Célio Messias/Estadão
Com tratamento igualitário, Ferroviária se consolida como referência no futebol feminino Célio Messias/Estadão

Com tratamento igualitário, Ferroviária se consolida como referência no futebol feminino Célio Messias/Estadão

Com tratamento igualitário, Ferroviária se consolida como referência no futebol feminino

Campeão da Libertadores em 2015, clube é o único com dois títulos do Brasileirão Feminino

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Com tratamento igualitário, Ferroviária se consolida como referência no futebol feminino Célio Messias/Estadão

"A gente não pode pensar que elas merecem menos". A frase de Tatiela Silveira, técnica da Ferroviária, atual campeã brasileira feminina indica a filosofia que tem guiado o clube do interior paulista há quase 20 anos e o modo como os seus gestores enxergam uma modalidade em que as mulheres já estiveram proibidas de praticar no País.  

Fundada em 1950, a Associação Ferroviária de Esportes viveu seu apogeu no futebol masculino no fim dos anos 1960, quando conquistou o tricampeonato consecutivo do interior, também sendo semifinalista estadual na década de 1980, a mesma em que jogou na elite nacional. Mas é na equipe feminina em que se concentram os seus principais feitos e protagonismo.  

Campeão da Libertadores em 2015, o clube é o único com dois títulos do Brasileirão Feminino, competição que começou a ser organizada pela CBF em 2013, com as conquistas de 2014 e 2019, a última delas já no contexto da exigência de que times da Série A masculina contem com uma equipe feminina.  

Na Ferroviária, porém, isso não é uma obrigação, mas filosofia. Em 2001, em uma parceria com a Prefeitura de Araraquara, o clube passou a contar com uma equipe feminina, em investimento que não se restringe a um time profissional, englobando, desde o começo do modelo, as divisões de base.  

"É um projeto longevo, próximo dos 20 anos, onde o trabalho de base sempre foi importante. Começa pelas escolinhas de Araraquara e vai evoluindo até a integração com o profissional, passando pelos campeonatos das diferentes categorias", afirma Carolina Vallim de Melo, a coordenadora do futebol feminino da Ferroviária e ex-goleira do São Paulo.

É a partir desse trabalho com jovens jogadoras que a Ferroviária consegue se manter competitiva mesmo tendo um orçamento inferior a gigantes do futebol nacional, como o Corinthians, seu adversário na final do Brasileirão do ano passado. Afinal, compensa a receita menor com a formação de atletas. "É um trabalho de muitos anos. Somos um clube formador. A gente precisa privilegiar o que é nosso", diz Tatiele.

Para isso, o clube conta com escolinhas em Araraquara para meninas de 8 a 12 anos. Além disso, possui times a partir do sub-14. A filosofia de jogo entre as categorias é semelhante, fortalecendo a integração que permite um aproveitamento maior de jovens atletas no elenco principal, provocando uma redução de custos. E auxiliares da equipe principal trabalham diretamente com times das categorias inferiores.  

No total, o futebol feminino possui oito profissionais dedicados exclusivamente à modalidade. Mas o trabalho do departamento é integrado com o masculino, seja do profissional ou das divisões de base. "Temos uma comissão técnica voltada para as categorias de base que é completamente integrada com a profissional em ideias, metodologia, de como a jogadora deve se preparar para chegar ao profissional comigo", explica Tatiele, detalhando como se dá o trabalho para facilitar a transição entre as categorias de base e o elenco profissional.  

Isso permite que mais de 1/3 do grupo de 26 jogadoras tenha passagem pelas categorias de base da Ferroviária. Muitas delas foram formadas no clube, atuaram por outras equipes e retornaram posteriormente ao time, pois já haviam sido incutidas em seu DNA e tinham conhecimento da estrutura e condições oferecidas pelo clube.  

