José Patrício/Estadão
Ataíde deu bronca no elenco após queda José Patrício/Estadão

Com punhos de ferro, Ataíde muda o futebol do São Paulo

Vice de futebol blinda departamento contra 'forasteiros' e adota política de sinceridade para tentar fazer clube vencedor de novo

Fernando Faro, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2014 | 07h11

Ataíde Gil Guerreiro é preto no branco. O vermelho que completa as cores do São Paulo é o sangue que corre em suas veias desde o início da década de 40, quando passou a frequentar estádios, e o levou a assumir a vice-presidência de futebol do clube com a missão não apenas de recolocá-lo na rota dos títulos mas para ser uma peça atuante da engrenagem que tenta movimentar o futebol brasileiro em direção ao futuro.

É como se o cargo fosse um acerto de contas com o passado. Ataíde era o representante do Clube dos 13 quando viu Andrés Sanchez liderar o motim que implodiu a entidade durante a negociação dos direitos de TV com a Rede Globo; ele defendia um modelo "socialista" em que um terço do valor total seria dividido igualitariamente, um terço de acordo com o número de torcedores e o restante baseado no desempenho de cada equipe no ano anterior. "Foi um erro, talvez político, de querer brigar com todo mundo na defesa de uma concorrência séria, que era o embrião do que queríamos fazer, que era mexer no calendário e transformar os clubes em donos do futebol".

Antes do "sim", ele já tinha sido convidado algumas vezes para assumir o cargo, mas até então enxergava o departamento como uma parte pequena da máquina que movimenta o negócio. De quebra, sua vida profissional é das mais agitadas: preside o maior escritório de advocacia do país e a associação dos distribuidores da AmBev. Ainda assim, garante que conciliar a agenda apertada não é problema. "Administro muito bem meu tempo", explica.

A rotina começa religiosamente às 5:30 da manhã, quando sai de casa rumo à academia. O São Paulo entra na pauta diariamente entre 11 e 14 horas, horário em que Ataíde vai ao CT e resolve as pendências do time. Administrar bem o tempo, porém, não é o único trunfo. "Eu delego muitas coisas, não sou centralizador. Dentro do grupo tem que ter alguém que comande. No campo, é o Muricy. Delego muita coisa ao Gustavo, negociação, contratos, e tenho muita confiança nele", explica. Descentralizar, porém, não quer dizer que cada um faz o que quer. "Eu dou as diretrizes", afirma. Nem mesmo Muricy Ramalho, que tem amplo prestígio com a torcida, escapa. "Eu digo para ele: 'você manda no futebol, mas seu chefe sou eu e você precisa prestar contas para mim'."

Os punhos de ferro não são exibidos somente para cobrar. Ataíde tem imprimido uma nova forma de gerir o departamento e cortou as benesses a diretores e conselheiros, que agora não viajam mais com o elenco sob as custas do clube. Quando Kaká foi apresentado, encaminhou um e-mail proibindo todo corpo diretivo de subir no palco para tirar uma casquinha do craque - só Aidar teve a honra. As reclamações surgiram aos montes, mas ninguém o confrontou de frente. "Para mim ninguém reclama", diz, aos risos.

As diferenças não param por aí. Num ambiente onde a vaidade é moeda corrente, Ataíde nada contra a maré e prefere a discrição ao estardalhaço das câmeras e microfones; atende a imprensa reservadamente e prefere assistir os treinos quase anônimo para não aparecer. Ele sequer vai ao Morumbi com o ônibus da delegação para evitar os holofotes. "Não gosto dessa badalação, é minha característica. Aquilo é a hora dos jogadores", justifica, ao explicar que não é tímido.

Mas quando vem ao microfone, marca sua presença e confirma a fama de rígido que conquistou nos bastidores. Não há perguntas que fiquem sem respostas e nem meio termo para expor opiniões. "Futebol não pode estar na mão de amadores, mas infelizmente tem amadores", "a Globo é a coisa mais importante para o futebol brasileiro, mas ela tem que ser parceira, não dona do futebol", "me deram carta branca no futebol, então ninguém se mete no futebol" foram alguns dos petardos disparados durante o bate-papo com a reportagem. No auge do clamor da torcida pelo retorno de Diego Lugano, Ataíde contrariou Muricy e Aidar e bateu o pé para que o time não repatriasse o uruguaio sob a alegação de que isso iria inibir jovens como Rodrigo Caio e Lucão. Venceu a queda de braço.

ESPERANÇA

Quando precisa intervir, Ataíde não pensa duas vezes. Dias após a eliminação do São Paulo para o Bragantino na Copa do Brasil, ele juntou o grupo e a comissão técnica para dar uma sonora bronca em todos, inclusive em Muricy, de quem o dirigente é fã. As dificuldades para o treinador acertar a equipe também são relevadas. “Para mim, é o técnico mais trabalhador do Brasil. Ele nos pediu as peças e nós demos, agora ele está arrumando”. As inconstâncias apresentadas desde o começo do ano ficam em segundo plano diante da ideia de dar prazo ao treinador para que ele trabalhe sem pressão. A confiança é tamanha que o clube prepara um plano de integração entre as categorias de base e os profissionais que deverá ser tocada por Muricy.

Assim como Aidar, Ataíde acredita que o time brigará pelo menos por uma vaga na Libertadores e mesmo que o cenário mais pessimista ocorra e o Tricolor fique fora da competição em 2015, ele garante que o elenco, cuja folha salarial bate os R$10 milhões por mês, não será desfeito. “Precisamos gerar uma receita que sustente esse grupo. Reformular nos faria perder mais um ano”, explica, sem esconder que passar a temporada mais uma vez em branco seria amargo. “Tenha certeza de que eu ficarei muito frustrado se isso acontecer.”

BRIGUENTO

Quem vê Ataíde ocupando um dos cargos mais importantes do clube pode não imaginar que seu passado é marcado por confusões fora de campo e algumas brigas homéricas. Numa delas, na Arena Barueri, correu atrás de um fiscal da Federação Paulista de Futebol acusado de ter furado os quatro pneus do carro do então diretor de marketing Adalberto Baptista. Rasgou toda a camisa na perseguição. No início dos anos 90, numa partida da Libertadores, trocou socos com policiais militares em pleno Morumbi.

Hoje, porém, garante estar mais calmo e extravasa a energia como atacante nos campeonatos de futebol na sede do Morumbi. Apesar dos mais de 70 anos - embora aparente, sem exageros, ter menos de 60-, joga numa categoria mais jovem e no campo de medidas oficiais. Atropelado por uma moto, precisou dar um tempo no hobby por causa dos remédios e de uma cirurgia plástica na cabeça para esconder os pontos do acidente. “Tem um jogo de confraternização com o pessoal da imprensa no fim do ano? Então preciso me preparar bem”, diverte-se.

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