Benoit Tessier/Reuters
Neymar vai ter recuperar a moral no PSG. Benoit Tessier/Reuters

Com Mbappé em alta, Neymar tem o desafio de ser amado no PSG

Admiração por jovem atacante cresce entre torcedores, que pedem ao brasileiro concentração no futebol e menos estrelismo

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2018 | 06h00

Neymar já enfrentava problemas para se consolidar como o ídolo máximo do Paris Saint-Germain (PSG) antes da Copa do Mundo. Sua performance na Rússia, sua vaidade e seus atos teatrais nos confrontos com os marcadores, combinados ao desempenho do seu colega Kylian Mbappé, campeão do mundo, francês e torcedor do clube desde pequeno, deixam em aberto o papel que o craque brasileiro terá na equipe da capital francesa na temporada de 2018-2019. Para os parisienses, o brasileiro agora terá de se concentrar mais no futebol, reduzir o estrelismo e reconquistar o espaço perdido como xodó da torcida. 

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A análise vem sendo feita por comentaristas esportivos franceses e torcedores ouvidos pelo Estado nos últimos dias, antes e depois do anúncio feito pelo astro da seleção brasileira de que permanecerá no PSG, mesmo com o suposto assédio do Real Madrid. As declarações feitas por Neymar na quinta, aliás, ajudaram a melhorar sua imagem em Paris. Seu silêncio sobre o futuro, a pressão da equipe merengue e a perspectiva de que fosse embora após um ano vinham causando insatisfação entre os torcedores, que não hesitavam em chamá-lo de mercenário.

Mas as declarações de Neymar sobre permanecer no PSG e os elogios ao elenco foram bem acolhidas. Questionado sobre se continuaria no clube, o brasileiro foi taxativo e encerrou as controvérsias. “Continuo, tenho contrato. Fui para lá por um desafio, por coisas novas, por um objetivo. E não mudou nada”, reiterou. Os franceses precisam ouvir isso. 

Também as palavras de reconhecimento e elogios a Mbappé, novo xodó parisiense e francês, foram bem vistas em Paris. “Ele é um fenômeno, um grande jogador. A gente, que está com ele no dia a dia, já sabia disso faz tempo. Fico muito feliz, muito contente, de ele ter feito um grande Mundial”, disse Neymar, que ressaltou a proximidade com o craque de 19 anos. “Falo com ele quase todos os dias.”

Para Bruno Salomon, jornalista e comentarista de esportes da rádio France Bleu, de Paris, encarregado da cobertura dos jogos do PSG, os torcedores do clube saudaram a decisão do brasileiro de permanecer na capital francesa. Mas, informa ele, ainda esperam que Neymar demonstre foco no futebol, menos estrelismo e uma boa convivência com Mbappé. “Neymar pode se tornar o verdadeiro príncipe ou até o rei do Parque dos Príncipes, mas precisa ser mais natural, focar em jogar futebol e não esperar que as pessoas apenas o amem. Ele precisa dar algumas provas de sua aplicação e implicação como jogador do Paris”, entende. 

Segundo Salomon, Neymar perdeu no espaço de um ano o protagonismo no coração dos jovens torcedores franceses. “Na escola, meus filhos não falam mais de Neymar, mas de Mbappé. Por quê? Porque Mbappé contribuiu à equipe. É preciso que Neymar desça um pouco do pedestal. Se Neymar escolheu ficar, espero que tenha compreendido que ele não deve ser apenas uma diva.”

Para Hervé Kohler, um torcedor de referência do PSG, requisitado com frequência pela imprensa francesa, o que os parisienses esperam de Neymar é que ele “jogue bonito e seja decisivo”. “Nós sabemos que ele sabe fazer tudo, mas nos frustra ver seu lado tão frágil. Como as coisas estão, é impossível amá-lo todo o tempo. Nós o amamos, o detestamos, o amamos de novo, o detestamos de novo”, atesta. “O astro do PSG por enquanto não é Neymar. Ele é um astro no mundo, na seleção, mas ainda não no PSG. Queremos vê-lo resolvendo e sendo o cara nos grandes jogos.”

Para Kohler, embora Mpabbé esteja à frente em carisma, Neymar ainda é tido como um craque fora de série, atrás apenas de Cristiano Ronaldo e Messi. “Neymar é o terceiro melhor jogador do mundo, ainda à frente de Mbappé. Nós temos muito orgulho de tê-lo conosco, mas queremos ver mais, queremos vê-lo jogar mais coletivamente e marcar a história do clube.”

Outro jornalista e torcedor do PSG, que pediu para não ser identificado, resumiu em poucas palavras o mal-estar entre o astro e os parisienses. “Neymar se considera maior do que o PSG. A torcida sente que ele pensa isso, e é algo que faz mal.” 