"A gente trabalha por essa integração, para que quando  estourar a idade na base, a menina integre a equipe adulta. Das 26 atletas, de dez a 12 são formadas no clube. Há o caso de atletas que foram formadas no clube, saíram e voltaram por causa da identidade com o clube, pelo carinho e o trabalho que foi feito de desenvolvimento no clube", comenta Carol.

As jogadoras também possuem acesso à mesma estrutura do elenco profissional masculino. Treinam no CT do Pinheirinho, dividem salas de musculação, fisioterapia e o departamento médico. E, ainda fato raro no futebol feminino, atua no mesmo estádio do masculino, a Arena Fonte Luminosa - na primeira rodada do Brasileirão, marcada para o próximo fim de semana, apenas a Ferroviária e a Ponte Preta mandarão seus jogos no campo em que a equipe masculina atua.  

"O trabalho bem feito dá resultado. A Ferroviária é um time do interior bem estruturado. Tudo que o clube tem é utilizado pelo feminino. O departamento médico é o mesmo, a refeição Não existe diferença. A realidade do feminino e do masculino é muito próxima. Esse esforço é reconhecido por todos que estão envolvidos no projeto", diz Carol.  

Para 2020, o elenco sofreu algumas baixas, mas só de uma titular, a atacante Nathane, conseguindo manter as suas principais jogadoras, como a goleira Luciana, heroína da conquista do título brasileiro ao brilhar na disputa de pênaltis contra o Corinthians, e a meia-atacante Aline Milene.  

Além disso, também se reforçou com sete jogadoras, como a ponta Chú, da seleção e que estava na China, e a meia-atacante Pati Sochor, campeã nacional pelo Santos sem 2017. Não à toa, ambas têm passagens anteriores pelo clube. Com elas em campo, a Ferroviária buscará manter o status de atual campeã brasileira, algo que impulsionou o clube para a liderança do ranking da CBF. Pode até não ter êxito, mas seguirá sendo referência no País quando o tema é o futebol feminino. 

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Saiba onde assistir aos jogos do Brasileirão Feminino 2020

Competição começa neste sábado com clássico paulista e transmissão na TV aberta

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 18h58
Atualizado 07 de fevereiro de 2020 | 19h44

O Campeonato Brasileiro Feminino de 2020 começa neste sábado, dia 8, com 16 equipes e tendo como uma das atrações o fato de todos os jogos serem transmitidos, seja na TV aberta ou na internet. A Ferroviária, atual campeã, estreia no sábado e o destaque da primeira rodada fica para o clássico entre Palmeiras x Corinthians. Os jogos do Brasileirão Feminino vão ser transmitidos pela TV Bandeirantes e pelo Twitter. Ambos mostrarão um jogo por rodada. As demais partidas terão transmissão pela CBF TV, canal de streaming da CBF que fica no Mycujoo, site especializado em tempo real. 

Confira os jogos da 1ª rodada e onde assistir

SÁBADO

  • 15h Kindermann-SC x Vitória-BA (MyCujoo)
  • 17h Grêmio x Minas Icesp-DF (MyCujoo)
  • 17h Ferroviária-SP x Audax-SP (MyCujoo)
  • 17h Santos x Flamengo (MyCujoo)

DOMINGO

  • 14h Palmeiras x Corinthians (TV Bandeirantes)
  • 15h Inter x São José-SP (MyCujoo)
  • 15h Ponte Preta x Iranduba-AM (MyCujoo)

 

SEGUNDA-FEIRA

  • 19h Cruzeiro x São Paulo (Twitter)

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Marco Aurélio Cunha vê Brasileirão Feminino mais atrativo e diz: 'Pode melhorar'

Coordenador da CBF exalta presença de jogadoras da seleção e de clubes tradicionais do País na elite do campeonato

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 15h00

O coordenador de seleções femininas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Marco Aurélio Cunha, está otimista com a disputa do Campeonato Brasileiro Feminino que começará neste fim de semana. O dirigente acredita que a competição está mais atrativa em 2020 com a presença de jogadoras da seleção e de clubes tradicionais no masculino.

