Phil Noble/Reuters
Phil Noble/Reuters

Clubes ingleses têm 4,1 bilhões de euros em paraísos fiscais

Times criam empresas em centros de offshore para burlar o Fisco

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 17h16

No Reino Unido, as investigações apontam para uma nova tendência: a abertura de contas e empresas em paraísos fiscais em nome de clubes. Um levantamento realizado pela entidade britânica Tax Justice Net concluiu que os times ingleses tem 4,1 bilhões de euros depositados em centros off-shore, longe do fisco de Londres. Eles incluem contas em Jersey, Bahamas e Ilhas Cayman.

Um total de 38 clubes ingleses foram detectados usando essa rede de empresas, um a cada quatro times nas diferentes ligas do país. O Manchester United tem mais da metade de seu patrimônio hoje em paraísos fiscais, em nome da empresa Red Football Limited, que por sua vez é controlada pela companhia Manchester United PLC com sede nas Ilhas Cayman. Outra parte do clube está registrado em Luxemburgo.

“Ser proprietário de milhões de libras através de empresas com sedes em paraísos fiscais significa que existe enorme potencial de evasão fiscal”, alertou George Turner, autor do estudo The Offshore Game.

No Arsenal, 66,8% de seus ativos estão com a empresa KSE UK, registrada em Delaware, outro paraíso fiscal. Nas Ilhas Cayman estão os registros das empresas dos clubes como Birmingham, Coventry e Cheltenham. No caso do Bournemouth, das categorias inferiores na Inglaterra, a empresa que detém os ativos do clube mantém em anonimato seu registro.

Para a entidade Transparência Internacional, o risco não é apenas de evasão fiscal, mas a de atrair criminosos tentando lavar dinheiro, por meio do futebol. No Reino Unido, regulações contra a lavagem de dinheiro não se aplicam aos clubes. “Isso facilita aos criminosos que usem o sistema do futebol e acabem se tornando proprietários de times”, escreveu a entidade, com sede em Berlim.

O grupo alerta para dois exemplos. Um deles é o do empresário Vladimir Antonov, que foi autorizado a comprar o Portsmouth FC quando não era permitido nem mesmo que ele operasse no sistema financeiro britânico. Outro caso é do ex-primeiro-ministro tailandês, Thaksin Shinawatra, autorizado em 2007 a comprar o Manchester City, apesar de sofrer alegações de corrupção.

A falta de transparência ainda gerou prejuízos aos próprios jogadores. No Reino Unido, propostas de fundos de investimentos coletaram, por anos, aportes de jogadores e ex-atletas que queriam aplicar seus recursos. Num dos casos, os fundos indicavam que os valores eram usados para financiar filmes, como Avatar, The Girl with a Pearl Earring e Hotel Rwanda.

Mas o fisco inglês julgou que o esquema era ilegal e passou a obrigar mais de cem atletas que resolvessem seus problemas com a receita do país. Entre eles, Beckham e Gary Lineker.

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