Se o presidente do PSG, Nasser Al-Khelaifi, considera o convívio entre Neymar e Mbappé ideal, um novo contratado do clube, Gianluigi Buffon, demonstra preocupação em mobilizar a energia dos atletas não para a concorrência, mas para a conquista de títulos. “Neymar é uma estrela mundial. Com sua liderança e sua vontade de ganhar, é importante que em torno dele haja muitos companheiros e grandes talentos que tenham o mesmo estado de espírito”, afirmou ao canal beIN Sports. “Creio que o Paris Saint-Germain tenha um time que, se tiver um certo estado de espírito, pode alcançar todos os seus objetivos.”

RAIO X

NEYMAR

Jogos: 30

Gols: 28

Minutos jogados: 2.697

Cartões: 10

Média de gol por jogo: 0,93

Contrato válido até 2022

MBAPPÉ

Jogos: 44

Gols: 21

Minutos jogados: 3.519

Cartões: 4

Média de gol por jogo: 0,47

Contrato válido até 2022

 

 

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PSG vai trabalhar com Neymar para recuperar sua imagem

Equipe tem a missão de levantar a bola do seu grande investimento

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2018 | 06h00

A crise de imagem de Neymar pelo mundo se transferiu para o PSG assim que a Copa acabou, há uma semana. Fontes de alto escalão do clube de Paris confirmaram ao Estado que estão “cientes” de que vão receber de volta um jogador com sua reputação abalada e que o assunto será motivo de “conversas” e redirecionamentos. Na Europa, especula-se que o brasileiro não será apontado como um dos melhores do mundo pela Fifa. Seu projeto de desbancar Messi e Cristiano Ronaldo, e agora alguns outros, como Griezmann, Mbappé e Modric, que entraram na corrida, terá de ser refeito e adiado por mais uma temporada. Não está descartado um controle maior aos passos do jogador em Paris. 

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Neymar terá de fazer sua parte. E ele já começou. Quinta-feira, reuniu a nata da sociedade esportista e artística em São Paulo para um leilão com arrecadação, de R$ 3,5 milhões, revertida ao Instituto que leva o seu nome. O evento contou com a presença do catariano Nasser Al-Khelaifi, dono do PSG. 

O clube tem todo o interesse em trabalhar para superar a crise de credibilidade de Neymar e aguarda o fim das férias de verão na Europa para restabelecer contato. Em breve ele vai se reapresentar em Paris. A meta é que o assunto seja tratado de forma profissional e que o jogador entenda a necessidade de agir de outra maneira. O PSG não faz isso apenas pelo respeito que tem com Neymar. Mas por uma constatação financeira: parte importante de seu modelo econômico foi baseada na chegada do astro. A venda de direitos de TV aumentou seus preços com Neymar, os acordos comerciais se proliferaram e o valor de 222 milhões de euros (R$ 880 milhões) pago pelo atacante passou a ser contabilizado como um investimento mais amplo do que uma mera aquisição. 

Com a Copa, esse modelo sofreu um abalo. E não é o único. O PSG admite que o equilíbrio de poder dentro do elenco pode sofrer abalos após a competição na Rússia. Antes de sair para a Copa, o brasileiro era o centro das atenções e a pessoa mais influente do vestiário. Neymar chegou a Paris como o “cara” da nova fase do clube. Já naquela época, alguns jogadores torceram o nariz. Ele havia tomado a decisão de sair do Barcelona para sair também da sombra de Messi. Em seus planos estavam uma Copa exemplar, um eventual título mundial e o caminho aberto para ser o melhor jogador do planeta em 2018. 

No lugar disso, Neymar volta à França sem a taça, sem um desempenho de destaque e fora da corrida pelo título de melhor jogador do mundo. Teve a imagem arranhada por acharem simulação nas faltas recebidas. Virou meme nas redes. Agora ele terá de conviver com colegas que passaram a ser tratados como heróis nacionais. Está à sombra dele mesmo e de Mbappé. 

Por isso, os cartolas do PSG apontam que a temporada 2018/19, que começará em um mês, pode ser radicalmente diferente para ele. Mbappé, coadjuvante de Neymar, retorna como campeão do mundo e novo “queridinho da França”. 

Entre alguns dirigentes esportivos, os comentários em relação ao brasileiro eram críticos após a Copa. Para os europeus, se o Brasil saiu da disputa derrotado num jogo igual contra a Bélgica, quem de fato perdeu foi Neymar. Gianni Infantino, presidente da Fifa, chegou a rir do comportamento do atleta brasileiro em sua entrevista ainda em Moscou.

 

 

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