Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Com várias taças, garotos do Palmeiras 'passam a perna' nos marmanjos

Depois de dois anos de conquistas no profissional, time só foi campeão com categorias de base

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2017 | 17h00

Após dois anos de conquistas com o time principal, os palmeirenses celebraram apenas os troféus dos meninos em 2017. A equipe conquistou quatro títulos: três no Paulista (sub-11, sub-15 e sub-20) e um na Copa do Brasil (sub-17). Além disso, 18 palmeirenses foram chamados para as equipes de base da seleção brasileira. Um recorde. Até o técnico do sub-15, Paulo Victor, é da seleção. O Palmeiras está se tornando um clube formador de atletas, algo novo no clube. 

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O time não ganhou tudo. Na Copa do Brasil sub-20, parou nas quartas de final; no Brasileiro sub-20, ficou na primeira fase, o sub-17 perdeu a final para a Ponte. Mas a meta interna de cinco finais foi alcançada. “O Palmeiras está colhendo os frutos de uma profissionalização dos últimos anos. Os resultados estão aparecendo em todos os setores, e um deles é a base”, disse João Paulo Sampaio, coordenador das categorias de base.

Ao longo de dez dias, o Estado acompanhou a preparação dos garotos para entender as razões de tantas finais. Excepcionalmente, a preparação foi feita na Academia de Futebol, onde treinam os profissionais. O quartel-general da base, localizado no Parque Ecológico do Tietê, foi fechado pela secretaria de Saúde por prevenção contra febre amarela. 

O clube adotou várias medidas para modernizar a base. Uma delas foi aumentar o número de captadores, os antigos olheiros, responsáveis por garimpar talentos na base do olho e da experiência. Dois viraram cinco. A Copa Palmeiras é um torneio promovido pelo clube em várias partes do Brasil para colher mais joias. Em 2017, foram duas em São Paulo e mais quatro em outras regiões. As famosas peneiras continuam em dois locais da cidade.

Foram criadas categorias de iniciação, de números pares, como o sub-14 e o sub-16. Assim, quando o menino vai disputar um torneio sub-15 ou sub-17, ele já está mais preparado, pois começou a treinar um ano antes. 

O Palmeiras criou o Manual da Base, que mostra o que o clube espera dos jogadores da base. Esse documento, feito a partir de quatro reuniões que duraram 30 horas, levanta o perfil de jogador que agrada ao clube. Um desses traços é a ofensividade. Das equipes que chegaram à final, três ultrapassaram a marca de 100 gols (sub-15, sub-11 e sub-17). Para facilitar a chamada transição, o sub-20 treina diariamente com os profissionais; o sub-17, uma vez por semana, e o sub-15, uma vez por mês. 

O clube pretende formar jogadores para o time principal, fazer negócios e fortalecer a marca. No primeiro item, o time ainda tem um longo caminho a percorrer. No Campeonato Brasileiro desta temporada somente os atacantes Fernando e Matheus Iacovelli e o volante Gabriel Furtado tiveram chance de atuar. Foram apenas 116 minutos. É pouco. 

O cenário não deve mudar em 2018. Com um patrocinador forte e voracidade nas contratações, o time deve continuar apostando cobras criadas. Vide Diogo Barbosa e Lucas Lima, por exemplo. Com isso, os diretores trabalham com cenários alternativos. Um deles é a venda dos jogadores. Na última janela de transferências, cinco jogadores saíram. 

O caso mais emblemático é o de Vitinho. Uma das grandes apostas dos últimos anos, o meia entrou em campo oito vezes desde o ano passado, quando foi promovido aos profissionais, e se transferiu em julho por empréstimo para o Barcelona B. Ele tem jogado com regularidade. O valor de compra é 12 milhões de euros (R$ 44 milhões). Mesmo assim, para 2018, o time quer dar mais chance aos novatos. A meta é escalar pelo menos quatro jogadores por 45 minutos em dez vezes.

Um dos artilheiros do Campeonato Paulista Sub-11 com 20 gols ao lado do companheiro de equipe Endrick Felipe, o atacante Luighi Hanri concilia o início da vida de jogador com questões próprias da infância. Aos 11 anos, ele é apaixonado por vídeo game – seu jogo preferido é o Fifa 2018 que ele joga num Xbox 360, presente de um amigo. Não tempo para jogar mais por que pega quatro conduções para treinar, saindo do Jardim São Luis, na zona sul de São Paulo, até o Allianz Parque, onde um ônibus do Palmeiras leva os meninos para o CT de Guarulhos. Dorme no ônibus e faz a lição de casa no trem – ele estuda no 5.º ano do Colégio Dom Pedro, na Barra Funda. 

Seu pai, Alex Santos, ajuda a manter o equilíbrio entre o jogador e o menino. “Mesmo quando ele joga mal, eu dou um abraço. É uma criança”, diz o vendedor de capas e guarda-chuvas no Allianz Parque.

O apoio paterno entra em campo. Sergipano de Porto Verde, ele foi jogador da base do Santa Cruz (PE). Parou cedo para trabalhar e, de certa forma, completa sua carreira nos dribles do Luighi. Na final do Paulista sub-11, quando o time foi campeão, o motivo de alegria – do pai e do filho – foi a presença de dois ônibus da comunidade onde moram para ver a final. 

Atacante do sub-20, Fernando tem o jeitão de jogador de futebol. Já percorreu grande parte da estrada que Luighi está iniciando. Elogiado pelo técnico interino Alberto Valentim, ele foi escalado no profissional por 45 minutos na derrota para o Vitória, em Salvador. Foi sua primeira viagem. 

Tudo está acontecendo rapidamente na vida do mineiro de Pindorama. Ainda se lembra que chorou ao ser chamado para jogar no Palmeiras quando estava no Democrata de Sete Lagoas. Hoje, mora no alojamento do clube e viaja em todas as folgas para Minas. 

Seu espelho, a exemplo do que acontece com grande parte dos 200 jogadores do clube que treinam das categorias sub-11 a sub-20, é Gabriel Jesus. Espelho mesmo: Fernando fez questão de copiar até as tatuagens que o jogador do Manchester City. Renovou contrato com o Palmeiras até 2022. 

Léo Passos tem apenas 18 anos, mas já uma das joias do clube. Mesmo em seu primeiro ano na categoria sub-20, chegou a ser inscrito como camisa 10 do time na Libertadores, por causa da ausência do meia Moisés no começo da temporada.

Como atleta do elenco principal, chegou a ser relacionado para quatro jogos do Brasileirão, mas não foi utilizado. “Converso com o Zé Roberto e o Willian. É muito importante poder ouvir os mais experientes”. Em Valinhos, cidade onde nasceu, já é reconhecido quase como uma celebridade por jogar no Palmeiras.

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