Clubes sofrem com o ‘fatiamento’ dos atletas nas negociações

A divisão por trás da venda de jogadores ajuda a esvaziar receitas e diminuir o lucro nas transferências para o exterior

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2017 | 07h05

A venda do atacante David Neres, do São Paulo, para o Ajax, da Holanda, levantou novamente uma discussão no futebol sobre o ‘fatiamento’ dos jogadores. Como o São Paulo possuía 100% dos direitos do atleta, teve um lucro total na negociação. Diferentemente de muitas outras transferências que o futebol brasileiro costuma fazer.

O Corinthians, por exemplo, negociou no ano passado o jovem Matheus Pereira, grande promessa das categorias de base do time. Só que o clube do Parque São Jorge só possuía 5% dos direitos do meia e até preferiu não receber nada naquele momento pela transação para manter a porcentagem e tentar lucrar um pouco mais no futuro. O caso não é único, mas mostra como os clubes brasileiros têm dificuldade em ter os direitos do atleta em sua totalidade.

“Houve uma certa banalização no uso desse instrumento de negociação. Isso levou no médio prazo ao esvaziamento de grande parte dessa receita pelos clubes, que utilizaram dessa modalidade como forma de motivar o jogador, reduzir a remuneração do atleta e agente em troca de porcentual, garantia em empréstimos ou investimentos realizados por terceiros com o propósito de financiar a operação. Enfim, na essência, o problema é de má gestão”, diz Thiago Scuro, gestor especializado em futebol.

Ele lembra que havia muitas variações no formato dos contratos, mas com a regulamentação do TPO (Third Party Ownership) pela Fifa, que exige que os novos contratos só podem considerar clubes que o atleta tenha atuado. Mas alguns jogadores têm registro anterior, ou os empresários e atletas dão um jeito de terem mais participação no negócio. “Sem uma política e limites definidos, muitos clubes abriram mão de grande parte do potencial futuro do jogador, e o futuro chega rápido”, comenta Scuro.

Nesta janela de transferências para a Europa, por exemplo, o São Paulo negociou David Neres por 12 milhões de euros (cerca de R$ 40 milhões) e ainda ficou com 20% dos direitos. Ou seja, lucrou a totalidade e ainda tem participação em venda futura, sem contar a porcentagem que ganhar por ser o clube formador. A quantia pode ser aumentada ainda em aproximadamente R$ 10 milhões caso Neres alcance algumas metas estipuladas na Holanda.

Caso o São Paulo tivesse negociado também o zagueiro Lyanco (proposta de R$ 17 milhões da Juventus, da Itália) e o atacante Luiz Araújo (oferta de R$ 22,1 milhões do Lille, da França), teria direito a 70% e 80% dos valores, respectivamente. Ou seja, o clube não consegue manter 100% dos direitos em todos os seus atletas. Os dois tinham propostas do exterior, mas acabaram ficando.

No Corinthians, a negociação de Matheus Pereira no ano passado tocou em um ponto importante, que foi a baixa participação de um clube que é uma grande vitrine no atleta. A venda por R$ 8,4 milhões (em valores atualizados) não deu nenhum retorno para o clube do Parque São Jorge, que tinha direito a apenas 5% e preferiu abrir mão da quantia para tentar um lucro maior em uma possível venda da Juventus para outra equipe no futuro.

Numa comparação, se o São Paulo ganhou R$ 40 milhões com Neres, o Corinthians obteve cerca de 32 milhões de euros (R$ 107 milhões na cotação atual) com as saídas de 12 jogadores em um ano: Gil, Felipe, Renato Augusto, Elias, Pato, Jadson, Malcom, André, Vagner Love, Ralf, Bruno Henrique e Luciano.

Após negociações nas quais o clube pouco ganhou, justamente por abrir mão de parte dos direitos de alguns jogadores por causa da dificuldades em viabilizar contratos mais vantajosos aos atletas, a diretoria decidiu que faria um esforço para que tivesse partes maiores neste fatiamento dos direitos. “Aumentar o investimento e atenção aos jovens atletas em formação. Esse é o desafio para manter o futebol brasileiro em alto nível e as finanças mais saudáveis”, explica Scuro.

O especialista lembra que, quanto mais um atleta é fatiado, pior para o clube. “O primeiro prejuízo desse processo foi técnico. A distribuição desses porcentuais dificultou ainda mais a permanência, já que o clube fica com controle limitado e os detentores de direitos econômicos passaram a pressionar clubes e atletas pela transferência. Já no âmbito financeiro, gera um processo de perder um grande atleta e não ter possibilidade de incremento significativo de receita.”

Em dificuldades financeiras, o futebol brasileiro agora tenta mudar a dinâmica em relação aos direitos econômicos dos atletas, principalmente na base. Com maior parte no ‘fatiamento’ dos atletas, os clubes terão maior poder de barganhar em qualquer transferência.

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