroavante ainda pode ser muito útil ao futebol brasileiro. Ronaldo, artilheiro da Copa do Mundo com 8 gols, que o diga. Casagrande acredita que, após o Mundial da Ásia, a figura do goleador vai voltar a fazer parte do futebol brasileiro. "A Copa do Mundo dita a moda e o Ronaldo foi bem jogando mais à frente, como um atacante, e, por isso, mais equipes vão usar esse tipo de jogador", explicou. "Em 94, o Brasil foi campeão com dois volantes, o Dunga e o Mauro Silva, e, a partir daquele ano, a maioria dos times passou a jogar com dois volantes." A maioria dos atacantes que o Brasil produziu no último ano está na Europa. Os goleadores têm grande visibilidade e são facilmente negociados. Sonny Anderson, Elber, Washington, Jardel e Ronaldo estão marcando gols no Velho Continente. E, enquanto esse quadro não muda, os gols no Brasil são feitos por meias, pontas, zagueiros... E há anos, com exceção de Romário, ninguém se destaca como um grande artilheiro.

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