Manu Fernández / Reuters
Manu Fernández / Reuters

Clubes europeus vão a Paris em busca de talentos que o PSG não enxerga nem consegue admitir

Ambições do clube esbarram em obstáculo familiar: escalações de adversários repletas de estrelas que o time francês deixou escapar

Rory Smith, The New York Times

08 de abril de 2021 | 20h00

O Paris Saint-Germain não poderia, no final das contas, ter acelerado o crescimento de Tanguy Nianzou muito além do que fez. Ele era capitão da equipe sub-19 do clube quando tinha apenas 16 anos. Foi convocado para o time principal aos 17, treinando ao lado de Neymar e Kylian Mbappé e os demais, e logo fez sua estreia. Chegando até mesmo a jogar no início de uma partida da Liga dos Campeões.

E ainda assim, apesar de todas essas oportunidades, ele deixou o clube. Nianzou tinha acabado de completar 18 anos quando, em 1º de julho do ano passado, foi apresentado como jogador do Bayern de Munique. O PSG nem mesmo teve o consolo de poder embolsar uma taxa milionária por um jogador que tinha treinado desde cedo. O contrato de Nianzou estava expirando. Ele saiu do clube de sua cidade de graça.

Sua partida doeu. E doeu tanto que Leonardo, diretor esportivo do PSG, chegou a citar isso como uma espécie de parábola ainda em fevereiro, muito antes de os times serem sorteados para as quartas de final da Liga dos Campeões.

“Ele jogou conosco na Liga dos Campeões e passou quase um ano no Bayern sem jogar”, disse Leonardo, desanimado pelo fato de que as lesões - e não a falta de qualidade - limitaram Nianzou a 21 minutos oficiais no Bayern. “O problema é pensar que existe um paraíso em outro lugar. Dizem que o PSG perdeu um jovem, mas às vezes acho que não é o PSG que perde, mas os jovens que vão embora.”

A sensibilidade de Leonardo - e de seu clube - à saída de Nianzou é apenas parcialmente explicada pelo talento do jovem. Também é porque Nianzou não é o único prodígio que o PSG deixou escapar. Ele nem mesmo é o único no Bayern.

Kingsley Coman se tornou o jogador mais jovem a jogar pelo PSG quando estreou pelo clube em fevereiro de 2013. Ele era a joia do sistema juvenil da equipe, o porta-estandarte de seu futuro. Um ano depois, deixou o clube em uma transferência gratuita. Em agosto passado, ele marcou o gol que deu o título da Liga dos Campeões ao Bayern, contra o PSG.

Existem muitos outros como eles. Restam 11 jogadores na Liga dos Campeões deste ano que cresceram em Paris ou passaram algum tempo na academia de juniores do PSG. Apenas três jogam pelo atual campeão francês: Colin Dagba, Presnel Kimpembe e Mbappé, embora, é claro, este último tenha voltado à sua cidade natal por um grande valor.

Alguns dos demais - N’Golo Kanté, do Chelsea, Riyad Mahrez, do Manchester City, além de Benjamin Mendy, e Raphaël Guerreiro, do Borussia Dortmund, - cresceram nos subúrbios espalhados ao redor de Paris, mas nunca chamaram a atenção do clube. Alguns, como Coman e Nianzou, Dan-Axel Zagadou do Dortmund e Ferland Mendy do Real Madrid passaram um tempo na academia do PSG antes de partirem para fazer seus nomes em outro lugar.

Isso já seria bastante desagradável, mas, na realidade, é apenas a ponta do iceberg. Outros onze jogadores nascidos no quintal do PSG foram eliminados da Liga dos Campeões nas oitavas de final, incluindo Christopher Nkunku, Ibrahima Konaté e Nordi Mukiele, do RB Leipzig, e Jules Koundé, do Sevilla.

Dezenas de outros podem ser encontrados no Campeonato Francês e em toda a Europa, de Paul Pogba em diante. O PSG está sentado naquela que é comumente considerada a mais rica mina de ouro em talentos do futebol mundial e, ainda assim, está permitindo que os garimpeiros retirem seu tesouro em caminhões. Na maioria das vezes, o clube não recebe nada em troca, exceto o sabor amargo e persistente do arrependimento.

