Érico Leonan/São Paulo
Érico Leonan/São Paulo

Clubes se preocupam com atletas nas redes sociais: o que fazer para evitar polêmicas?

Uso da internet tem chamado atenção, principalmente após o caso Neymar-Najila; advogado e coaches contam como trabalham com os esportistas

Guilherme Amaro, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2019 | 15h07

O uso das redes sociais por atletas de diversas modalidades tem preocupado os clubes. No futebol, por exemplo, o São Paulo promoveu neste mês palestra sobre o comportamento de seus atletas na internet. Na Ponte Preta, o atacante Dadá foi multado e suspenso recentemente por uma semana por ter xingado um torcedor em uma "live" (transmissão ao vivo) em seu Instagram durante almoço entre elenco e comissão técnica do clube.

A maioria dos clubes prepara uma cartilha para seus jogadores sobre a conduta nas redes sociais. Empresas nacionais e internacionais já adotam esse expediente com seus funcionários. Além disso, o departamento de comunicação é responsável por verificar se algum novo jogador tem perfil oficial, analisar postagens antigas e avisar tudo isso para a imprensa. Atletas mais consagrados ainda contam com o chamado "estafe", responsável por orientá-los e administrar suas redes. A desculpa de que foi um primo que fez a apostagem não cola mais.

Para o advogado especialista em direito eletrônico Renato Opice Blum, que ministrou a palestra aos jogadores do São Paulo, o caso Neymar/Najila chamou a atenção dos atletas sobre como agir nas redes. O atacante da seleção brasileira e do PSG é investigado sobre crime virtual por ter divulgado conversas contendo imagens íntimas da modelo, que o acusou de estupro. Esse caso repercutiu no mundo inteiro. O próprio Neymar disse que passava pelo pior momento de sua carreira.

Blum contou como foi a reação dos jogadores são-paulinos durante a palestra no último dia 5, no CT da Barra Funda. "Fiquei muito contente, porque os jogadores participaram demais. Havia muitas dúvidas. Foi até difícil voltar para o treino depois, estava muito gostoso o papo com eles. Expliquei que jogadores, técnicos e dirigentes são formadores de opinião, então precisam ter cuidado com o que escrevem e postam. Me pediram para fazer uma outra conversa detalhando a segurança da informação, saindo do conteúdo para os ataques de possíveis hackers", afirmou ao Estado o advogado, que também já ministrou palestra para profissionais das escolinhas da NBA e no Clube Monte Líbano, além já de ter outra marcada no Clube Pinheiros, em São Paulo.

A palestra no CT do São Paulo contou com a participação da psicóloga do clube, Anahy Couto. Na visão de Blum, "um time ideal para cuidar das redes sociais precisa ter um profissional de comunicação, um especializado em mídias sociais, um psicólogo e até um representante do jurídico". Ele reconhece, porém, que não são todos os atletas que conseguem bancar estafe deste tamanho. 

René Simões, ex-técnico que trabalhou durante três anos como coach de treinadores em atividade, contou os conselhos que dava a seus clientes. Ele fez parcerias com Fábio Carille, do Corinthians, Zé Ricardo, do Fortaleza, entre outros. Os próprios técnicos se preocupam com o que os jogadores postam nas redes sociais. 

"Falava para não tentarem achar ou fazer com que os jogadores abrissem mão do celular. É preciso orientá-los de que são pessoas públicas e devem satisfação a quem os paga, que são os clubes, e na ponta disso estão os torcedores. Os técnicos são de gerações mais antigas, então não há excessos. É preciso ter cuidado com quem você se relaciona nas redes sociais, porque isso traça o seu perfil e as empresas e clubes olham para isso o tempo todo", avaliou René.

Outra coach esportiva ouvida pelo Estado, Amanda Ciaramicoli alertou para os malefícios que as redes sociais podem trazer aos atletas, principalmente no futebol, onde as torcidas são mais atuantes e vivem no humor dos resultados do time. Ela acumula trabalhos com o ex-atacante e atual coordenador do Corinthians, Emerson Sheik, o goleiro Sidão, o atacante Lucca, a meia Bebel e o campeão mundial de jiu-jítsu Alexandre Ribeiro.

"A rede social é benéfica e prejudicial para o atleta na mesma proporção. Os atletas normalmente passam muito tempo nas redes sociais, e há comentários do público e da imprensa que nem sempre são positivos. Os comentários das redes sociais prejudicam o desempenho dos atletas nos dias da competição, porque eles acabam gerando ansiedade e estresse que atrapalham não só a parte mental, como também a parte física. Conversamos em como utilizar a internet apenas para coisas produtivas, filtrando o que se lê, e como preencher esse tempo que ficaria nas redes com algo benéfico. É um desafio", disse Amanda.

PESQUISA

Pesquisa divulgada neste mês pela GlobalWebIndex mostra que o Brasil é o segundo país onde as pessoas passam mais tempo nas redes sociais, com  média de 225 minutos por dia (quase 4 horas), atrás apenas das Filipinas, com média de 241 minutos. Os números alertam os esportistas, que costumam atrair milhares (às vezes até milhões) de seguidores em seus perfis oficiais.

DICAS DO ADVOGADO RENATO BLUM

O QUE POSTAR

Ações sociais

É algo positivo, porque você atrai esse comportamento em seus seguidores. A sugestão é de que sejam postados conteúdos que provoquem ações positivas nas pessoas.

Posts neutros

São as fotos de atletas jogando ou treinando, muitas vezes postadas pelo estafe. Serve para movimentar a rede social.

Humor

O mundo está tão tenso hoje em dia que posts de humor acabam sendo positivos, geram descontração. O Hernanes (meia do São Paulo) vem postando alguns pensamentos que os seguidores acham engraçados e não geram consequências nocivas. É algo interessante.

O QUE NÃO POSTAR

Produtos luxuosos

A maioria dos seguidores não vai ter essa riqueza e acaba gerando um sentimento ruim.

Política

É difícil um atleta se posicionar neste assunto, ainda mais nesta época mais polarizada. Muita gente não vai concordar com sua posição e vai deixar de gostar de você por isso. Consequentemente, pode haver perda de seguidores. Na religião, há diversos pensamentos, mas todos convergem para o mesmo ponto que é ajudar o próximo, então não tem tanto problema assim. Na política é mais complexo.

Respostas de cabeça quente

Se não houver preparo psicológico, o atleta pode ser afetado pelos comentários, porque é um ser humano e ninguém gosta de sofrer algum ataque. Se não há preparo, a sugestão é restringir os comentários das postagens. É preciso ter muito cuidado para não responder, não pode ser feito no mesmo dia, sempre no dia seguinte, com mais calma. Para quem tem estafe mais preparado, uma boa alternativa pode ser responder admitindo que não atuou tão bem, mas que está trabalhando para melhorar, ou perguntar alguma sugestão e demonstrar aproximação com o seguidor, porque a pessoa gosta de se sentir próxima.

COMO EVITAR SER HACKEADO

Por terem milhares e até milhões de seguidores, muitos atletas são alvo de hackers. O advogado sugeriu algumas medidas para evitar os ataques. "Há diversas possibilidades de clonagem das redes. Sempre alerto para atualizar o sistema operacional assim que já estiver disponível, ter uma senha específica em cada conta na rede social, deixar o celular em bloqueio automático e ler os termos de uso dos aplicativos. Se por algum tiver alguma conta hackeada, é preciso fazer um boletim de ocorrência, contatar a operadora e o aplicativo o mais rapidamente possível e trocar de chip".

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