Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Com empréstimos e financiamento, Corinthians ficará nas mãos do BMG e da Caixa em 2020

Clube dependerá de um banco para contratar jogadores e do outro para conseguir pagar a dívida da arena em Itaquera

João Prata, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2019 | 12h00

O Corinthians começará a próxima temporada dependente de dois bancos. Para reforçar o elenco e ter um time competitivo em 2020, o time conta com empréstimos do BMG. E para pagar a arena em Itaquera, cuja dívida está em R$ 536 milhões, espera que a Caixa Econômica Federal aceite a proposta de redução do valor das parcelas mensais do financiamento. O diretor financeiro do clube, Matias Romano Ávila, se mostrou otimista com o cenário atual. É ele quem conduz parte desses acertos ao lado do presidente Andrés Sanchez. Especialistas ouvidos pelo Estado, no entanto, dizem que as saídas encontradas para 2020 são preocupantes.

Uma nova parceria entre Corinthians e BMG deve ser anunciada formalmente no início da temporada, ampliando o acordo feito em janeiro de 2019. Com a Caixa Econômica Federal, o clube enviou o pedido de refinanciamento em dezembro e o banco pediu 60 dias para analisar. A resposta deve ser dada no término de janeiro, início de fevereiro. O Corinthians tenta reduzir os valores e ampliar o prazo final, que terminaria em 2028.

Até então, o clube pagava R$ 6 milhões de prestação por mês (oito meses do ano) e R$ 2,5 milhões em quatro meses, naqueles em que os jogos são mais escassos. O Corinthians usa o dinheiro das bilheterias das partidas em Itaquera para levantar o dinheiro das mensalidades da Caixa. 

Nem os bancos nem o Corinthians dão detalhes das futuras negociações. O Estado apurou que o patrocinador master, basicamente, passará a emprestar dinheiro ao clube para fazer contratações. Os R$ 20 milhões à vista pagos pelo atacante Luan, do Grêmio, vieram do BMG, por exemplo. A possível chegada do atacante Michael, do Goiás, também contará com dinheiro do banco especializado em crédito consignado. Corinthians e BMG se juntaram para uma parceria inédita no clube, a de fazer com que os torcedores abrissem contas correntes na instituição financeira. Cerca de 100 mil corintianos fizeram isso nesta temporada. A intenção é bater na casa de 1 milhão de correntistas. 

O BMG, no entanto, não tem relação nem influência nas contratações de atletas. Ou seja, não receberá porcentagem de lucro em uma eventual venda. O Corinthians solicita o valor e o banco faz o empréstimo, com juros mensais de cerca de 3,5% ao mês. O especialista em marketing esportivo, Amir Somoggi, sócio diretor da Sports Value, condenou a iniciativa corintiana. "É o pior cenário possível. O Corinthians tem lastro, tem patrimônio. Mas a cada antecipação, hipoteca o futuro do clube. É como você pedir ao seu chefe para antecipar os 12 meses de salário do próximo ano. Você fica com o dinheiro agora, mas como ficará lá na frente? A construção do estádio foi no mesmo caminho. O Corinthians quis construir, mas não tinha dinheiro para pagar", avaliou.

No ato do primeiro contrato com o BMG, o clube recebeu R$ 30 milhões, correspondentes a duas temporadas de patrocínio e outros R$ 6 milhões em adiantamento referentes a eventuais lucros com a criação do banco digital Meu Corinthians BMG. O acordo tem duração de cinco temporadas, com possibilidade de renovação por mais cinco.

O diretor executivo da Ernst&Young, Pedro Daniel, também é cauteloso para avaliar o tipo de acordo. "A parceria com o BMG é muito mais arriscada do que o financiamento com a Caixa. O acordo expõe o problema de fluxo de caixa do clube", afirmou.

O Corinthians teve um ano ruim financeiramente. A previsão é de fechar com déficit de R$ 144 milhões. A dívida líquida total do clube passa dos R$ 600 milhões. Esse valor é o total do passivo do clube, menos seu ativo e não inclui a dívida do estádio com a Caixa. Matias Ávila tentou tranquilizar os torcedores. "A situação não preocupa", comentou ao Estado. "A dívida anual está relacionada ao pagamento de salários futuro e direitos de imagem. As contas estão em dia. E 70% da líquida é de longuíssimo prazo, de mais de 20 anos", avaliou.

RELAÇÃO COM A CAIXA

O Corinthians teve um ano atribulado com a Caixa. Depois de ficar sem pagar o financiamento por seis meses, o banco acionou o clube na Justiça e cobrou o pagamento restante do financiamento de R$ 536 milhões. Com isso, a Arena Itaquera foi parar no Serasa. O Corinthians negou o atraso e justificou que estava pagando de acordo com um acerto verbal feito com a antiga gestão da Caixa. Nela, o clube pagaria R$ 6 milhões mensais entre março e outubro e R$ 2,5 milhões nos quatro meses restantes, que é quando sua bilheteria diminui porque há menos jogos.

No novo acordo, o Corinthians sugere a mesma forma de pagamento, com valores mais baixos. Por consequência, o estádio não terminará de ser pago em 2028. "Enviamos a proposta e estamos aguardando a posição da Caixa. A relação é ótima, tranquila. Nós queremos pagar e eles receber. Aconteceu o que pode acontecer com qualquer um. Você fica em dificuldade para pagar seu imóvel, você vai lá no banco e renegocia. Pago menos e o prazo aumenta um pouco. Vamos pagar os juros corretos", avisou Matias. A Caixa ainda não se manifestou.

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