Com Kleina, o Palmeiras vai ser um time mais 'pegador'

O novo treinador aposta na marcação e na velocidade para salvar o time da Série B

Pedro Proença, Especial para O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2012 | 20h38

SÃO PAULO -  A contratação de Gilson Kleina deixou alguns palmeirenses desconfiados, sobretudo porque ele desbancou Falcão, um craque nos campos, chamado Rei de Roma, elegante e cujo nome teria muito mais impacto. Kleina leva para o Palmeiras a pecha de ser um técnico que passou somente por times pequenos e, teoricamente, sem pegada para tirar a equipe do fundo do poço. Sua chegada leva para a Academia muitas incertezas, que passam, entre outras, pelo jeito de conseguir a confiança dos jogadores até sua forma de montar a equipe, e boa dose de esperança.

Seus trabalhos recentes demonstram que o Palmeiras será uma equipe de forte marcação, de disposição física invejável e de saída de bola rápida para o ataque. Tanto que os ligeiros Mazinho e Maikon Leite (que deve ser o titular), que vinham sendo preteridos por Felipão, voltam a disputar vaga no time. Na Ponte Preta, de onde a diretoria pescou Kleina, quem fazia essa função de dar velocidade ao ataque era Marcinho (jogador do Palmeiras entre 2005 e 2006), que tem dicas de como o Alviverde poderá jogar de agora em diante. "O padrão de jogo da Ponte vem desde o ano passado, quando o Kleina chegou aqui. Nossa equipe não se expunha. Ele armou um sistema de marcação muito forte, com uma saída em contra-ataque muito rápida. O Palmeiras deve ter essa cara."

Portanto, se existia alguma esperança de ver o Palmeiras moldado por sua tradição nos tempos das Academias, a trajetória de Kleina e seu riscado dentro do futebol até agora mostram que o Palmeiras será tudo, menos um time de refinado toque de bola, gols bonitos e placares elásticos. O Palmeiras que começa a se moldar pela batuta de Gilson Kleina, diga-se, pressionado pelo rebaixamento, será um time eficiente na marcação, sem compaixão na defesa e veloz no ataque, com mais transpiração que qualidade.

Para reforçar a marcação e não expor sua defesa, o treinador deve voltar a jogar com Márcio Araújo, Henrique e Assunção (que pode avançar mais ao ataque para chutar de fora ou tentar uma assistência) na contenção, deixando Valdivia mais solto. Pelo menos foi o que indicou o treinamento nesta semana. Antes das alterações táticas, o que Kleina vai tentar fazer é uma mudança comportamental no elenco. "Ele passa bastante tranquilidade e confiança, que é do que o clube precisa agora. O time vive uma rotina de derrotas e isso tem de mudar", analisa o ex-goleiro Velloso, que passou pelo Palmeiras e trabalhou com Kleina em 2000, quando era auxiliar de Abel Braga (hoje treinador do Fluminense) no Atlético Mineiro.

Motivar não significa passar vídeos de auto-ajuda, ser um showman em palestras ou teatralizar em suas preleções. Gilson Kleina é um estudioso do futebol, gosta de ver vídeos dos adversários e falar de tática na preleção, mas também sabe incentivar seus atletas: "Ele era um cara que criticava quando tinha de criticar, mas que sempre ressaltava os pontos positivos da equipe, nossa evolução, nossa qualidade. Nunca foi de humilhar jogador ou delegar culpas", ressalta Marcinho. Além disso, na Ponte Preta, Kleina tinha por hábito proteger o grupo nas derrotas. Ele já fez o mesmo no Palmeiras ao dizer que, caso a equipe caia para a Segundona, assumiria a culpa.

DOAÇÃO

Uma outra característica do Palmeiras deverá ser a entrega dos jogadores. Preparador físico antes de ser promovido a auxiliar de Abel Braga, Kleina exige que sua equipe se imponha fisicamente e, no mínimo, venda caro as derrotas. A Ponte só perdeu por mais de um gol de diferença para Náutico, São Paulo (ambos 3 x 0 para os adversários) e Bahia (2 x 0 para o tricolor no Moisés Lucarelli). Atlético Mineiro, Vasco e Fluminense tiveram trabalho para vencer por somente um gol de diferença. Na base do condicionamento físico, a equipe de Campinas conseguiu grandes resultados fora de casa, como o empate com o então líder, Atlético Mineiro, em Minas, por 2 a 2, e a vitória sobre o Cruzeiro também fora de casa, por 2 a 1.

"Nesse jogo, nós corremos muito pelo Kleina. Quando a partida acabou, dedicamos os três pontos a ele, pois a equipe vinha de uma sequência de quatro jogos sem vencer", relata Marcinho.

FORJADO NAS TRIBUNAS

Pode-se dizer que a 'gestação' de Gilson Kleina no futebol se deu nas tribunas do Couto Pereira, estádio do Coritiba. Quando Abel Braga chegou ao clube, em 1999, Kleina não tinha por hábito ficar no banco de reservas. Ele subia à cabine com um laptop nas mãos e fazia anotação de tudo o que via no: analisava quem havia errado mais passes, quantas vezes a equipe chutara a gol, falhas individuais. Depois dos jogos, entregava os números a Abel. Esse trabalho cativou não apenas ao treinador, mas também o então presidente do clube, João Jacob Mehl. "Nunca tive um funcionário tão aplicado como ele. Se um dia eu voltar ao clube, ele será convidado para trabalhar aqui novamente."

Abel gostou tanto de Kleina que o convidou para acompanhá-lo em outras empreitadas, como no Olympique de Marseille, Atlético Mineiro e  Botafogo. Nesses times, dois aspectos do atual técnico do Palmeiras chamaram a atenção: a diplomacia e a liderança. "O Gilson era o elo entre o grupo e o Abelão. Ele conversava bastante com o elenco, principalmente com Guilherme e Marques, e nos dava bastante confiança. Tinha uma certa liderança e era respeitado por todos", diz Velloso.

MISSÃO

Os números do Palmeiras não são nada animadores para o treinador. De acordo com o matemático Tristão Garcia, o time precisa de 26 pontos para se salvar - fez apenas 20 até aqui. Para tornar a situação mais difícil, nesse caminho haverá dois clássicos (São Paulo e Santos), um duelo com o Internacional no Beira Rio (onde o Palmeiras não ganha por Brasileiros desde 1997) e uma difícil partida contra o Fluminense em casa. De quebra, a começar em sua estreia, tem os confrontos diretos com Figueirense, Bahia, Altético-GO e Flamengo.

O palmeirense torce, mas desconfia. "Salvar ou não o Palmeiras não depende da competência dele, mas dos atletas comprarem sua ideia de trabalho. O time do Palmeiras não é ruim. Só Deus sabe como fizemos 1 a 0 neles aqui no Engenhão", diz Abel. O atacante Josiel, hoje no Cuiabá, que trabalhou com Kleina por oito jogos em 2007, no Paraná, quando a equipe foi rebaixada, acha que o técnico tem condições e que a mudança pode ser benéfica para o grupo palmeirense: "Gilson é um cara gente boa, de bom diálogo e que passa muita confiança. Acho que a troca pode motivar alguns jogadores que ficavam na reserva. O Palmeiras tem chance de se salvar."

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