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Com investimento alto e bons atletas, Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG dominam futebol no País

Equipes estão nas semifinais da Libertadores e brigam pelo topo da tabela do Brasileirão

Fabio Hecico, especial para O Estadão

13 de setembro de 2021 | 15h00

Readequação financeira, parceria, visão de mercado e ousadia em contratações fizeram de Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG os "donos" do futebol brasileiro. Com elencos poderosos, as equipes vêm se sobressaindo sobre a concorrência e mostrando que podem reinar no País por alguns ciclos. O trio está nas semifinais da Libertadores, entre os cinco melhores no Brasileirão e dois deles estão quase nas semifinais da Copa do Brasil. A questão é: com tamanho equilíbrio entre ambos, dá para apontar qual é o melhor?

Sobrando em campo, o atual bicampeão brasileiro virou o "rei das goleadas" sob a batuta de Renato Gaúcho. Com elenco junto há três anos, o Flamengo não está tomando conhecimento dos rivais e já goleou oponentes do quilate de Santos, Grêmio e São Paulo. Neste fim de semana, na casa do rival, bateu o Palmeiras por 3 a 1 e fez do adversário seu mais novo freguês. Os torcedores santistas, antes do embate do Brasileirão, fizeram até campanha para a equipe perder por W.O., já imaginando um vexame. Levou de 4 a 0 na Vila sem muita resistência. Mesmo com um time forte, a diretoria rubro-negra trouxe recentemente Andreas Pereira e Kennedy, antes da contratação mais badalada, a de David Luiz.

Em Minas, o Atlético faz o mesmo. Com um ataque de respeito comandado por Hulk e agora ainda mais forte com o desembarque de Diego Costa em Belo Horizonte, o time, campeão estadual, lidera o Brasileirão, está firme na Libertadores e na Copa do Brasil e anda sonhando com a volta dos títulos após conquistar a América em 2013. Quebrar o jejum no Nacional após 50 anos é a meta. Para isso, vem se impondo em campo, emplacando vitórias seguidas e mostrando ser um rival duro de ser batido. Virou sobre o Corinthians, ganhou bem de Flamengo, Inter, São Paulo e Palmeiras e deixou Boca Juniors e River Plate pelo caminho na Libertadores. Melhor cartão de visita não há. Cuca mantém os pés no chão e sofre a cada partida.

O terceiro clube dessa trinca é campeão da Copa do Brasil e da América. O Palmeiras se destaca pelo esquema defensivo aliado à regularidade. Mas caiu de produção nas últimas partidas. A derrota para o Flamengo vai levar alguns atletas para o divã. Com peças importantes em todos os setores do campo, o equipe ensaia uma reação e continua forte pelo bicampeonato da Libertadores. Mas tem um osso duro de roer pela frente, o Atlético-MG. Quem passar vai para a final.

O time de Abel Ferreira deixou o rival São Paulo pelo caminho e vem rodada após rodada disputando a ponta do Brasileirão com os mineiros, atrás do terceiro título nos últimos cinco anos. Ganhou em 2016 e 2018.

"Na realidade, não há muito segredo para eles estarem à frente dos demais clubes. O motivo é o investimento financeiro com qualidade e quantidade", diz o ex-técnico Emerson Leão ao avaliar o trio de ouro do futebol brasileiro. "O São Paulo podia estar incluso, mas não se adaptou. E o Corinthians está começando a contratar com cuidado e vai ganhar corpo. Mas os três estão na frente de todos os outros e se os rivais não se mexerem, vai virar rotina só esses três ganharem campeonatos, o que é ruim", diz. "Ficará uma rotina desagradável. Vai ser como na Espanha, onde ganha Barcelona ou Real Madrid e, com raras vezes, o Atlético de Madrid."

Leão lembra de sua época de jogador para comentar que, para o bem do futebol, se faz necessária uma rotação entre os campeões. "Senão, perde a motivação. Na minha época, cada ano surgia um campeão diferente. Hoje, as conversas são sobre quem não vai tomar goleada do Flamengo, para mim, o time mais entrosado dos três pelo tempo. Não dá para aceitar isso. Antes, a preparação era para ganhar. Todos têm de ter ambição."

Mesmo pedindo para os rivais encararem o Flamengo de frente, Leão não esconde seu apreço pelo clube carioca. E ainda pede para Tite levar também Bruno Henrique à seleção brasileira. "Para formar a confraria. É o jogador da velocidade e não é egoísta. Tite levou dois e esqueceu dele."

Ídolo do Palmeiras assim como Leão, o ex-centroavante César Maluco também aponta o trio com vantagem sobre a concorrência. "Realmente, eles são os melhores. Mas acredito numa volta do Corinthians (à briga pelos títulos), está chegando devagarinho e pode se igualar", observa. Para o eterno camisa 9, mesmo colocando o Palmeiras atrás do Flamengo no quesito "continuidade", a confiança é em briga pelos títulos da Libertadores e, sobretudo, do Brasileirão. O Palmeiras é vice-lider. Mas o Flamengo tem duas partidas a menos e apenas um ponto atrás.

"O Palmeiras nunca pode depender dos outros pelo plantel que tem. O certo é dar total liberdade para o Abel Ferreira trabalhar. Ele dá regalia aos jogadores e fala a língua do time", diz Maluco. "Para mim, teria apenas de efetivar o Felipe Melo como um treinador do time dentro do campo e não abrir mão do Gustavo Scarpa, um baita jogador. São eles dois e mais 9."

