Kiko Huesca/EFE
Kiko Huesca/EFE

Com meio de campo habilidoso e faca nos dentes, Uruguai desafia Egito

Sem ruptura com a tradição celeste, seleção uruguaia coloca nova combinação em campo na Rússia

Gonçalo Junior, enviado especial / Ecaterimburgo, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2018 | 00h00

O Uruguai não é mais aquele time que joga só com a faca nos dentes, que aposta nos carrinhos para se impor e que faz da cara feia dos zagueiros um estilo de jogo. Nem do peito estufado diante dos rivais. O Uruguai que estreia na Copa do Mundo nesta sexta-feira, às 9 horas, diante do Egito, em Ecaterimburgo,  coloca a bola no chão, toca e constrói jogadas. Não se trata de uma caça às bruxas ou uma ruptura com a tradição celeste. O time apenas sacou que precisava mudar para não ficar para trás. 

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“Estamos conseguindo unir nossa força de marcação e habilidade para criar”, disse o meia Arrascaeta, um dos símbolos da reformulação uruguaia. 

A mudança teve um ponto de partida bem definido. Diante da Argentina, em Mendoza, pelas Eliminatórias, o time de Messi teve um jogador expulso. Durante todo o segundo tempo, a equipe celeste não conseguiu criar. Não deu um chute a gol e não conseguiu aproveitar a vantagem. Após esse confronto, o zagueiro Godín e o técnico Tabárez conversaram e decidiram que algo precisava ser feito. 

A renovação passa pela convocação de meias criativos e habilidosos e volantes que sabem jogar. Hoje, o Uruguai quer continuar marcando como o fez em toda sua história, mas quer criar também. As peças mudaram. Arévalo Rios não é mais chamado. Alvaro Pereira é coisa do passado. O bom trabalho nas categorias de base (Uruguai foi vice-campeão mundial sub-20 em 2013 e terceiro colocado em 2017) foi revelando jogadores mais refinados, que permitem que o jogo fique mais arejado. 

O time também ficou mais jovem. Isso aconteceu graças à presença de Bentancur (21 anos), Nández (22), Torreira (22), Arrascaeta (24) e Vecino (26). “Quando começamos o nosso projeto em 2006, um dos objetivos principais era reposicionar a seleção uruguaia no cenário mundial e pensar no futuro. Queríamos ter o perfil de determinado jogador e tratamos de formá-lo nas categorias de base. Hoje, estamos colhendo os frutos”, entende o treinador. 

 

A fama do jogo violento uruguaio começou a ser dissipada quando a seleção foi assumida pelo próprio Tabárez, entre 1988 e 1990, e depois em 2006 até os dias de hoje. Ao chegarem ao aeroporto em Ecaterimburgo, local da partida de hoje, alguns torcedores do Uruguai reconheceram a evolução da equipe. “Temos um time mais criativo”, disse o dentista Alvaro Guzman. “Mas não deixamos de ser a Celeste”, completa. 

​BAGAGEM INTERNACIONAL

A experiência internacional também ajuda na mudança do jeitão da equipe. Bentancur é da Juventus; Torreira, da Sampdoria; e Vecino, da Inter de Milão. Nández (Boca Juniors) e Arrascaeta são os únicos que ainda não atuam na Europa. “Nos últimos anos apareceram jogadores de nível com diferentes características. Antes tínhamos companheiros com maior marcação, hoje em dia contamos com jogadores como Rodrigo (Bentancur)  e Matías (Vecino), que têm bom passe e fazem o time jogar de outra maneira. É outra possibilidade para ir ao ataque com mais opções. A bola chega mais clara”, ressalta Nández.

A estreia diante do Egito será uma boa oportunidade para testar a capacidade de o time mostrar suas novas habilidades. Os africanos devem marcar em seu campo para explorar o contra-ataque. Nas Eliminatórias, o Uruguai se deu bem: foi o segundo. Ficou dez pontos atrás do líder Brasil. 

'PUXADINHOS'

Uruguai e Egito se enfrentam hoje no estádio que é provavelmente o mais peculiar do Mundial. A Arena Ecaterimburgo foi reformada para atender a necessidade de público da Fifa, mas sem comprometer a fachada original, construída em 1957. Com isso, setores de arquibancadas foram construídos fora da cobertura do restante dos lugares. São dois setores externos, como se fossem os populares “puxadinhos”.

O modelo de arquibancadas removíveis se assemelha ao implantado na Arena Corinthians, na Copa de 2014. Apesar das preocupações do público com a visibilidade e a ação da chuva e do sol nos locais mais altos, o estádio passou em todas as inspeções da Fifa. A estrutura, apoiada por torres de andaimes, permitirá que o número de expectadores durante a Copa chegue a 35 mil. Ao fim da primeira fase, as arquibancadas serão retiradas e a capacidade do estádio passará para 25 mil espectadores. Além do jogo de hoje, também serão realizados na cidade: França x Peru (21/6), Japão x Senegal (24/6) e México x Suécia (27/6). 

Ecaterimburgo é também uma cidade peculiar. A 1.800 quilômetros de Moscou, é a mais distante da capital a receber uma partida da Copa. Com 1,4 milhão de habitantes, ela fica na região dos Montes Urais, porção leste do território russo, e é conhecida como “a janela para a Ásia”. Simbolicamente, representa o ponto em que Europa e Ásia começam a se encontrar. Rica em recursos minerais, trata-se um dos polos econômicos do país.

 

 

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