Miguel Medina/AFP
Miguel Medina/AFP

Com dinheiro da China e linha-dura de Conte, a gigante Inter começa a acordar

Clube de Milão volta a brigar pelas primeiras posições do Campeonato Italiano após quase dez anos de fracassos. Saiba por quê?

Mateus Silva Alves, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 12h00

A campanha da Inter de Milão faz lembrar seus tempos de glória, quando o time mandava na Itália e também na Europa. Seus jogadores eram os mais badalados e os títulos iam se somando temporada após temporada. A última delas ainda, em 2010, ainda guarda emoção em seus torcedores. O dia era 22 de maio e a torcida da Inter estava no céu. No Estádio Santiago Bernabéu, templo do Real Madrid, o time italiano venceu o Bayern de Munique por 2 a 0 e fechou com o título da Liga dos Campeões da Europa a melhor temporada de sua história - o clube já havia conquistado o Campeonato Italiano e a Copa da Itália. Mal sabiam os tifosi interistas, porém, que a decadência azul e negra começava exatamente ali, entre muitos abraços e o espoucar de garrafas de espumante.

Logo depois da tríplice coroa, o técnico José Mourinho se mandou para o Real e o desmanche do time foi inevitável - o projeto esportivo da Internazionale não resistiu à saída de seu líder. Desde então, com a razoavelmente honrosa exceção de uma Copa da Itália vencida logo no ano seguinte, o clube de Milão, que já teve como ídolos os goleadores Ronaldo e Adriano, não ganhou mais nada. Pior, viu de longe a Juventus estabelecer uma hegemonia sem precedentes no futebol do país. E só agora, depois de apanhar por quase dez temporadas, a Inter dá sinais de que está dando a volta por cima.

A história recente da outrora poderosa Inter começou a mudar em junho de 2016, quando o grupo empresarial Suning, da China, comprou do indonésio Erick Thonir a maioria das ações do clube. Em outubro do ano passado, o Suning passou a ser dono de 100% das ações e Steven Zhang (filho de Zhang Jindong, presidente do Suning), de 28 anos apenas, tornou-se presidente do clube.

Com os chineses, chegou o dinheiro, mas não só isso. Giuseppe Marotta foi contratado para ser o diretor esportivo depois de alguns anos cumprindo essa função na Juventus - ele é apontado pela imprensa italiana como um dos responsáveis pela hegemonia do rival de Turim na Itália (oito títulos nacionais consecutivos). Com os euros chineses e o currículo de Marotta, só faltava um treinador acostumado a vencer para o cenário estar completo. Antonio Conte chegou no meio do ano para ser esse homem. Credenciado pelo sucesso na Juve, na seleção italiana e no Chelsea, o técnico empolgou a torcida tanto ou mais do que as novas estrelas da companhia, os atacantes Romelu Lukaku e Alexis Sánchez, ambos trazidos do Manchester United.

"O Conte foi escolhido a dedo porque ele é um profissional muito rigoroso, exige disciplina dos jogadores o tempo todo. E os chineses prezam muito por coisas como organização, hierarquia e disciplina", disse ao Estado o jornalista italiano Andrea Elefante, que acompanha o dia a dia do clube. Não por acaso, a Inter tratou de se livrar do atacante argentino Icardi e do meia belga Nainggolan, ambos com problemas disciplinares no currículo, tão logo Conte chegou.

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O Conte foi escolhido a dedo porque ele é um profissional muito rigoroso, exige disciplina dos jogadores o tempo todo
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Andrea Elefante, Jornalista italiano

 

CHOQUE DE REALIDADE

Nas últimas oito temporadas, a Inter jamais terminou o campeonato nacional menos de 20 pontos atrás da Juventus e só participou duas vezes da Liga dos Campeões (sem contar a atual edição). Um desempenho medonho para um clube tão tradicional. No Italiano em andamento, a Inter da "era Suning/Marotta/Conte" chegou ao clássico contra a Juventus na liderança, o que deixou os torcedores eufóricos, mas a derrota por 2 a 1 em Milão serviu como uma cachoeira de água gelada sobre as cabeças interistas. A avaliação do comando do clube é que ainda falta melhorar bastante para alcançar o nível do time de Cristiano Ronaldo. Por isso, dois jogadores devem ser contratados na janela de transferências de janeiro.

Mesmo com a chegada desses reforços, os comandantes da Inter sabem que superar a Juventus nesta temporada é muito difícil, mas eles não têm pressa. A ideia inicial é consolidar o clube como a segunda força da Itália para em seguida acabar com a supremacia da Velha Senhora e, por fim, voltar a triunfar na Europa, tendo Conte como o "novo Mourinho". Trata-se de um plano ambicioso e a possibilidade de dar tudo errado existe, mas é melhor a Juve tomar cuidado: o gigante azul e negro de Milão está acordando.

Entrevista: Zé Elias

O ex-volante Zé Elias jogou apenas dois anos na Inter (entre 1997 e 1999), mas se encantou com o clube a ponto de se tornar seu torcedor. Por isso, acompanhou com muita tristeza o processo de decadência que a agremiação viveu nesta década. Agora, com os chineses no comando do clube e Antonio Conte dando as cartas no time, o eterno Zé da Fiel voltou a ter fé na Inter. Ele acredita que a equipe voltará a ser poderosa como nos melhores tempos, mas faz um alerta: isso pode demorar um pouco para acontecer. 

Você esteve pouco tempo na Inter, mas criou um grande vínculo com o clube. Por que isso ocorreu?

Tenho um carinho enorme pelo clube, jogar lá foi o momento mais importante da minha carreira, pela grandeza da Inter. Fiquei apegado porque eu era jovem e eles acreditaram em mim. Além disso, tenho muito apreço pela família Moratti (de Massimo Moratti, antigo dono da Inter), criei um vínculo com eles. A Inter, na minha época, era uma grande família.

A Inter está no caminho certo para ser vencedora novamente? 

Acredito que a Inter vai voltar a ser forte. O time está sendo reconstruído com a espinha dorsal que o Conte montou, bem competitiva, com marcação por pressão, o Lukaku brigando lá na frente... É um estilo bem italiano, é assim que o Conte trabalha.

Qual será o papel de Antonio Conte nessa 'nova Inter'?

A Inter sempre teve bons jogadores, mas nem sempre teve técnicos de peso. Às vezes os jogadores se achavam mais importantes do que a instituição, mas o Conte sabe fazer todo mundo respeitar a camisa que veste. Ele é muito sério, muito profissional, é a pessoa certa, até pelo temperamento dele. O Conte consegue fazer os jogadores olharem para ele de baixo para cima.

Por que o clube viveu uma decadência tão acentuada nos últimos anos?

Após a tríplice coroa, os jogadores passaram a achar que a camisa ganharia tudo sozinha, mas camisa não joga. Essas colocações nos últimos anos são vergonhosas para nós, interistas, é difícil de engolir, até pela rivalidade com a Juventus.

A torcida da Inter terá a paciência necessária para esperar os resultados dessa reestruturação?

Acredito que sim. A derrota para a Juventus, não vou dizer que foi boa, mas foi importante no processo de reconstrução. O resultado vai servir para mostrar o que ainda precisa ser feito, foi um alerta para a Inter. Mas acredito que também foi um alerta para a Juventus, que agora sabe que a Inter já consegue engrossar o caldo.

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