Nesta temporada, o campeonato contará com São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro e Grêmio, que conseguiram o acesso no ano passado. Os outros 12 times na disputa são: Santos, Corinthians, Flamengo, Internacional, Ferroviária, Ponte Preta, São José, Audax, Vitória, Avaí, Minas Icesp (DF) e Iranduba (AM).

"Virou um campeonato mais atrativo, com grandes camisas do futebol brasileiros na Série A1, e tendo a Série A2 como fonte de oportunidade para os clubes subirem. Isso agrega interesse do torcedor e gera mídia. São coisas que ajudam a desenvolver o esporte", disse Marco Aurélio, em entrevista ao Estado.

O movimentado mercado da bola também foi motivo de comemoração para Marco Aurélio. Neste ano, por exemplo, a volante Andressinha deixou o Portland Thorns, dos Estados Unidos, e acertou com o Corinthians. Em 2019, a atacante Cristiane e a lateral-esquerda Tamiris, também da seleção brasileira, já haviam retornado ao País.

"As jogadoras já começaram a ter mais interesse em atuar no Brasil de novo. Com está tendo uma valorização maior aqui, estamos começando a competir com o mercado estrangeiro", afirmou o dirigente.

Embora valorize a evolução, Marco Aurélio sabe que a modalidade pode melhorar ao longo dos próximos anos. Dentre as últimas medidas da CBF para incentivar o desenvolvimento do futebol feminino, talvez a que mais tenha surtido efeito foi a obrigatoriedade de o clube ter equipe feminina para disputar a Série A1 do Brasileiro Masculino a partir de 2019. 

"Há muito o que fazer, porque ainda é tudo muito novo. Converso bastante com jogadoras e dirigentes para ver o que pode ser feito para evoluir. A presença do público pode melhorar, mas já estamos com uma boa expectativa para este ano. As transmissões ocorrendo, gera um interesse maior das pessoas", projetou Marco Aurélio.

Futebol feminino x futebol masculino

"Se subirmos o sarrafo demais, vamos perder o produto". É assim que Marco Aurélio analisa o atual cenário do futebol feminino, com algumas reivindicações de jogadoras e clubes tentando se adaptar. Um caso recente que chamou a atenção foi a reclamação de Cristiane após o treino do São Paulo ter acabado antes por causa do jogo entre sócios do clube no complexo social do Morumbi. O elenco masculino trabalha exclusivamente no CT da Barra Funda, enquanto o feminino alterna entre o CT da base em Cotia, o Morumbi e o CT da Barra Funda.

"Entendo o lado das jogadoras e acho justas algumas reclamações, mas o São Paulo voltou a ter time feminino há um ano e meio, está se adequando a isso. É um espaço que está sendo conquistado", avalia Marco Aurélio.

Outro pedido, especialmente de torcedores, é a realização de partidas do campeonato feminino nos principais estádios brasileiros. Marco Aurélio adota cautela e acredita que é algo que pode acontecer no futuro.

"Tem que ter um crescimento gradativo. Podemos ter um público de 40 mil pessoas talvez em uma final, mas a média é muito aquém da lotação. Não estou depreciando, mas é a lógica, precisamos discutir racionalmente. Com o público aumentando progressivamente, é possível começar a jogar em estádios com capacidade maior. Não podemos acelerar de uma forma absurda", opinou o dirigente.

Marco Aurélio também citou as dificuldades para os jogos femininos serem preliminares dos confrontos masculinos, uma sugestão de torcedores e algo até cogitado por alguns clubes. Antigamente, jogos preliminares femininos ou de categorias de base eram normais no futebol. Hoje em dia, porém, não acontecem mais.

"São muitas questões que envolvem um jogo preliminar. Tem patrocinadores diferentes nas placas de publicidade, tem as câmeras de transmissão de cada televisão, o estado do gramado, o horário para liberar o vestiário para a próximo time, o custo com policiamento... É muito difícil conseguir conciliar".

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