Felipe Rau/Estadão
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Clubes sem rumo

Santos e Palmeiras de novo tentaram a sorte com técnicos novos e logo voltaram atrás

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2018 | 04h00

Os clubes vira e mexe puxam a conversa da modernidade. Dentre várias ações para provarem disposição para o novo – algumas só perfumaria –, contratam promissores técnicos revelados no mercado. Santos e Palmeiras recorreram a essa estratégia, e no início do ano anunciaram Jair Ventura e Roger Machado, respectivamente, para tocar projetos de grandeza.

Sete meses depois, e com poucos dias de distância, ambos foram dispensados, sob a alegação de que não haviam dado a resposta desejada. Os santistas colocaram Serginho como quebra-galho, até definirem substituto, e os palestrinos apelaram pela terceira vez para Felipão.

Nem vou entrar no mérito das mudanças, muito menos se houve ou não tempo para Jair e Roger provarem condições de segurar o rojão. Divagações a respeito do tema tendem a repetir-se. Ficamos na base do “foi precipitado”, “não foi”, “o calendário massacra”, “no Brasil é assim mesmo”, etc e tal.

Chamam a atenção a incoerência, a falta de critérios nas escolhas e a ausência de convicção nos rumos a seguir quando se trata de traçar diretrizes para o futebol profissional. Percebe-se, até, esboço para sair de figurinhas outrora carimbadas, desejo de ousar, de descobrir talento raro – quem sabe um Carille? – e de não gastar fortunas com salários e comissões técnicas caras.

Louve-se o movimento. As gerações se sucedem em qualquer profissão, as trocas ocorrem, são leis da natureza. Uns vêm, brilham, passam e dão lugar para gerações sucessivas. Viva a vida.

No caso dos times, o problema está na insegurança e no desconhecimento de dirigentes. Alardeiam a chegada de tempos diferentes, mas a maioria sucumbe à pressão de torcidas, tão logo se acumulem resultados insatisfatórios; daí, trocar de professor surge como caminho fácil e apaziguador. Raramente um cartola, ou executivo remunerado, dança por causa de escolhas erradas. Estes pairam acima do bem e do mal.

Mexem e rezam para que dê certo. Se houver reação, vêm a público gabar-se da agilidade na correção de rota e assim seguem até a próxima derrapada. Não percebem como as guinadas escancaram a conversa mole de planejamento, profissionalismo e babados do gênero. Por isso, “projeto” é palavrinha chinfrim e sem crédito no mundo da bola.

Os administradores têm medo da reação popular e se respaldam em nomes de peso, quando a temperatura sobe. Não será diferente agora no Palmeiras com a chegada de Felipão. Ele vem para aplacar a ira dos fãs. Pouco importa que planos tenha apresentado – e nem teve tempo para isso, pois menos de 24 horas transcorreram entre a dispensa de Roger e o acerto com Scolari.

Bateu desespero de que se perca mais uma temporada de alto investimento, enorme expectativa e tremendas frustrações. O Brasileirão complicou, mas restam Libertadores e Copa do Brasil. Felipão, lá atrás, se mostrou hábil condutor de equipes em tais competições. Como será agora?

O avanço e recuo de Santos e Palmeiras no comando dos elencos expõe também a incerteza do mercado de técnicos. Alguns personagens famosos vão sendo tragados pelo tempo (o que é normal) e a maior parte dos jovens ainda não vingou. Há o lusco-fusco – e disso se beneficiam os veteranos, no que fazem bem. O desafio está em provar que não sobressaem só pelo currículo.

Vale reflexão para os novos técnicos: será que a vontade de cavar espaço não leva a opções equivocadas? Não valeria a pena adquirir rodagem em clubes menores, durante algumas temporadas, até ficarem calejados? Pegariam tarefas maiores com lastro, com casca mais grossa. Enfim, com mais respaldo.

Há risco de talentos como Roger, Jair, Eduardo Baptista, Fernando Diniz se queimarem por precipitação. Mas cada um cuida da própria vida.

 

 

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