Paulo Liebert/Estadão
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Colunas

A preocupação exata pela precisão histórica resulta muitas vezes numa mutilação do pensamento

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2019 | 04h00

Minhas colunas não são documentos, são confissões. O que significa que não repousam sobre pesquisas, exames de arquivos, memórias oficiais, mas sobre lembranças vivas, intensas, que chegam a mim misturadas, frequentemente de um só impulso, portanto sujeitas a erros. Tenho enfrentado esses erros mais ou menos dignamente no decorrer desses anos em que todos os domingos mendigo alguma atenção dos leitores.

Sempre acreditei que interrupções para averiguação de fatos acabam afetando o que estou escrevendo. Um dado correto não acrescenta, a meu ver, muita coisa à qualidade de um texto. E o que me interessa é a qualidade de um texto. A preocupação exata pela precisão histórica resulta muitas vezes numa mutilação do pensamento. Certos erros, muitas vezes, na maioria das vezes diria, auxiliam a beleza de um texto.

E o que me importa também é escrever um texto que me daria prazer em ler. Raramente consigo, não por culpa do assunto, sempre o mesmo, mas por culpa minha. O futebol é um campo infindável de fábulas e, mais do que isso, um campo de interpretações possíveis do País. Todo o Brasil está contido no futebol, e é possível acompanhar as mudanças do futebol e confrontá-las com as mudanças da sociedade no mesmo período e verificar como uma acompanha bem de perto a outra.

Todos os temas, da violência à desigualdade, às modificações drásticas da economia, à exclusão social, à especialização desmesurada, às imensas modificações nos modos de trabalho, tudo isso aparece numa e na outra ao mesmo tempo, é só ter olhos para ver.

Voltando aos textos, minha intenção nunca foi desvendar segredos sobre coisas que ocorrem em campo, mas, ao contrário, descobrir com o leitor, se o tiver, coisas que acontecem mais fora do campo do que nele. Provocar no leitor algum tipo de sensação, que lembre de situações que possa ter vivido como torcedor, sensações muitas vezes que não pode dividir com a crítica especializada, apenas com colegas com quem toma uma cerveja no fim da tarde, nos tempos em que esse ritual ainda era possível.

Pois eu não passo de um torcedor como outro qualquer. Não posso, nem poderia, posar de profissional num meio em que há pessoas que admiro profundamente e que vêm se dedicando ao jornalismo esportivo por anos e anos, com valentia, talento e conhecimento que só profissionais possuem. Sou uma espécie de impostor dentro do jornalismo esportivo, onde, para minha sorte, fiz amigos que me protegem de quando em quando, alertando para erros e gafes dos textos.

Meus erros têm assim atravessado os anos e eu e meus amigos do jornal, de certo modo, nos acostumamos com eles. Nunca me incomodei muito. Como disse antes, me incomodaria muito mais se produzisse textos óbvios, ainda que absolutamente exatos. Aceitava meus erros como se fossem uma inevitabilidade de um texto bem escrito.

Como de hábito me enganei e só vi isso quando errei feio. Na coluna anterior a essa, que escrevi sobre a lendária Edição de Esportes do finado Jornal da Tarde, sem mais aquela, sem testar a verdade dos fatos, sem me dignar a checar coisa alguma, escrevi com todas as letras que o jornalista Vital Battaglia estava morto. Foi o mais detestável engano que cometi desde que a coluna existe.

Não tenho muito a dimensão desse engano. Se é muito grave ou não depende de cada um. Para mim estragou completamente minha semana. Grave ou não, como justificar que num texto em que tinha por objetivo exatamente exaltar o jornalista, ao mesmo tempo dava uma informação tão falsa sobre ele?

Não tenho como me absolver diante do Battaglia. Apenas pedir publicamente que me desculpe. Como consolo, que as palavras que disse sobre ele, sobre o jornalismo que ajudou a produzir, sobre a novidade que ajudou a criar, permanecem exatamente as mesmas, apesar do lamentável engano biográfico.

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