Os ex-jogadores ouvidos pelo Estadão ressaltam os três anos juntos de Gabriel, Bruno Henrique, Arrascaeta e Everton Ribeiro. Antes de ter um dos mais perigosos quartetos ofensivos, o Flamengo teve de fazer uma reconstrução financeira. Tudo começou em 2013, quando o grupo comandado pelo presidente eleito Eduardo Bandeira de Melo se assustou com a dívida bruta de R$ 750 milhões.

O primeiro passo do Flamengo foi enxugar as contas, baixar os gastos e montar um elenco apenas para não fazer feio. Um plano de geração de receitas entrou em ação. Apenas após novos acordos e renegociações dos débitos que o clube voltou ao mercado. Agora colhe os frutos com títulos e resultados expressivos. Desde a chegada de Renato Gaúcho, o time abusa do direito de fazer gols. Foram 48 em 15 partidas.

"Rapaz, eu converso com o torcedor do Rio e eles já perguntam: 'vai levar de quanto amanhã?'. O time se conhece desde a época do (Jorge) Jesus, o Rogério Ceni não conseguiu dar continuidade, mas o Renato Gaúcho reviveu os grandes resultados", reconhece Cesar Maluco. "Mas o Palmeiras está bem também, tem velocidade, é um time que joga sempre para ganhar e tem uma defesa forte", avalia. "Basta manter o time, não ficar trocando e efetivar o Felipão (Felipe Melo) e o Scarpa. Assim, o Abel vai seguir vencedor até o fim."

Regularidade

Regularidade e força são realmente as características do Palmeiras. E tudo começou com a assinatura da parceria com a Crefisa, em 2015. Com aporte financeiro e contas em dia, o clube adotou a postura de sempre contar com uma equipe principal e um elenco fortes para brigar por taças. Vem erguendo troféus e, apesar de leve queda na temporada, ainda impõe respeito nos oponentes. Com a volta de Dudu e o crescimento de Rony, Rafael Veiga e Scarpa, além da consistência de Gómez e jovens como Renan e Danilo, o Palmeiras vai continuar forte.

"Vejo esses três times muito à frente pelos planteis que montaram. São grandes equipes com suplentes no mesmo patamar. Entram dois, três, saem dois ou três, e não caem, seguem ofensivos e com posse de bola", mostra entusiasmo Paulo Isidoro, ex-jogador do Atlético-MG que trabalha com formação de jovens e não esconde seu entusiasmo com o futebol do time mineiro.

"Está me surpreendendo, fazendo tudo certo. Na época do Sampaoli (Jorge, treinador de 2020) dava sono, só jogava bola para trás. Agora faz jogadas com rapidez e força. O Flamengo até é mais rápido. Sou atleticano,  mas vejo muito igualdade entre ambos. É bonito de se ver os dribles, a velocidade...", analisa. "O Palmeiras vem um pouco atrás." Paulo Isidoro não dá um porcentual de chance de títulos ao clube paulista, mas deixa os cariocas com 90% diante de 89% dos mineiros. Com uma ressalva: "vai crescer com Diego Costa e Hulk juntos. O treinador nem precisará pedir nada para eles."

Já o sempre irreverente Dadá Maravilha aposta que os mineiros têm condições de ganhar tudo. "Hoje é o melhor do Brasil, está com um timaço, maravilhoso, e pode fazer a trinca (levar Copa do Brasil, Brasileirão e Libertadores). Se eu fosse jogador do Galo hoje, seria campeão. Está mamão com açúcar", garante. "Eu disse isso quando fomos campeões em 1971 numa competição com Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o São Paulo de Gerson e Botafogo de Jairzinho. O futebol está bonito de ser ver. Óbvio que se bobear, o Flamengo passa a perna", alerta.

Na visão de Dadá, Atlético-MG, Flamengo e Palmeiras se sobressaem por apostarem na mesma filosofia de investir na força ofensiva. "As outras competições estão equilibradas, porém no Brasileirão só um desastre tira o título do Atlético. Dizem que eu torço para a equipe não ganhar para eu seguir rei por causa do título de 71. Mas não é verdade. Acredito que vai ganhar agora e, mesmo assim, Dadá seguirá o rei do Galo."

Atlético-MG

Diferentemente de Flamengo e Palmeiras, o Atlético-MG começou a se restruturar apenas este ano, com a eleição de Sérgio Coelho. Nos planos do empresário, fazer um gestão administrativa e outra no campo eram necessárias para a equipe parar de bater na trave. Ganhou o Estadual e está confiante em erguer ao menos uma das três competições na qual está forte na disputa. O dirigente reduziu gastos, cortou salários astronômicos na diretoria e investiu pesado em Hulk, Nacho Fernández e Diego Costa para desencantar no Brasileirão, no qual só ganhou em 1971. Lidera e ainda vem bem na Copa do Brasil e na Libertadores.

Com três equipes com muito em comum, semelhanças ofensivas, mas estratégias distintas, nem os especialistas conseguem ser unânimes em apontar qual é o melhor time do Brasil. Todos eles também têm exemplos negativos para não deixar que suas finanças estourem e levem com elas para o buraco o time de futebol junto, como aconteceu, por exemplo, com o Cruzeiro e Vasco e Botafogo. 

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