É compreensível que Leonardo, por exemplo, tenha tentado culpar os especuladores. Os olheiros de clubes franceses rivais há muito percorrem os subúrbios de Paris em busca da próxima grande estrela. Nos últimos anos, eles se juntaram a representantes de times alemães e, antes do Brexit, clubes da Premier League na esperança de eliminar o intermediário.

“Os clubes alemães, principalmente Bayern, Leipzig e Dortmund, atacam os jovens e ameaçam o crescimento francês”, disse Leonardo ao Le Parisien este ano. “Eles ligam para os pais, amigos, familiares, o próprio jogador, mesmo no caso de jogadores com menos de 16 anos. Eles viram a cabeça deles. Talvez as regras devam ser alteradas para proteger as equipes francesas".

O problema, porém, não é algo que possa ter fim pela lei. Dado o número de jogadores que saem de Paris, é inevitável que o PSG tenha que perder alguns deles, como aconteceu com Kanté e Mahrez. O que deveria preocupar mais Leonardo é que - como disse Michael Zorc, diretor técnico do Dortmund - tantos jogadores jovens “veem melhor permeabilidade e maior potencial de crescimento” longe do PSG.

Há uma década, quando a Qatar Sports Investments investiu pela primeira vez no principal clube da capital francesa, ela prometeu não apenas obter sucesso; Nasser al-Khelaifi, o presidente do clube, falou em querer encontrar o próximo Lionel Messi, em vez de comprar o original. Os proprietários colocaram seu dinheiro onde estavam, investindo dezenas de milhões de dólares no sistema juvenil do clube.

Mas, como o PSG descobriu em sua busca pelo troféu da  Liga dos Campeões, a fórmula para o sucesso raramente é tão simples. A academia do clube é regularmente avaliada como uma das melhores da França. Em muitos aspectos, a quantidade de jogadores que produziu para outras equipes é prova de seu olhar para talentos e da qualidade de seu treinador. Tudo isso é irrelevante, porém, se o salto da academia para jogar ao lado de Neymar e Mbappé é grande demais. É aqui que o PSG tem falhado.

O que as histórias de Coman e Nianzou e de tantos outros têm em comum é que eles chegaram ao PSG, percorreram todo o caminho até a academia, apenas para encontrar sua trajetória bloqueada na última etapa: por um treinador cujo trabalho era se concentrar no hoje; por um superstar caro contratado para ganhar troféus; por um clube que se move rápido demais para esperar que os jovens aprendam seu ofício.

Por um lado, a perda de todo esse talento trouxe ao PSG apenas um tiro de raspão. Ainda assim, o clube estabeleceu, com apenas uma exceção até agora, um monopólio efetivo do título do Campeonato Francês. E chegou à final da Liga dos Campeões. Além de contar com alguns dos melhores jogadores do mundo. Ferland Mendy, Guerreiro ou Koundé teriam feito muita diferença? Possivelmente não.

Mas, por outro lado, em nível mais fundamental, o impacto tem sido considerável. O Catar investiu tempo e recursos consideráveis não apenas no PSG, mas no futebol francês como um todo, financiando a transformação do clube por meio da Qatar Sports Investments ao mesmo tempo que estava efetivamente assegurando financeiramente a liga por meio de acordos de transmissão com a emissora catariana beIN Sports.

O país sempre teve na cabeça uma ideia clara do que queria que o PSG fosse - vencedor da Liga dos Campeões, principalmente -, mas, dez anos depois da sua chegada, ainda não é óbvio que o clube saiba como chegar lá. Treinadores, de naturezas variadas, vêm e vão: o estrela, o estrategista astuto, o fanático que pressiona, o ex-capitão.

O time tem características de uma colcha de retalhos que sugerem pensamento confuso. Ele é armado em torno de Neymar ou Mbappé? Onde Moise Kean e Mauro Icardi se encaixam? Algum desses jogadores pode fazer o que o técnico atual, Mauricio Pochettino, provavelmente quer que eles façam? Eles realmente entraram em acordo com Thomas Tuchel na temporada passada? O PSG é agora, como há uma década, uma equipe em busca de uma identidade.

Mesmo assim, o talento continua aparecendo. O clube tem grandes esperanças, em particular com um zagueiro-central de 15 anos chamado El Chadaille Bitshiabu. A lei francesa o proíbe de assinar um contrato profissional até completar 16 anos, no dia 16 de maio, mas todos os treinadores que trabalharam com ele estão convencidos de que isso irá acontecer. Resta a eles a esperança de que seja com o PSG. TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.