Rubens Chiri / São Paulo
Rubens Chiri / São Paulo

Com avanço da vacinação, 97% dos jogadores da Série A tomaram ao menos a 1ª dose contra covid

Levantamento do Estadão com clubes do Brasileirão mostra que a competição segue padrão do País e a imunização se encaminha dentro das quatro linhas

Rodrigo Sampaio e Marcio Dolzan / RIO, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2021 | 10h00

Dentro de campo, o Brasileirão se encaminha para ser um campeonato imunizado. Ainda que a vacinação contra a covid-19 não seja uma exigência para a disputa da competição, um levantamento feito pelo Estadão com 17 dos 20 clubes da Série A mostra que mais de 97% dos jogadores receberam pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19. E, do total, quase 1/3 já está com o esquema vacinal completo.

Os números se baseiam em informações repassadas diretamente pelos clubes. Dos times que disputam a elite do Brasileirão, Athletico-PR, Fluminense e Sport não retornaram os contatos da reportagem com os dados.

Entre as equipes que responderam ao levantamento, Juventude e Atlético-MG informaram já ter todo o elenco vacinado com as duas doses - o time mineiro tem uma única exceção no grupo de 32 atletas. Entre os treinadores, 15 já estão 100% imunizados, enquanto apenas um aguarda a segunda dose. Vale ressaltar que o América-MG, um dos times entrevistados, estava momentaneamente sem técnico durante a pesquisa. 

A maior parte dos jogadores que disputam a Série A, contudo, tomou apenas a primeira dose. A explicação está no calendário nacional de vacinação, baseado em ordem decrescente de idade e com variações nos Estados. Como a maior parte dos jogadores tem menos de 30 anos, a imunização é mais recente.

O elenco atleticano, por sua vez, está com a vacinação completa e há mais tempo porque o clube aderiu à campanha de imunização oferecida pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) aos clubes que disputaram competições continentais este ano. Em abril, a entidade anunciou um acordo com a farmacêutica chinesa Sinovac Biotech para receber, em forma de doação, 50 mil doses da Sinovac.

De qualquer forma, o alto índice registrado na Série A chama a atenção, em especial se comparado a outras grandes ligas. Na Inglaterra, por exemplo, a Premier League encaminhou uma carta aos clubes no início do mês demonstrando preocupação pelo baixo número de imunização entre os jogadores - apenas sete dos 20 clubes tinham mais da metade de vacinados com a primeira dose.

Nos Estados Unidos, a NBA enfrenta problema semelhante, e algumas franquias estão barrando jogadores que se recusam a se imunizar. O caso mais emblemático é o do astro Kyrie Irving, armador do Brooklyn Nets. A equipe de Nova York afastou o jogador de 29 anos e anunciou que não vai oferecer uma extensão de contrato ao atleta. Por sua vez, Irving alega "liberdade individual" para não se vacinar. A liga norte-americana de basquete conta com 96% dos atletas vacinados, segundo Adam Silver, comissário da liga.

Proteção

Os bons dados de imunização no Brasileirão ajudam a explicar o baixo índice de infectados pela covid-19 na atual edição do campeonato. Não há números consolidados, mas os casos têm sido isolados e não têm impactado as equipes. Em comparação, na edição passada, nada menos do que 302 jogadores e 18 técnicos da Série A tiveram covid-19. Treze das 20 equipes apresentaram surtos de covid. O Palmeiras, por exemplo, chegou a ter mais de 20 integrantes da equipe principal infectados em único mês. E não foi o único. Os surtos pegaram times como Flamengo e Corinthians também.  

Vice-presidente de Patrimônio e Administração do Internacional, Victor Grunberg afirma que a chegada da vacina foi essencial para a equipe gaúcha praticamente não registrar casos de covid-19 no Brasileirão deste ano. Na edição passada, 17 integrantes do grupo colorado foram infectados, incluindo o ex-técnico Abel Braga. Todos os casos no futebol se apresentaram mais brandos, sem a necessidade de internações.

Vacina

"A vacina está sendo fundamental para nos mantermos sem casos no clube, mas a constante testagem de jogadores e colaboradores foi que permitiu atuarmos na prevenção constante de surtos e contágios", diz Grunberg. Desde o começo da pandemia, os times de futebol fazem testes a cada dois dias. Jogadores que quebravam o isolamento eram punidos, como ocorreu com Gabigol, do Flamengo, pego num cassino em São Paulo, e Patrick de Paula, do Palmeiras, em um restaurante com a namorada.

Grunberg conta, ainda, que uma série de normas implementadas pela área de Segurança do Trabalho foram determinantes para o baixo número de contágios em todos os departamentos, especialmente no de futebol. "A conscientização dos protocolos ocorreram por cartazes, e-mails, vídeos internos e, principalmente, pelos constantes feedbacks do pessoal da Segurança no Trabalho."

A vacinação de jogadores é vista por especialistas como essencial para brecar a disseminação do coronavírus. "É uma forma de proteção para os atletas, mas também para toda a equipe que dá suporte ao time e à torcida. A gente olha o atleta num campo, vê que ele é gigantesco e que o atleta está distanciado, mas esquecemos que há toda uma equipe de preparação técnica que trabalha com ele no jogo e anteriormente ao jogo", lembra Raphael Guimarães, que é pesquisador em Saúde Pública na Fiocruz.

Guimarães ainda ressalta outro ponto: o bom exemplo que um jogador vacinado passa para a torcida. "Saber que o atleta está vacinado, e ele dizer que está vacinado, dá à população uma mensagem positiva de que é necessário vacinar para combater a pandemia. Existem muitas teorias que falam sobre isso. A Teoria da Difusão mostra o quão representativo é você pegar uma pessoa de destaque, que é midiática, e o quanto que uma atitude dela representa numa mudança do comportamento da população como um todo", pontua.

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