Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Com Pacaembu dilacerado, final da Copinha virou polêmica no ‘túmulo do futebol’

Federação Paulista ficou enrascada com clássico, mas Allianz Parque era a escolha natural e possível. Estádio do Palmeiras será o 9º na capital paulista a receber a decisão; relembre os outros

João Abel, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2022 | 10h56

O Santos chiou. Mas o Allianz Parque era a opção óbvia para receber a final da Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2022, diante das circunstâncias apresentadas. Já era fim da noite deste domingo quando a Federação Paulista anunciou que a casa alviverde receberia o clássico entre Palmeiras e Santos nesta terça, 25, aniversário de São Paulo, às 10h.

Após o anúncio, protesto santista com nota oficial nas redes sociais. 

“Desde o término das semifinais, na noite de sábado, o presidente do Santos, Andres Rueda, manteve contato com o presidente da FPF, Reinaldo Carneiro Bastos, argumentando que nosso adversário tinha o direito de jogar com torcida, mas que o estádio deveria ser neutro”, afirmou o clube praiano, em sua conta no Twitter.

Ainda segundo o posicionamento, o presidente do Santos “apontou diversas alternativas para que a final ocorresse seguindo o tradicional princípio da neutralidade”.

Mas quais alternativas eram essas? O Santos poderia ter mencionado.

Desde que o Pacaembu passou a ser reformado, com algumas partes completamente dilaceradas como o Tobogã, para construção de um novo modelo de estádio, sabia-se que a final da Copinha teria que se mudar para outro campo da capital.

E que, houvesse um clássico paulista na decisão, algum critério ou negociação entre as partes teria de ser adotada. 

Bingo. Duas poderosas bases de SP vão duelar pela taça neste ano. E a FPF pareceu simplesmente torcer para não ter que lidar com esse problema. Não teve jeito.

“Após análise minuciosa de todas variáveis envolvidas na grande final da Copa São Paulo e diálogo com a Polícia Militar de São Paulo, a FPF anuncia horário e local da partida entre Palmeiras e Santos”, escreveu a Federação em nota. 

Acrescentando a justificativa para tal decisão: “Enfrentamos a impossibilidade de utilizar o Pacaembu, tradicional palco da final da Copinha, e, por motivos de segurança, outras instalações na capital paulista. Considerando a melhor campanha entre os finalistas e a regulamentação de torcida única entre os clássicos paulistas, o Palmeiras naturalmente teria sua torcida”.

Apesar da demora na divulgação, a escolha do estádio foi acertada. Além do Allianz Parque, as opções eram escassas.

Fazer o jogo no Canindé chegou a ser uma opção sondada caso o Santos tivesse a melhor campanha e direito de torcida única. Mas a verdade é que o estádio da Lusa teria condições difíceis, em especial de gramado, para uma boa partida.

Levar o duelo à Arena Barueri seria desvirtuar um evento tradicional do calendário de comemorações do aniversário da capital paulista. A final da Copinha sempre aconteceu e deve continuar acontecendo na cidade de São Paulo.

O Morumbi, palco tradicional de decisões dos quatro grandes de São Paulo ao longo da história, seria uma escolha ainda mais natural. Os lamentáveis incidentes na semifinal entre Palmeiras e São Paulo, em Barueri, no entanto, mostram que dificilmente o tricolor aceitaria receber a decisão em seu estádio.

O mesmo motivo, elevado à décima potência, pode ser aplicado para a Arena Corinthians. Nem mesmo um apelo do papa, telegrafado diretamente do Vaticano, faria o alvinegro sediar um possível título inédito do Palmeiras em sua casa. Esta opção sequer foi cogitada pela Federação.

O que resta então? Um jogo do porte de Palmeiras e Santos não pode ocorrer no Nicolau Alayon, campo do Nacional, ou na Rua Javari, casa do Juventus. Ainda que estes sejam tradicionais campos paulistanos.

Toda esta confusão é resultado não só da concessão privada do mais democrático estádio de São Paulo, mas também pelo insuficiente decreto de torcida única, que rege os clássicos paulistas desde 2016. Com restrições ineficientes, sem torcida visitante e com pouco diálogo entre torcidas e clubes, São Paulo se consolida como o ‘túmulo do futebol’.

Sem nada a ver com isso, o torcedor do Palmeiras faz sua parte e já esgotou os 70% de capacidade de ingressos colocados à venda para a partida. As crias da Academia e os meninos da Vila tem tudo para fazer um grande espetáculo dentro de campo na decisão da Copinha.

Allianz Parque será palco inédito. Depois de 12 finais seguidas disputadas no Pacaembu, a Copa São Paulo atravessa as ladeiras de Perdizes, na zona oeste, e desemboca seu duelo derradeiro no tradicional Palestra Itália. A casa do Palmeiras é o 9º campo a receber a decisão. Das zonas leste a oeste, os estádios ajudam a contar a história do futebol na capital paulista. Relembre os outros oito:

Centro Educacional e Esportivo Vicente Ítalo Feola. Foi no clube da Vila Manchester, na zona leste de São Paulo, que o Corinthians venceu as duas primeiras edições da Copinha, em 1969 e 1970.

Centro Educacional Pirituba. Em 1971, o torneio cruzou a cidade e foi disputado no bairro de Pirituba, zona norte (ou oeste? há controvérsias).

Estádio do Pacaembu. O municipal Paulo Machado de Carvalho recebeu sua primeira decisão da Copa São Paulo em 1972, no confronto entre Nacional-SP e Internacional, vencido pelo time paulistano. O ‘paca’ se tornaria o estádio com mais finais na história. Até hoje: 1974, 75, 78, 80 a 83, 85, 86, 89 a 94, 96, 99, 2000, 2001, 2003 a 2007 e 2009 a 2020.

Parque São Jorge. Na Fazendinha, o Corinthians teve duas chances de vencer o torneio em seu estádio, mas não conseguiu. Em 1973, perdeu para o Fluminense na prorrogação por 2 a 0. E em 1976, para o Atlético-MG por 1 a 0.

Estádio do Morumbi. A casa do São Paulo recebeu a final em duas edições: 1977, com título do Flu, e 1998, com troféu para o Internacional.

Estádio do Canindé. À beira da Marginal Tietê, o tradicional campo da Portuguesa recebeu a final em 1979, 84, 95, 97 e em 2002, quando a Lusa se tornou o único time da história a vencer o campeonato no seu próprio estádio, após bater o Cruzeiro.

Estádio Olímpico da USP. O campo da Universidade de São Paulo sediou a final em 1988, com vitória do Nacional-SP sobre o América, de São José do Rio Preto.

Estádio Nicolau Alayon. Em 2008, o Pacaembu passava por amplas reformas e a surpreendente decisão entre Figueirense e Rio Branco, de Americana, foi disputada na cancha do Nacional, na Barra Funda, zona oeste da capital.

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